Em abril, a cesta básica de Brasília custou R$ 768,22, quase metade do salário mínimo para alimentar uma pessoa. O aluguel fechou o quarto ano seguido subindo acima da inflação no Distrito Federal. Quem mora longe paga R$ 5,50 na tarifa da faixa longa e gasta até duas horas por trecho. Nada disso é novidade para quem vive no Itapoã, no Sol Nascente ou na Estrutural. A novidade é que agora virou programa de governo.
O DF tem a renda média mais alta do país e catorze regiões administrativas com renda per capita abaixo de um salário mínimo. Essa média produz um efeito cruel: o preço da comida, da moradia e do transporte se forma pelo padrão de consumo da renda alta, e quem ganha pouco paga esse preço com uma fatia muito maior do salário. Falar de custo de vida aqui é a forma mais direta de falar de desigualdade.
O documento que o deputado distrital Fábio Felix (Psol) entregou a Leandro Grass (PT), candidato ao governo do DF, reúne quinze medidas em moradia, transporte e alimentação. Três viraram compromissos para os primeiros 100 dias de governo: a gratuidade plena nos corredores de BRT em todos os dias da semana, o observatório do aluguel com cadastro público de imóveis vazios e a criação do Sacolão Popular dentro dos restaurantes comunitários.
As propostas mais inovadoras e importantes tratam de políticas para reduzir os preços dos aluguéis. O núcleo é um banco público de locação social, com o Estado na posição de locador de longo prazo, formado por terra da Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap), imóveis públicos ociosos e unidades de retrofit no centro.
A escolha responde a um dado preciso: 52% do déficit habitacional do DF não é falta de casa, é ônus excessivo com aluguel, cerca de 70 mil famílias que comprometem demais da renda só para morar. Para elas, subsídio à compra não resolve, porque não conseguem financiar nada. A política habitacional no DF é forte no crédito à casa própria e quase inexistente na locação social, e quem só consegue alugar fica fora de tudo. Para isso, a proposta é aumentar as taxas sobre imóveis ociosos (desocupados por mais de seis meses e um ano) em áreas centrais, instituir o retrofit e permitir habitação nos setores centrais com cota obrigatória de moradia acessível e a regulação do aluguel de temporada (do tipo Airbnb), em que ele disputa com o estoque residencial.
No transporte, a gratuidade plena depende de duas coisas: a nova concessão das bacias, que passa a remunerar as empresas por quilômetro rodado em vez de passageiro pago, e uma fonte perene, o Fundo Distrital de Mobilidade, que precisa ser instituída por lei. Daí a gratuidade avança por fases: primeiro o BRT, depois as famílias do CadÚnico, depois todo mundo. E há um segundo custo que não aparece na passagem: o tempo. Faixas exclusivas nas ligações periferia-centro, frequência garantida nas linhas mais distantes e moradia acessível nos eixos de transporte de massa atacam esse custo.
Entre as famílias de renda baixa do DF, 52,9% dependem do ônibus. Entre as de renda alta, 5%. Melhorar o ônibus é política de renda.
Na alimentação, a aposta é ampliar o que já funciona: levar a rede de restaurantes comunitários de 18 para algo entre 35 e 40 unidades, uma para cada 100 mil habitantes, com três refeições diárias, e usar o poder de compra do governo para encurtar a cadeia. Só 11% do valor da produção agrícola do DF é hortifruti, de modo que a comida chega de fora com frete e perdas embutidos no preço. O plano estende a todos os equipamentos públicos que servem comida o piso mínimo de compra da agricultura familiar, com pagamento ao produtor em trinta dias.
A urgência tem número: 27% dos domicílios do DF estavam em insegurança alimentar em 2024, contra 23% no ano anterior, algo como 845 mil pessoas. O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em 2025 e o Distrito Federal andou na direção contrária.
Custo de vida na agenda política
Essa agenda não nasceu isolada. O plano conversa com o debate econômico internacional e com a agenda de Zohran Mamdani, prefeito de Nova York que ganhou falando sobre custo de vida e tomou posse em janeiro prometendo congelar aluguel, zerar a tarifa do ônibus e abrir mercados municipais. Do lado da teoria, a economista Isabella Weber lança em outubro Anti-Fascist Economics com a tese que vem defendendo desde a inflação pós-pandemia: quando o preço dos bens essenciais dispara e o poder público responde que preço não é assunto de governo, quem ocupa o espaço vazio é a extrema direita.
Aqui entra o dado que deveria organizar a estratégia da esquerda na disputa do Buriti. Entre junho e julho, a Ipsos ouviu 2 mil brasileiros das classes ABC para o Global Fund for a New Economy: 58% acham que o sistema econômico beneficia os ricos e poderosos, 66% querem o governo atuando sobre o preço dos combustíveis e 73% defendem o fim da escala 6×1, com 60% de apoio mesmo entre opositores do governo federal.
Transferência de renda alivia a família, mas não baixa sozinha o preço de mercado, e quem não recebe entende que aquilo não é para ele. A agenda de combate ao custo de vida alcança a cidade inteira, do terceirizado ao casal que gasta metade do salário no aluguel de Águas Claras. Não é socorro, é disputa sobre quem manda no preço.
Na vida de quem mora aqui, o efeito é imediato. É a passagem que deixa de sair do orçamento toda semana, o trecho de duas horas que encolhe, comer alimentos frescos do hortifrúti no lugar dos ultraprocessados, o aluguel que passa a ter número público para ser discutido. Para a família do Sol Nascente, que hoje decide entre completar a compra do mês e pagar a condução dos filhos, isso não é ajuste de política econômica.
Na política, o efeito é maior ainda, e não depende de nenhuma medida isolada. Quando um governo assume que o preço do aluguel, da passagem e da comida é responsabilidade pública, muda o que o eleitor passa a exigir de todo mundo que vier depois. Obriga o adversário a explicar por que 182 mil imóveis vazios convivem com fila por moradia, e por que quem mora mais longe paga mais caro para chegar, mesmo chegando mais tarde. Esse é o terreno em que a esquerda ganha.
Custo de vida é o que mais aparece na discussão da mesa de jantar e o que menos aparece nos programas de governo. Inverter essa ordem em 2026 não é gesto de generosidade. É disputar a eleição no terreno onde a maioria já está.
*Gabriel Santos Elias é cientista político, doutor pela Universidade de Brasília (UnB) e professor do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP.)
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.
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