A Casa das Mulheres de Axé, em Cachoeira (BA), no Recôncavo Baiano, vive um impasse depois que a prefeitura revogou o termo de cessão do espaço físico onde funcionava a sede da organização, argumentando que o local não estaria cumprindo com as atividades previstas. Mobilizações têm acontecido para repudiar a decisão da administração municipal depois que, segundo a organização de mulheres, funcionários da prefeitura teriam violado o espaço.
Em uma publicação nas redes sociais, a entidade divulgou imagens nas quais aparecem guardas municipais fardados diante da casa e afirmou que o local possui assentamentos religiosos, além de representar um espaço de ancestralidade, memória e cultura.

O espaço havia sido concedido pelo poder público ainda no final da gestão do ex-prefeito Tato, pelo período de 30 anos. Segundo a prefeitura, teria ocorrido uma tentativa de alteração da titularidade do imóvel, que, na avaliação do município, representaria um descumprimento das condições estabelecidas no contrato de concessão.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Iyálaxé Juçara Lopes, fundadora do movimento e gestora da Casa Mulheres de Axé, conta que, quando chegaram à casa, em 2020, o local estava muito deteriorado e as primeiras reformas estruturais foram feitas com recursos próprios e da rede de apoio.
Lopes destaca que, mesmo com reformas, o espaço mantinha atividades regulares, com oficinas diversas, corte e costura, serigrafia até, “de forma surpreendente”, no dia 8 de julho, ter suas atividades interrompidas pelo decreto revogando a cessão.
“Fomos pegas de surpresa com a arbitrariedade de ver uma casa que tem um memorial às ancestrais, que abriga uma cozinha comunitária, que tem uma loja com mais de 100 afro-empreendedoras do Recôncavo, mais de 50% de Cachoeira, de quilombos e terreiros, e que seus objetos, suas coisas, seus produtos, nosso maquinário todo foi violado”, afirma.
A fundadora do movimento fala sobre a seriedade do compromisso com os assentamentos da religião de matriz africana. “Como nós somos de axé, a gente não pode chegar em nenhum lugar e não estabelecer as nossas tradições de matriz africana, para estarmos num local seguro espiritualmente e agradando os nossos ancestrais”, explica.
Iyálaxé Juçara Lopes conta que não houve truculência por parte dos agentes públicos, mas que a violação do espaço considerado sagrado não deixa de ser uma violência.
Para ela, uma democracia deveria permitir espaço de diálogo, até mesmo com o poder público, o que nunca aconteceu. “A gente deveria estar caminhando perante a lei e perante o respeito às religiões de matriz africana, à diversidade e a tudo que nosso país e nossa sociedade, infelizmente, precisam muito aprender ainda para que vivamos em paz. E onde não há paz, infelizmente não há justiça”, reforça.
O Brasil de Fato entrou em contato com a prefeitura de Cachoeirinha, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
