A cidade de Longli, no condado de Jinping, em Guizhou, preserva uma tradição de seiscentos anos: o Hualianlong, ou “dragão de rostos pintados”, celebração mantida por uma comunidade da etnia Han em um território majoritariamente das etnias Miao e Dong.
A fortaleza de Longli foi criada durante a Dinastia Ming (1368-1644) para conter revoltas das etnias Miao e Dong. Até a fundação da República Popular em 1949, a cidade se mantinha isolada do entorno e impunha proibições de casamentos com outras etnias. Hoje a cidade antiga tem cerca de 4 mil habitantes e pertence à Prefeitura Autônoma Miao e Dong de Qiandongnan.
O Hualianlong acontece principalmente durante o Festival das Lanternas. Treze acrobatas e dançarinos pintam-se com personagens de uma lenda sobre o imperador Zhao Kuangyin, fundador da Dinastia Song no século X, e seus “irmãos de sangue”. Cada um carrega então um segmento do dragão articulado.
Para participar da dança do dragão, é preciso ter o rosto pintado. “Se alguém esbarra em alguém do público sem o rosto pintado, eles ficam zangados. Mas, se o rosto estiver decorado com os desenhos tradicionais, os moradores simplesmente acenam e riem”, conta Tao Bingjun, herdeiro representativo provincial do Hualianlong, título do sistema chinês de patrimônio imaterial que designa quem o governo reconhece para preservar e transmitir a tradição.
A ‘ilha’ Han
Em 1386, sob a política imperial conhecida como “Consolidação do Sul”, a Dinastia Ming instalou em Longli uma guarnição militar chamada “Posto Militar de Longli”. Soldados das províncias de Jiangxi e Anhui chegaram para consolidar o domínio imperial numa região de comunidades Miao e Dong, e nunca mais voltaram.
No interior, permanecem construções dos períodos Ming e Qing: casas, uma academia de estudos, poços, santuários e pontes.
Dos 72 sobrenomes originais, restam cerca de 20. Alguns dos descendentes falam um dialeto do mandarim com traços do século XV e habitam casas no estilo Huizhou, arquitetura característica das regiões de origem dos soldados.
“O nosso clã migrou de Anhui há seiscentos anos. Desde então, todas as construções locais adotaram o estilo arquitetônico unificado de Huizhou. Longli começou com um único sobrenome principal, que se expandiu para quatro por meio de casamentos entre famílias”, conta Wang Jianwei, morador que pertence ao clã Suo.
Wang, que também é artista, contou à reportagem que vem reformando uma das casas antigas do clã para torná-la um centro de arte e café. Uma das características da política de revitalização rural é a promoção da reforma de prédios antigos para promover o turismo rural, além da conservação do patrimônio histórico em si.
Em fevereiro de 2026, entrou em vigor o Regulamento de Proteção da Cidade Antiga de Longli. A legislação estabelece um sistema de proteção por zonas, autoriza expressamente a atuação do Ministério Público em ações civis públicas por danos ao patrimônio e promove a “despressurização populacional” da área central, destinando 93 mu de terra (cerca de 6,2 hectares) para o reassentamento de moradores, incentivando os habitantes remanescentes a utilizarem as edificações históricas para pousadas, comércio e oficinas de artesanato.
Reformulação dos rostos
Durante seiscentos anos, o Hualianlong foi transmitido de memória, e os rostos foram variando de geração em geração. Nos primeiros tempos, os participantes usavam cinzas, e todos ficavam iguais.
Tao Bingjun é quem pinta os rostos dos acrobatas. Entre 1998 e 2005, redesenhou os treze rostos, atribuindo a cada um a personalidade de um dos irmãos de sangue do imperador, distribuídos pelos segmentos do dragão conforme caráter, lealdade e função. Ele tentou diferentes pinturas, como aquarela e tinta a óleo, e acabou ficando com a tinta acrílica, que cria uma película que descola quando seca. Os treze rostos foram registrados junto à autoridade provincial de patrimônio cultural de Guizhou.
No dia da festa, o personagem do irmão mais novo do imperador carrega uma vassoura de palha de arroz de um a dois metros, mergulhada em líquido de ervas, para jogar no público. Segundo Tao Bingjun, o gesto simboliza bênçãos: bom tempo para as colheitas e promoções constantes para os funcionários.