Na última semana, no dia 18 de agosto, repercutiu o bate-boca entre os vereadores Jô Cavalcanti (Psol) e Thiago Medina (PL) durante sessão na Câmara do Recife. Única mulher negra entre os 39 parlamentares na capital pernambucana, Jô apresentou um projeto de lei para instituir no calendário oficial do Recife uma homenagem à Mestra Ritinha, entidade celebrada na Jurema Sagrada, religião de matriz afro-indígena brasileira. Medina subiu à tribuna para atacar o projeto e ofender a religião em questão, ao que Cavalcanti respondeu com o xingamento de “racistinha de merda”.
No discurso, o vereador do PL se referiu à Mestra Ritinha como “mestra dos cabarés” e classificou o projeto de lei 147/2026 como “porcaria”. “Que ciência é essa [da Mestra Ritinha]?! A ciência do cabaré? (…) Dia da Mestra Ritinha, a mestra dos cabarés. (…) As trevas não terão vez contra a luz”, disparou Medina, que se apresenta como evangélico. Ao descer da tribuna, foi xingado pela vereadora e prometeu acionar a Comissão de Ética contra a parlamentar. Dias depois a proposta de homenagem acabaria rejeitada por 12 votos contra 8 no plenário da Câmara do Recife.
Entre os contrários à homenagem, 11 são pessoas brancas. Apoiaram a homenagem os vereadores Cida Pedrosa (PCdoB), Kari Santos (PT), Liana Cirne (PT), Osmar Ricardo (PT), Rinaldo Júnior (PSB), Carlos Muniz (PSB) e Aderaldo Pinto (PSB). Houve ainda 11 vereadores presentes que não quiseram votar: Jair Brito (PT), Andreza Romero, Hélio Guabiraba, Chico Kiko, Júnior de Cleto, Luiz Eustáquio, Zé Neto e Wilton Brito (todos do PSB), Tadeu Calheiros e Samuel Salazar (ambos do MDB) e Júnior Bocão (PSD).
A Câmara do Recife já criou leis estabelecendo o dia municipal do evangélico (30 de novembro), a semana da Bíblia e a virada cultural evangélica (ambas em dezembro) e, na atual legislatura, aprovou em primeira discussão o dia municipal do combate à cristofobia (5 de junho).

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Jô prometeu acionar a Comissão de Ética da casa legislativa contra Thiago Medina (PL), acusando-o de ter cometido racismo religioso, descrito no artigo 20 da lei federal nº 7.716 de 1989. Ela também criticou os colegas de Câmara do Recife. “Essa casa mostrou que vivemos num país antidemocrático, onde as religiões de matriz africana, afro-indígena e da Jurema sofrem todo tipo de racismo. Me sinto envergonhada com as coisas que aconteceram aqui”, disparou a parlamentar, que preside a Comissão de Igualdade Racial da casa legislativa.
A punição… contra Jô
Mas quem acabou punida foi a própria Jô. Dois dias após o bate-boca, a Comissão de Ética da Câmara do Recife aprovou uma “censura verbal” à vereadora. Essa é uma punição oral a ser registrada nos anais da casa legislativa, um registro formal de repreensão por um ato considerado desrespeitoso às regras da Câmara. É o primeiro degrau na escala das punições numa casa legislativa, que também podem ser de suspensão de prerrogativas (perda do direito de ocupar cargos na mesa diretora ou em comissões, de relatar ou mesmo de subir à tribuna), suspensão de mandato (esta e a anterior podem durar até seis meses) ou, a mais grave, perda de mandato.
Um detalhe importante: a punição em questão, em agosto de 2026, logo após a desavença com Medina, não se referia a este caso, mas a uma fala de Jô na tribuna da Câmara em novembro de 2025. Na ocasião, os vereadores tiveram um debate acalorado acerca da Operação Contenção, no Rio de Janeiro, quando forças policiais mataram ao menos 122 pessoas entre os complexos de favelas da Penha e do Alemão. A vereadora Jô Cavalcanti (Psol) tentou discursar sobre letalidade policial e não teve seu direito de fala respeitado, sendo constantemente interrompida pelos vereadores Thiago Medina (PL) e Eduardo Moura (Novo).
Durante as interrupções e bate-boca, a parlamentar do Psol classificou ambos como “racistas e machistas”, sendo alvo de processo na Comissão de Ética movido também por Thiago Medina (PL). “Divergências políticas estão sendo transformadas em processos disciplinares. A Comissão de Ética está sendo utilizada como instrumento de constrangimento e silenciamento de uma parlamentar de oposição”, avalia Jô, eleita vereadora com 7,6 mil votos. Ela vê o PSB como aliado do bolsonarismo no que classifica como “ataque” à sua atuação.
A Comissão de Ética da Câmara é formada por presidida por Carlos Muniz (PSB), tendo como membros, além dele, Chico Kiko (PSB), Zé Neto (PSB), Tadeu Calheiros (MDB) e Felipe Alecrim (Novo).
A Jurema
A Jurema Sagrada é uma religião surgida na região Nordeste a partir do sincretismo religioso entre os povos indígenas Xukurus, Tabajaras, populações negras e o catolicismo popular. Diversos locais do Recife —como ruas nos bairros do Pina, Boa Viagem e a Estrada dos Remédios, que corta os bairros de Afogados, Ilha do Retiro e Madalena — são parte das histórias das entidades da Jurema Sagrada.
A nível estadual, já existe uma lei, desde 2024, que estabelece o 21 de setembro como Dia Estadual do Juremeiro e da Juremeira. Há ainda movimentos para que a religião seja reconhecida como patrimônio imaterial de Pernambuco e para que na rua da Guia, no Recife Antigo, seja instalado algum marco de referência à Jurema no logradouro, buscando preservar a história e divulgar a importância religiosa daquele local.
“A intolerância religiosa é uma plataforma eleitoral”
Em diálogo com o Brasil de Fato, a vereadora Jô Cavalcanti disse que os ataques às religiões de matriz africana ou indígenas não são uma disputa religiosa, mas política. “O problema não está na fé cristã ou evangélica. Mas a extrema-direita percebeu que inventar ameaças, criar inimigos relacionados à religião e estimular o medo com base em preconceitos são formas de mobilizar sentimentos e conquistar votos. Eles sabem da força que a fé tem na vida das pessoas e instrumentalizam isso para ganhar votos”, diz a vereadora do Psol.
Ela reforça que essas movimentações em período eleitoral não são espontâneas e nem inocentes. Elas partem, avalia Jô, de uma estratégia que envolve estimular o ódio e a intolerância religiosa. “Em nome de uma falsa defesa de ‘valores cristãos’, eles atacam terreiros, orixás, entidades, símbolos, festas e tradições que são parte da história do nosso povo. Eles mentem ao dizer que reconhecer o direito de uma outra religião seria uma ameaça a sua própria crença. E os alvos desses ataques quase sempre são as religiões de matriz africana e afro-indígena”, resume Cavalcanti, pontuando ainda que a história do Brasil mostra que “o racismo sempre tentou definir quais culturas poderiam ter espaço e quais deveriam ser perseguidas”.
