Cooperação

Da Ásia à América Latina: China se prepara para sediar Reunião de Líderes da Apec em novembro

Encontro reunirá 21 economias em novembro para debater temas como infrestrutura, tecnologia e transição energética

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APEC reúne 21 economias que representam 59,4% do PIB mundial e promove a cooperação econômica na região Ásia-Pacífico
Apec reúne 21 economias que representam 59,4% do PIB mundial e promove a cooperação econômica na região Ásia-Pacífico | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato

A China se prepara para receber, nos dias 18 e 19 de novembro, a 33ª Reunião de Líderes Econômicos da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec, na sigla em inglês), em Shenzhen. O encontro congregará as 21 economias que integram o mecanismo, incluindo México, Chile e Peru, os três integrantes do fórum na América Latina.

Juntas, as economias do grupo contabilizam uma população de 3 bilhões e concentram um PIB de US$ 57,5 trilhões, equivalente a 59,4% do PIB mundial. Em 2025, responderam por 46,8% das importações mundiais e 46,2% das exportações de bens e serviços.

Criada em 1989, a Apec reúne economias da Ásia, Oceania e das Américas em torno de temas como comércio, investimentos e cooperação econômica. Em 2026, a China sedia o mecanismo pela terceira vez, depois de edições em Xangai (2001) e Pequim (2014).

O tema deste ano é “Construir uma Comunidade Ásia-Pacífico para Prosperar Juntos”, com três prioridades: abertura, inovação e cooperação. A programação se estende durante todo o ano, com reuniões ministeriais, encontros técnicos, fóruns empresariais e atividades preparatórias em diferentes cidades chinesas.

Uma das preparações foi o Encontro de Jovens da Ásia-Pacífico: “Construindo um Futuro Compartilhado por Meio da Energia”, realizado em Shenzhen em 21 de agosto. Mais de 60 especialistas, jovens representantes e jornalistas de 13 países e regiões participaram das discussões sobre energia, inovação, conectividade regional e a relação entre eletricidade e capacidade computacional.

Além do encontro de jovens, Shenzhen sediou, entre 29 e 31 de julho, a reunião do Grupo de Especialistas da Apec sobre Eficiência Energética e Conservação. E em setembro, Pequim receberá a Reunião Ministerial de Energia da Apec .

O Brasil de Fato participou do encontro e conversou exclusivamente com representantes de governos, profissionais do setor energético e participantes estrangeiros sobre as experiências de seus países e as possibilidades de cooperação entre as economias do Pacífico. Veja a seguir a reportagem.

Energia e tecnologia no centro da transformação de Shenzhen

A própria Shenzhen ajuda a explicar por que foi escolhida para sediar a reunião de líderes. Em poucas décadas, o município passou de uma antiga área de pescadores a um dos principais centros tecnológicos e industriais da China.

Segundo dados da Apec, o PIB da cidade passou de 270 milhões de yuans em 1980 para 3,68 trilhões de yuans em 2024. No mesmo período, Shenzhen se consolidou como um importante centro de comércio exterior, com movimentação de cerca de 4,5 trilhões de yuans.

Agora, a cidade busca avançar em outra frente: a transformação de sua infraestrutura energética. O crescimento da indústria de alta tecnologia, da digitalização e dos centros de dados aumenta a demanda por eletricidade. Ao mesmo tempo, a China estabeleceu metas para reduzir as emissões e ampliar a participação de fontes de energia limpa.

Foi nesse ponto que o encontro juvenil aproximou dois temas que hoje caminham juntos: energia e tecnologia. Os participantes conheceram a subestação Chunhui, de 110 quilovolts, apresentada pelos organizadores como uma subestação inteligente educacional de carbono zero.

Para países em desenvolvimento, a transição energética envolve uma questão que vai além da redução das emissões: como ampliar o acesso à tecnologia e ao investimento necessários para sustentar o desenvolvimento. A questão ganha outra dimensão com a expansão da inteligência artificial. Quanto maior a capacidade computacional, maior a necessidade de eletricidade e de redes capazes de distribuir essa energia com eficiência.

Para a China e outros países asiáticos, o desafio passa por construir essa infraestrutura. Para países do Sul Global que buscam ampliar sua industrialização, a questão também envolve o acesso a tecnologia, financiamento e cooperação.

A relação entre China e outros países do Sul Global aparece, nesse contexto, como uma aliança possível. A experiência chinesa foi apresentada aos participantes a partir de projetos concretos desenvolvidos em Shenzhen.

Chhoeun Raksmey, diretor de Política de Água Potável do Camboja, destacou em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato os avanços alcançados: “Temos uma boa política para alcançar a neutralidade de carbono em 2050 e também estamos criando oportunidades para que outros parceiros de desenvolvimento se somem, especialmente promovendo o vínculo empresarial entre Camboja e China em matéria de produção verde e limpa.”

Fan Siran, gestora de clientes da China Southern Power Grid em Shenzhen, também conversou exclusivamente com o Brasil de Fato. Ela falou sobre os avanços da transição energética na cidade e a preparação para receber visitantes durante a Apec: “Não sou apenas uma das construtoras, também sou anfitriã, e estou muito contente por poder apresentar o processo de construção e compartilhar nossa experiência com visitantes de diferentes cidades e países.”

Da integração asiática à América Latina

A experiência energética apresentada em Shenzhen chamou atenção para um processo que já ocorre em outras partes da Ásia: a integração das redes elétricas entre países.

A Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), por exemplo, reúne dez países. Dentro do bloco, a integração energética é tratada como uma forma de ampliar a segurança do abastecimento e aproveitar diferentes fontes de geração.

Anthony Hadi, jovem especialista da Indonésia, explicou ao Brasil de Fato como esse processo se beneficia do encontro: “Por meio da Apec e da cooperação com a China, podemos aprofundar essa estratégia e ampliar a cooperação, não apenas dentro da Asean, mas também para toda a região da Ásia-Pacífico.”

Outro exemplo apresentado no evento foi a interconexão elétrica entre China e Laos. O projeto de 500 quilovolts elevou a capacidade de intercâmbio bidirecional de eletricidade de 50 mil quilowatts para 1,5 milhão de quilowatts e permitiu o fornecimento de cerca de 3 bilhões de quilowatts-hora de eletricidade limpa por ano.

Na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, outra frente de transformação energética prevê que as fontes verdes respondam por quase 60% da eletricidade até 2030. São projetos que mostram, na prática, como energia, infraestrutura e integração econômica estão cada vez mais ligadas.

E essa integração não termina na Ásia. Para os países latino-americanos no grupo, a participação representa uma porta de entrada para relações comerciais e econômicas.

No caso do Chile, essa relação tem uma dimensão particularmente forte. Para Magdalena Rojas, jornalista chilena, editora-chefe da revista China Hoy e residente na China, a participação chilena precisa ser entendida em um cenário de crescente interdependência econômica.

Rojas também chama atenção para a dimensão histórica das relações comerciais chilenas com as economias da Apec: “Entre 1994 [ano de ingresso na Apec] e 2004, em um lapso de dez anos, as exportações do Chile para as economias da Apec chegaram a alcançar quase 75%.”

Hoje, a China é o principal parceiro comercial do Chile. O intercâmbio entre os dois países envolve principalmente minerais, como o cobre, além de produtos agrícolas e outros bens.

Para Peru e México, a relação com a China e com outras economias asiáticas também já ocupa um espaço importante de suas estratégias comerciais. Já para a China, a América Latina representa uma região estratégica para ampliar comércio, investimentos e cooperação entre países do Sul Global.

O que está em jogo em Shenzhen

A reunião de líderes de novembro será o ponto alto da programação do ano. Reuniões de altos funcionários, ministros e grupos técnicos vêm preparando documentos e propostas que serão levados à Semana dos Líderes Econômicos.

Em agosto, Dalian recebeu a terceira reunião de altos funcionários da Apec. Outros encontros discutem temas como comércio digital, cadeias de abastecimento, segurança alimentar, energia e pequenas e médias empresas.

É nesse processo que se encaixa o encontro juvenil realizado em Shenzhen. A atividade colocou representantes de diferentes países para debater problemas que atravessam toda a região: energia, digitalização, infraestrutura e desenvolvimento.

As entrevistas feitas pelo Brasil de Fato mostram como esses temas são vistos a partir de diferentes pontos do Sul Global. O Camboja busca parceiros para cumprir suas metas de neutralidade de carbono. A China apresenta a experiência de modernização de suas redes elétricas e de integração entre energia e tecnologia. A Indonésia vê na cooperação regional uma possibilidade de ampliar a conectividade energética. E o Chile destaca a importância de manter canais de integração econômica com a Ásia-Pacífico.

A Apec reúne economias com níveis de desenvolvimento e estruturas produtivas muito diferentes. Ao mesmo tempo, os países enfrentam problemas que ultrapassam suas fronteiras e questões concretas: quem terá acesso às novas tecnologias, como será financiada a transição energética e de que maneira as economias do Sul Global poderão ampliar sua participação no comércio e nas novas cadeias produtivas.

Em novembro, diferentes perspectivas estarão reunidas em Shenzhen, e a Apec terá diante de si o desafio de transformar a interdependência econômica do Pacífico em mais comércio, cooperação e possibilidades de desenvolvimento para seus diferentes integrantes.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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