As pessoas que todos os dias circulam pela rua da Guia, no Recife Antigo, seja indo para o trabalho, no intervalo de almoço ou para tomar uma cerveja no fim do dia, elas podem não saber, mas o local é um histórico ponto de encontro de bebedeiras no centro da capital pernambucana. Nos séculos 19 e 20, uma diversidade de figuras circulavam entre as pensões e casas noturnas da região — entre elas, algumas sábias e sábios que se tornariam entidades cultuadas na Jurema Sagrada, religião de matriz afro-indígena. Líderes religiosos e pesquisadores querem o reconhecimento e a preservação da rua.
Este foi o tema de uma audiência pública na manhã desta quarta-feira (17), na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). O auditório do parlamento estadual foi ocupado por mestres e mestras da Jurema Sagrada, diversas gerações de lideranças religiosas ligadas aos terreiros, representantes da cultura popular e pesquisadores. Os grupos reivindicavam do poder público a preservação e reconhecimento daquele como um local de memória histórica, cultural e espiritual. A audiência foi convocada pelo deputado estadual João Paulo (PT), integrante da comissão de Educação e Cultura da Alepe.
Há ao menos três pontos (cânticos para entidades) de mestras mencionando a rua da Guia. Um, para a mestra Ritinha, afirma que “foi ‘passada’ aos 15 anos dentro da rua da Guia, eu vou lhe dizer seu nome, ela se chama Ritinha”. Outro, da mestra Luziara, afirma que “casa dos outros não é boa moradia, bem que eu lhe dizia, que eu vou é pra rua da Guia”. E um outro, para a mestra Maria Luísa, conta que “lá da rua da Guia, com uma esteira e um candeeiro ela fazia o que queria, ganhava em uma esquina e levava para uma barreira, Maria Luísa é aquela que carrega uma esteira”. Zé Pilintra, natural do Cabo de Santo Agostinho, era outra figura frequente nas noitadas da rua da Guia.

| Crédito: Uenni Batista / Reprodução
O deputado João Paulo (PT) considera que o logradouro precisa ter “essa dimensão espiritual, cultural e humana reconhecida, valorizada e protegida”. “Aquele é um local onde a ancestralidade permanece viva, orientando os caminhos do presente”, afirmou. Ele destaca ainda que “não há democracia plena quando a intolerância religiosa ainda ameaça a liberdade de crença. Combater o racismo religioso é proteger os territórios sagrados”, concluiu. A deputada Dani Portela, presidente da comissão de Direitos Humanos da casa, também participou da audiência, mencionando as denúncias de ataques a terreiros e defendendo a inclusão de Malunguinho no panteão de heróis pernambucanos.
Rosa Amorim (PT) utilizou a oportunidade, já que todos os discursos parlamentares ficam registrados como documentos na Alepe, de afirmar que “aqui no Recife viveram mestres e mestras da Jurema Sagrada e eles foram marginalizados pela sociedade. Eram mulheres e homens trabalhadores, boêmios, malandros, que carregavam no corpo e na alma as marcas da exclusão e do racismo. E foi nestes espaços que nasceram os encantamentos, as práticas de cura, a ciência sagrada e a resistência popular”. “O racismo religioso tenta apagar figuras que viveram e circularam pelas ruas do Recife e que construíram a história da cidade e do nosso estado”, pontuou.
A deputada, que este ano deve tentar eleição para a Câmara Federal, quer que a Jurema Sagrada seja considerada patrimônio cultural de Pernambuco, além do reconhecimento do valor ancestral da rua da Guia. “É uma forma de reconhecer que a história do nosso estado não pode ser contada apenas a partir dos palácios, igrejas e monumentos oficiais. Ela precisa ser contada pelo povo de terreiro, pelos cultos populares, pelos povos tradicionais e pelos caminhos percorridos pelos encantados”, discursou Amorim.

Autora do dia estadual do juremeiro e da juremeira, celebrado no 21 de setembro; e elaborou, em parceria com o deputado João Paulo, um protocolo estadual de atendimento para que delegacias atendam adequadamente os casos de racismo e intolerância religiosa. Rosa defende que a rua da Guia “seja integrada a uma rota turística de memória afro-indígena, incluindo o Cais de Santa Rita, o Mercado de São José e outros locais que guardam a presença e a memória dos mestres e mestras”, afirmou a deputada
O Movimento Sem Terra (MST) deve plantar e doar cerca de 20 mil mudas da planta jurema (nas variantes branca e preta), nativa do bioma Caatinga, como parte da campanha do movimento para o reflorestamento.
Durante a audiência pública, falaram também a Mãe Kelly Juremeira, que reivindicou que a rua ganhe uma estátua para a mestra Ritinha. O pedido foi endossado por outras lideranças presentes, entre as quais Fábio Accioly, proprietário do restaurante Boi Voador, que fica na via. Ele acrescentou o pedido para que o próprio nome do logradouro fosse modificado para “rua da Guia Ritinha”. O babalorixá Cleiton Amorim reforçou o pedido pelas homenagens. “Se aqueles que nos perseguiram têm suas estátuas, porque essas que nos guiam e nos protegem não podem ter seus monumentos?”, perguntou.
Mãe Nice pontuou que a Jurema “é uma religião brasileira, um patrimônio nosso”, mencionando como logradouros históricos para a religião ruas nos bairros do Pina, Boa Viagem e a Estrada dos Remédios, que corta os bairros de Afogados, Ilha do Retiro e Madalena. Outra destacada liderança presente foi Mãe Biu de Xangô, presidente da Associação de Terreiros de Goiana, na zona da mata norte de Pernambuco.

| Crédito: Uenni Batista / Reprodução
