MUNDO DO TRABALHO

Mudanças climáticas: trabalhadores são os primeiros a perder tudo e os últimos a serem ajudados 

Sindicatos defendem prevenção, renda protegida e ambientes de trabalho adaptados

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Porto Alegre (RS), 19/06/2024 – Rua alagada na Vila da Paz após chuvas e novos alagamentos
Porto Alegre (RS), 19/06/2024 – Rua alagada na Vila da Paz após chuvas e novos alagamentos | Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Por muito tempo, nós gaúchos tratamos os eventos climáticos extremos como algo distante da nossa realidade. A grande enchente de 1941 havia sido registrada como um acidente histórico, um episódio que não se repetiria. Essa crença nos deixou despreparados. Quando a enchente de 2024 chegou afetando mais de 2,3 milhões de pessoas em 478 municípios gaúchos, nos pegou de surpresa. O principal aprendizado que ficou foi de que não estávamos minimamente preparados. A tragédia nos trouxe consciência dos nossos limites e nos tornou, como sociedade, mais sensíveis a essa pauta.

No mundo do trabalho, a enchente escancarou vulnerabilidades que já existiam, mas que preferíamos não enxergar como por exemplo empresas instaladas em áreas geograficamente frágeis, ausência quase total de planos de contingência, falta de protocolos para proteger trabalhadores e patrimônio. E, como sempre acontece nas crises, foram os trabalhadores que mais sofreram as consequências. Muitos tiveram redução salarial durante o período de paralisação das atividades, perderam bens e se endividaram para reformar suas casas e repor utensílios domésticos destruídos pela água. 

Os prejuízos não foram apenas econômicos, foram também emocionais. O trauma não se limitou à perda material. O medo do novo evento, a angústia de não ter para onde ir, a culpa de sobreviver enquanto vizinhos pereceram são feridas invisíveis que muitos ainda carregam. A saúde mental do trabalhador, que até então, muitas vezes foi escanteada, passou a ser central quando se pensa nas políticas de adaptação climática. 

Algumas empresas simplesmente fecharam as portas e não retornaram, um dano que se espalha para toda a economia gaúcha e, especialmente, para quem dependia desses empregos. Esse episódio, no entanto, não pode ser lido como um fato isolado. Ele é a manifestação local de um fenômeno global. O aquecimento do planeta está tornando os eventos climáticos cada vez mais extremos. Enchentes, ondas de calor, secas mais frequentes e mais intensas são alguns exemplos. 

O clima também ameaça a saúde no trabalho

Estudos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas indicam que a frequência de eventos extremos aumentou 40% nas últimas duas décadas. Pesquisas da Organização Internacional do Trabalho estimam que, até 2030, a perda de produtividade por estresse térmico pode equivaler a 80 milhões de empregos em tempo integral. E isso exige de nós, classe trabalhadora, e principalmente, dirigentes sindicais, uma mudança de mentalidade sobre o que é um ambiente de trabalho seguro.

O modelo predominante de organização do trabalho, embora tenha evoluído em muitos aspectos, ainda mantém uma lógica que subestima os riscos climáticos. As ameaças ambientais que conhecíamos até então se transformaram, e a maior parte dos parques industriais não acompanhou essa mudança. Ambientes industriais mal ventilados, sem proteção adequada contra a elevação das temperaturas, agravam quadros cardíacos e vasculares, comprometem a saúde do trabalhador e, como consequência direta, reduzem a produtividade. O sofrimento não se limita ao chão de fábrica, começa muitas vezes no próprio deslocamento até o trabalho, sob calor extremo.

O Estado e as instituições públicas também têm responsabilidade inegociável. É dever do poder público atualizar os planos diretores, fiscalizar o cumprimento das normas de segurança e investir em infraestrutura resiliente. 

Pensando nisso, o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Porto Alegre, sindicatos parceiros e apoiadores, idealizaram o seminário “Crise Climática e o Mundo do Trabalho: impactos, direitos e estratégias de enfrentamento”, reafirmando nosso compromisso classista com a defesa integral da vida e do trabalho.

 A crise climática é uma questão de classe e os mais pobres, os trabalhadores, são sempre os primeiros a sofrer e os últimos a serem socorridos. Por isso acreditamos e defendemos que a adaptação climática dos ambientes de trabalho deixe de ser uma pauta secundária e passe a ocupar o centro das mesas de negociação entre trabalhadores e empregadores. Não se trata de uma discussão contra o empreendimento, mas a favor da sua continuidade e da sua capacidade de proteger quem produz.

Neste sentido, propomos a inclusão, nas Convenções Coletivas de Trabalho, de cláusulas específicas sobre planos de contingência para eventos climáticos extremos, protocolos de interrupção segura das atividades e garantia de renda nos períodos de paralisação, adequação física dos ambientes de trabalho (ventilação, isolamento térmico, áreas de abrigo), licenças remuneradas e suporte psicológico para trabalhadores atingidos por desastres.

É preciso remodelar nossa concepção espacial de empresa, criando ambientes mais arejados, protegidos e resilientes, e negociar coletivamente medidas concretas de mitigação. Por isso, convocamos empresários, poder público e sociedade para um debate racional e urgente. A crise climática já está no mundo do trabalho. A pergunta que resta é se vamos enfrentá-la de forma preventiva, com planejamento e justiça social, ou seguiremos reagindo tardiamente a cada nova tragédia, punindo os trabalhadores e colocando em risco os empreendimentos e a vida.

*Adriano Filippetto, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Porto Alegre.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko

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