O presidente do Grêmio Esportivo Cruz da Esperança, Antônio de Jesus Marcos, conhecido como Tio Toninho, classificou como “um passo importante” a decisão liminar da 17ª Vara Cível Federal de São Paulo que determinou a suspensão imediata de qualquer intervenção física no solo e subsolo da antiga área da sede do clube, na Casa Verde, zona norte de São Paulo.
A ordem judicial suspende escavações e terraplanagens para as obras do Parque Municipal Campo de Marte, com o objetivo de proteger o patrimônio arqueológico e sagrado de matriz africana identificado no local. Para Tio Toninho, a determinação judicial “tinha que ter vindo antes, mas pode ser considerada uma vitória para a comunidade”.
Após a demolição completa das instalações físicas realizada pela gestão municipal no final de julho, a comunidade busca reestruturar suas atividades. De acordo com o presidente da entidade, os próximos passos envolvem consultar o corpo jurídico para avaliar as possibilidades de atuação no terreno. “Inicialmente, a ideia é fazer o time voltar a jogar em casa”, diz Tio Toninho.
O líder comunitário explicou a relevância de retomar a utilização esportiva do local, mesmo com os danos causados pela desocupação. “Se a gente pudesse arrumar os buracos que fizeram lá e colocar as traves de novo para pelo menos voltar os jogos, já seria muito importante”, disse Toninho. Segundo ele, as rodas de samba continuam ativas e estão sendo realizadas em outros locais, como no Galpão ZN e no Barracão do Quilombo.
A liminar concedida pela juíza federal Mayara de Lima Reis baseia-se em relatórios de vistorias técnicas conduzidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em junho de 2026, que apontaram alto potencial arqueológico na área da antiga Fazenda Casa Verde e localizaram assentamentos sagrados enterrados em homenagem a divindades como Exu, Exu Siguidi, Ogum e Exu Ologo.
O defensor regional de Direitos Humanos em São Paulo da Defensoria Pública da União (DPU), Murillo Martins, avaliou que a determinação é uma medida necessária para tentar garantir a preservação do acervo.
“A decisão da Justiça Federal reconheceu que há sinais de que existe um patrimônio arqueológico, cultural e religioso de matriz africana”, destacou o defensor público. Martins observou que, embora o processo de demolição prévia das edificações possa ter gerado danos irreparáveis ao patrimônio material do local, que remonta a 1958, a proibição cautelar impõe barreiras sobre o que permanece abaixo da superfície.
“Certamente é uma importante decisão, que reconhece a necessidade de proteção do patrimônio arqueológico, cultural e religioso de matriz africana pelo município de São Paulo e demais órgãos envolvidos”, afirmou Murillo Martins.
O defensor público da União explicou ainda que o avanço das vistorias técnicas do Iphan servirá de base para a formulação de novos pleitos em favor do grupo tradicional. “Havendo a confirmação da existência de patrimônio arqueológico, cultural e religioso de matriz africana, certamente haverá espaço para que façamos pedidos adicionais de proteção, tentando reconstruir o que for possível e converter em indenização eventuais danos irreparáveis causados.”
Em contrapartida, a Prefeitura de São Paulo manifestou que recorrerá da decisão judicial. A gestão Ricardo Nunes (MDB) disse que a ação movida pelo Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança foi proposta na Justiça Federal quatro meses após a Procuradoria-Geral do Município (PGM) ter ajuizado a ação de reintegração de posse contra o clube.
Sobre a destinação de objetos de valor religioso e cultural retirados durante o despejo, cuja localização precisa ser informada em relatório detalhado em até 30 dias por ordem judicial, a prefeitura afirmou que a Secretaria Municipal das Subprefeituras auxiliou na retirada no dia 29 de julho de 2026, mas que os pertences foram levados para o destino indicado pela direção da própria entidade.
A gestão também declarou que adotará as providências para cumprimento das decisões da Justiça enquanto a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) faz a transição de fiscalização da área para a SP Regula.
