A Organização de Cooperação de Xangai (OCX) se reúne nesta segunda (31) e terça-feira (1º), em Bishkek, capital do Quirguistão, com a participação de chefes de Estados de países alinhados com o conceito de uma ordem multipolar, entre eles o presidente da China, Xi Jinping, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian. O bloco, na atual conjuntura, representa uma resistência à hegemonia ocidental dos Estados Unidos e a política externa de Donald Trump.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o historiador Valério Arcary, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), afirma que ainda é prematuro dizer que está acontecendo “uma passagem de bastão” dos EUA como principal ator de influência global para a China. No entanto, há uma evidente tendência de decadência do imperialismo estadunidense.
“Há uma tendência de média e longa duração de uma decadência relativa da hegemonia norte-americana, em primeiro lugar pelo impacto da desindustrialização relativa quando comparada com a China, por exemplo, que os Estados Unidos sofreram. Eu diria que as relações simbióticas, inclusive econômicas, que unem a China aos Estados Unidos, são favoráveis para ambos os Estados”, avalia. “Embora haja tensionamentos crescentes, ainda não há uma passagem de bastão”, continua.
Arcary pondera que, diante desse cenário, fica bastante evidente a estratégia adotada por Washington de buscar aumentar sua zona de influência, submetendo economicamente e também politicamente países da América Latina. “Evidentemente, a América Latina, nesse contexto, é defendida por Washington como uma área de reserva estratégica que os Estados Unidos querem preservar a qualquer custo. Isso tensiona, repito, ou seja, inclui turbulência na relação com a China, porque a presença de investimentos de Pequim na América Latina, a importância das relações comerciais, ou seja, a maior parte da América Latina tem economias que são primário-exportadoras, e a China é a maior compradora”, afirma.
O historiador pontua que o mundo vive em ordem imperialista construída em torno do sistema da Organização das Nações Unidas (ONU), que o atual governo Trump não respeita. E a grande questão, continua Arcary, é que, se antes os EUA podiam se valer de superioridade econômica, militar e financeira para se impor nesse processo, agora estão sendo constantemente questionados a respeito dessa hegemonia. Uma dessas situações mais agravadas é a não admissão da derrota estadunidense diante do Irã e o impacto que a continuidade do conflito tem provocado nas cadeias globais de energia.
“O mundo não se reduz à economia e a tiros, à violência. Ou seja, a preservação de uma ordem mundial estável, mesmo para o poderio do imperialismo norte-americano, não é possível sem também disputa de hegemonia política e ideológica. Há uma luta política e ideológica ininterrupta no mundo que assumiu novas formas depois da vitória do Trump”, resume.
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