SOBERANIA ENERGÉTICA

‘Ainda não podemos abrir mão do petróleo, mas queremos a Petrobras liderando a transição’, diz liderança da única refinaria estatal do Nordeste

Trabalhadores da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, ocupam três cadeiras na direção da Federação Única dos Petroleir

No audio source provided.
Parte da delegação pernambucana no 20º Confup
Parte da delegação pernambucana no 20º Confup | Crédito: Sindipetro PE/PB / Reprodução

O planeta está numa encruzilhada econômica e ambiental. E o Brasil, nação que ocupa um papel destacado neste debate, também se vê numa encruzilhada política que definirá o que será da sua economia no futuro próximo. Se é verdade que toda a classe trabalhadora brasileira será impactada pelas decisões tomadas nos próximos meses e anos, também é verdade que a Petrobras, maior empresa do país, pode ter seu futuro traçado nesse período. E foi neste ambiente que cerca de 400 trabalhadores da estatal se reuniram, no fim de julho, em Salvador (BA), para definir uma posição coletiva da categoria. Entre eles, 16 representantes de Pernambuco.

O Brasil de Fato entrevistou Sinésio Pontes, cientista político e coordenador geral do Sindicato dos Petroleiros de Pernambuco e Paraíba (Sindipetro PE/PB). Ele explicou que para os trabalhadores da Petrobras, não existe contradição entre defender a ampliação da produção da empresa ao mesmo tempo em que pauta a transição para uma outra matriz energética. “Não vemos antagonismo. A nossa posição é a de que a Petrobras, por seu tamanho e força, deve liderar a transição energética no Brasil”, diz ele.

Esse constitui, na opinião de Sinésio Pontes, o principal desafio da Petrobras nos próximos anos. “O Brasil é um país que sequer conseguiu desenvolver bem a sua indústria. Então ainda não podemos prescindir do petróleo — e nenhum país chegou a este estágio ainda”, avalia ele, que defende o investimento da Petrobras no desenvolvimento de combustíveis e partir de outras matrizes e que o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), ligado à FUP, contribua apontando caminhos possíveis nessa transição.

O líder do Sindipetro PE/PE também se posiciona pelo avanço da prospecção e possível exploração de petróleo na margem equatorial, na bacia amazônica, pauta que gerou polêmica nos últimos anos. “Achamos que ela pode ser feita de forma justa com a classe trabalhadora e com as comunidades tradicionais”, resume Pontes. “Não defendemos a ‘descarbonização total e imediata’. Não somos negacionistas e sabemos que ela precisa ocorrer, mas não de forma abrupta”, pontua ele, destacando o papel relevante que o óleo ainda cumpre na economia global. “Basta ver que o sequestro de Maduro, a guerra no Irã e outras têm sempre relação com o petróleo”.

Essa transição, avalia Sinésio, pode ter impacto na refinaria Abreu e Lima (Rnest). “Aqui temos essa característica de 70% ser convertido em diesel. Então precisamos produzir novos combustíveis e avançar nessa transição, para depender menos desses combustíveis. Não podemos parar no tempo. Mas enquanto estes combustíveis forem o motores da economia, temos que refiná-los”, resume.

“Reestatiza Brasil”

Outra prioridade dos trabalhadores da Petrobras é a campanha pela reestatização dos ativos vendidos pela estatal durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. “Neste momento histórico em que temos mais guerras, o Brasil ficou refém do mercado estrangeiro, impactando preços de gás de cozinha e combustíveis, por exemplo. Precisamos reestatizar para manter a nossa soberania energética”, afirma Rogério Almeida, pernambucano que foi eleito para a direção nacional da FUP. “Está no programa de Lula para a reeleição: tornar o Brasil soberano em todos os aspectos, inclusive no energético”, cobra o dirigente sindical em entrevista ao BdF.

O 20º Confup definiu lutas prioritárias dos petroleiros para o próximo ciclo
O 20º Confup definiu lutas prioritárias dos petroleiros para o próximo ciclo | Crédito: Marcelo Aguilar / FUP

Almeida pontua a importância de recomprar as refinarias privatizadas na Bahia, Rio Grande do Norte, Amazonas e a unidade de transformação de xisto em combustível no Paraná, além da rede de postos de combustíveis da BR Distribuidora, vendida por Bolsonaro para a Vibra em 2019. “Os combustíveis não estão tão caros como no governo passado, mas ainda estão caros. Poderiam ser mais baratos se tivéssemos mais controle sobre a distribuição”, explica ele. A responsável pelo processo de refino também define o preço. “Onde não tem refinaria da Petrobras, como na região Norte, o preço dos combustíveis é absurdo”, lembra o petroleiro.

Almeida também lembra da Liquigás, privatizada por Bolsonaro em 2020, impactando nos preços do botijão doméstico. “Hoje o botijão sai a R$ 30 da refinaria, mas o consumidor está comprando por R$ 110”, reclama ele, afirmando que algo similar ocorre com gasolina, diesel e com o gás veicular (GNV). Este último era distribuído pela Gaspetro, que se tornou Compass após privatização no governo Bolsonaro, em 2022. “As distribuidoras aumentam suas margens e obtêm lucros absurdos às custas do cidadão, do motorista de Uber e de quem paga passagem de ônibus e avião”.

A única do Norte e Nordeste

No atual cenário internacional e nacional, aumenta a responsabilidade da refinaria Abreu e Lima, a única do sistema Petrobras nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. “Hoje entregamos produtos para o Brasil todo e para o exterior. Processamos 130 mil barris por dia e durante a guerra no Irã até aumentamos a produção para tentar conter os preços, batemos recorde. Daqui a três ou quatro anos estaremos inaugurando o ‘trem 2’ da refinaria, o que pode nos deixam como a segunda maior refinaria da Petrobras, produzindo 260 mil ou 300 mil barris por dia”, explica Sinésio Pontes. Hoje a Rnest já é, segundo Pontes, “a mais moderna do sistema Petrobras”, além de ser a maior contribuição de impostos para os cofres públicos de Pernambuco.

Líder mulher

O encontro nacional teve caráter histórico não só pela importância das temáticas debatidas, mas por terem eleito a primeira mulher para presidir a FUP em 32 anos de organização. Natural do estado de São Paulo, Cibele Vieira é socióloga, trabalha na Petrobras desde 2002 e está engajada na luta sindical desde 2009, sendo eleita em 2014 para liderar o sindicato que representa os petroleiros de São Paulo, Distrito Federal, Goiás e Mato Grosso do Sul. Em 2017 ela entrou para a diretoria da FUP, reeleita em 2020 e 2023, chegando agora à presidência da entidade nacional. Sobre a eleição de Vieira, Sinésio Pontes se diz “certo e tranquilo de que ela está à altura do desafio. Tê-la como coordenadora nos faz crescer e deve ter reflexo nos sindicatos, onde ainda temos pouca participação feminina”.

O dirigente dos petroleiros em Pernambuco não ficou surpreso. “Para mim não foi disruptivo, não houve surpresa. É o resultado de uma construção coletiva iniciada há um tempo. Desde que entrei no movimento sindical dos petroleiros existe esse debate sobre a importância de destacar as nossas lideranças femininas. Temos cláusulas apontando isso. Então foi natural e acho importante que tenha sido assim”, avalia Pontes. A categoria dos petroleiros é formada por 83% de homens e apenas 17% de mulheres. “Eu me sinto lisonjeado por ser contemporâneo deste momento, por estar a frente de um sindicato regional quando elegemos a primeira mulher coordenadora da FUP”, pontua.

Rogério Almeida destaca ainda que no ConFUP houve uma mesa de debate sobre questões de gênero e o papel dos homens e dos sindicatos na defesa da vida das mulheres. “Precisamos mostrar à categoria que quem causa as mortes, os assédios e ataques às mulheres somos nós, os homens. No patriarcado somos ensinados que o homem é maior e melhor, então causamos violências, às vezes até sem pensar, que atingem nossas esposas, filhas, parentes e colegas de trabalho. Precisamos nos reeducar para combater os feminicídios e apoiar as mulheres”, afirma Almeida.

Cibele Vieira, da FUP
Cibele Vieira, diretora da FUP: ‘Países têm que se juntar contra esse autoritarismo’ | Crédito: Divulgação/FUP

Aposentadorias e outras lutas dos petroleiros

Este ano o ConFUP não discutiu o acordo coletivo de trabalho (ACT), já que o definido no fim de 2025 teve validade de dois anos. Mas segue pendente de resolução uma luta relacionada à perda de benefícios previdenciários dos aposentados da Petrobras. “O fundo de previdência Petros 1 fez vários investimentos errados, teve perdas e hoje está em déficit. Mas a Petrobras não quer arcar com a parte dela no prejuízo e estão realizando descontos nas aposentadorias”, explica Rogério Almeida. Ele está otimista que o problema seja solucionado a partir de um grupo que reúne FUP, FNP, Petrobras, Governo Federal e TCU.

Há ainda um outro tema que ficou pendente em relação ao último ACT: o aumento da participação dos trabalhadores no lucro da Petrobras. Sinésio também pontua, pensando no futuro da empresa, os investimentos que estão sendo realizados na bacia Sergipe-Alagoas, com expectativa de encontrar petróleo a poucos quilômetros da costa dos dois estados. “Pernambuco não tem histórico de exploração, mas caso seja descoberto, a área pode ser grande e isso pode impactar de forma muito positiva a nossa atividade industrial”, torce o trabalhador.

A delegação pernambucana no 20º Congresso da Federação Única dos Petroleiros (ConFUP) representava os trabalhadores da Transpetro (braço da Petrobras responsável pelo armazenamento e transporte do óleo) e da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), a única refinaria remanescente da Petrobras no Nordeste e Norte do Brasil. As duas estão instaladas no complexo industrial e portuário de Suape, entre os municípios do Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, no litoral sul do estado.

O Sindipetro PE/PB tem conquistado espaço na coordenação da FUP desde Luiz Lourenzon, em meados de 2014. Hoje são três: Rogério Almeida, Rogério Santos e Leonardo Buarque. O presidente do sindicato pernambucano optou por não integrar o grupo. “Como sou coordenador aqui, acabo participando das reuniões da FUP e das negociações. Então foi uma opção minha abrir espaço para mais dirigentes nossos participarem desses processos, se apropriarem das discussões, debates e comissões. Esse papel tem que ser dividido”, avalia Sinésio.

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) realiza, anualmente, a sua PlenaFUP, uma plenária com representantes dos sindicatos da categoria em todo o país para debater e definir prioridades desde as lutas salariais como as disputas políticas que impactam a categoria. Mas a cada três anos o encontro muda de nome, vira congresso, ou ConFUP, quando a categoria elege também uma nova diretoria para a FUP, que representa os trabalhadores da Petrobras em todo o país.

Editado por: Rostand Tiago

|

Newsletter