A questão palestina esteve no centro da visita de Estado do rei da Jordânia, Abdullah II, à China. Durante encontro com o presidente Xi Jinping na segunda-feira (24), em Pequim, os dois países reforçaram a defesa da criação de um Estado palestino independente e da solução de dois Estados. Xi apresentou quatro princípios para uma saída política para a questão palestina, enquanto uma declaração conjunta sino-jordaniana definiu a solução de dois Estados como “o único caminho” para uma paz justa e duradoura.
A reunião ocorreu em meio ao genocídio contra o povo palestino na Faixa de Gaza. A Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU concluiu que autoridades e forças de segurança israelenses “cometeram e continuam cometendo genocídio” contra os palestinos no território. Em junho deste ano, a comissão afirmou que Israel continuava cometendo genocídio e denunciou, entre outras práticas, ataques deliberados contra crianças palestinas.
Mais de 73 mil palestinos foram mortos em Gaza desde outubro de 2023, segundo o Ministério da Saúde do território. A ofensiva israelense também provocou uma destruição em larga escala da infraestrutura civil, deslocamentos em massa e uma grave crise humanitária. A ONU continua registrando mortes de palestinos mesmo durante o cessar-fogo.
‘A questão palestina está no centro dos conflitos do Oriente Médio’
Ao receber Abdullah II, Xi afirmou que “a questão palestina está no centro da questão do Oriente Médio”. O presidente chinês defendeu a retomada das negociações entre palestinos e israelenses e a criação de um Estado palestino independente como direção para uma solução política.
O primeiro dos quatro princípios apresentados por Xi é justamente a busca de uma solução política para a questão palestina. O segundo é o de “os palestinos governarem a Palestina”. Xi defendeu que esse princípio seja aplicado tanto à administração da Cisjordânia quanto à reconstrução de Gaza após a guerra. Ao explicar a posição chinesa, afirmou: “A Palestina é a pátria de todos os palestinos”.
O terceiro ponto é humanitário. A comunidade internacional, segundo Xi, deve agir para proteger os civis e garantir a entrada de ajuda. O Conselho de Segurança das Nações Unidas, em particular, “deve assumir efetivamente sua responsabilidade para proteger a segurança dos civis, garantir a entrega de assistência humanitária e pôr fim às catástrofes humanitárias”.
O quarto princípio é a defesa da justiça e da equidade, com respeito ao direito internacional e medidas concretas para enfrentar as causas e consequências do conflito e alcançar uma solução abrangente, justa e duradoura.
A posição foi reforçada na declaração conjunta assinada durante a visita. China e Jordânia defenderam a criação de um Estado palestino independente e soberano nas fronteiras de 4 de junho de 1967, com Jerusalém Oriental como capital, e apoiaram a admissão da Palestina como membro pleno das Nações Unidas.
Para Gaza, os dois países pediram a consolidação do cessar-fogo e a entrada imediata, adequada e irrestrita de ajuda humanitária. Também defenderam que os palestinos administrem seus próprios assuntos no território e preservem a unidade entre Gaza e a Cisjordânia, além de reafirmarem o papel da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA).
Situação agravada
A escala da crise ajuda a dimensionar o contexto das posições apresentadas por Pequim e Amã. Além das dezenas de milhares de mortos, milhares de palestinos permanecem feridos e deslocados, enquanto hospitais e outras estruturas essenciais de Gaza foram devastados pela ofensiva israelense.
Na Cisjordânia, a situação também se agravou. A declaração conjunta condenou a expansão de assentamentos israelenses, o confisco de terras e a violência de colonos na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental. China e Jordânia defenderam o respeito ao direito internacional e às resoluções das Nações Unidas.
A Comissão de Inquérito da ONU também documentou o aumento da violência de colonos e o deslocamento de palestinos na Cisjordânia, apontando que essas ações fazem parte de um processo mais amplo de anexação e deslocamento da população palestina.
Pequim reafirmou ainda seu apoio à Custódia Hachemita exercida pelo rei Abdullah II sobre os locais sagrados muçulmanos e cristãos em Jerusalém.
Abdullah II destacou a importância da posição chinesa para os países árabes. Segundo o rei, a Jordânia valoriza o posicionamento de Pequim sobre o Oriente Médio e seu apoio à causa palestina. “A posição justa da China é muito importante para os países da região”, afirmou.
O genocídio em Gaza também é objeto de um processo apresentado pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça, com base na Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. O processo continua em tramitação e não deve ser confundido com a conclusão da Comissão de Inquérito da ONU: a CIJ ainda não proferiu uma sentença definitiva sobre o mérito da acusação.
Irã e a crise regional
A questão palestina não foi o único tema regional discutido por Xi Jinping e Abdullah II. Os dois líderes também trataram da guerra entre Estados Unidos e Irã e dos riscos de uma nova escalada no Oriente Médio.
Xi afirmou que a China “tem defendido consistentemente um cessar-fogo abrangente e o fim das hostilidades” e a resolução das disputas por meios políticos e diplomáticos. O presidente chinês também defendeu o respeito à soberania e à segurança dos países da região, incluindo a Jordânia.
Na declaração conjunta, China e Jordânia defenderam a manutenção do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã e pediram uma “solução abrangente capaz de eliminar as raízes das tensões” por meio do diálogo e das negociações.
Os dois países também defenderam a retomada da navegação normal pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o transporte internacional de energia.
Xi também destacou o “papel único e importante” da Jordânia no Oriente Médio e afirmou que a China está disposta a trabalhar com Amã para contribuir para a paz, a estabilidade e a prosperidade da região.
China e Jordânia aprofundam parceria
A visita marcou o retorno de Abdullah II à China desde sua última passagem pelo país, em 2015, quando os dois governos anunciaram a criação da parceria estratégica. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1977 e completarão 50 anos em 2027.
Para Xi, diante das mudanças no cenário internacional e regional, uma relação China-Jordânia “mais substantiva e dinâmica” corresponde às expectativas dos dois povos e acompanha o movimento de países do Sul Global em busca de maior cooperação.
O presidente defendeu o alinhamento das estratégias de desenvolvimento e a expansão da cooperação em economia e comércio, infraestrutura, transporte e mineração, além de áreas como economia digital, inteligência artificial e energia verde. Resumiu a relação bilateral dizendo: “A cooperação entre China e Jordânia é essencialmente de benefício mútuo e ganha-ganha”.
O comércio entre os dois países chegou a cerca de US$ 6,7 bilhões em 2025, enquanto os investimentos chineses acumulados na Jordânia entre 2010 e 2025 ultrapassaram US$ 3,56 bilhões.
Durante a visita, os governos acompanharam a assinatura de acordos e memorandos nas áreas de relações exteriores, economia e comércio, cadeias industriais e de suprimentos e cooperação judicial.
Abdullah II também passou por Xangai e Shenzhen durante a viagem, em uma agenda voltada à ampliação da cooperação econômica. Na área de aviação, a Royal Jordanian e a Air China assinaram um memorando para ampliar a cooperação comercial e operacional entre as duas companhias.
A declaração conjunta prevê medidas para lançar voos diretos entre China e Jordânia o mais rápido possível, com o objetivo de facilitar o intercâmbio de pessoas e mercadorias.
Li Qiang defendeu o aprofundamento da cooperação no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota e em áreas como desenvolvimento verde, economia digital e intercâmbios entre os povos. O premiê também destacou a contribuição da Jordânia para a aproximação entre China e os países árabes.
Abdullah, por sua vez, destacou o desenvolvimento chinês e a atuação internacional de Pequim. “Estou verdadeiramente encantado por estar de volta à República Popular da China depois da minha visita em 2015. É um prazer ver como sua grande nação continuou avançando e prosperando ao longo da última década. Valorizamos profundamente nossos laços com a China e continuamos firmemente comprometidos em ampliar a cooperação em diversos campos”, afirmou.
“Respeitamos profundamente a China por seu modelo de desenvolvimento e crescimento econômico, além de sua liderança no cenário internacional.” Segundo Abdullah, a visita demonstra “o compromisso sincero de nossos países em avançar nas relações e no desenvolvimento mútuo.”
A Jordânia reafirmou, durante o encontro, sua adesão ao princípio de uma só China e declarou considerar Taiwan parte do território chinês. Abdullah também expressou apoio às iniciativas globais propostas por Xi e defendeu um papel maior da China no cenário internacional.
