A proposta do candidato Flávio Bolsonaro (PL) para a economia fala em promover um “tesouraço” com cortes de gastos públicos, redução de dez ministérios e uma série de privatizações.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o economista José Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), afirma que Flávio falou “a mesma besteira que Paulo Guedes“, ex-ministro do governo de seu pai, Jair Bolsonaro (PL), quando ele fundiu cinco ministérios na pasta de Economia. “Do ponto de vista de redução de gastos, você não consegue praticamente nada, porque, na verdade, o que você faz é simplesmente redirecionar os funcionários públicos que têm estabilidade dos outros ministérios, que foram extintos, para novos ministérios. Do ponto de vista de corte de gastos, isso não representa absolutamente nada”, explica.
Oreiro também destaca um aspecto bastante pragmático, que é o fato de o sistema político brasileiro ser um presidencialismo de coalização. Portanto, “muitas vezes, os ministérios são usados como moeda de troca para conseguir apoio no Parlamento”.
Com relação à proposta de ajuste fiscal para controlar a dívida pública, José Oreiro afirma que o que Flávio defende não resolve nada. “A proposta dele de você colocar um indicador ou uma regra fiscal com base na relação entre dívida pública e PIB, por si só, não resolve absolutamente nada. Lógico que você tem que ter objetivos, metas e instrumentos. A questão que importa, do ponto de vista da dívida pública, é saber como você vai gerar os superávits primários necessários para estabilizar a relação dívida pública e PIB”, avalia, explicando que a taxa real de juros é de 10% ao ano e a economia vem crescendo 2,5%, e que seria necessário um superávit primário de 4% do PIB para que a conta de Flávio fechasse.
O economista afirma que, na atual conjuntura, o governo Lula vem sendo “sabotado pelo Banco Central”, por causa da política de juros. “O maior fator de aumento da dívida pública é o pagamento de juros da dívida. É isso o que fez a dívida saltar no governo”, ressalta.
José Oreiro também critica a parte em que Flávio defende as privatizações como forma de deixar a máquina pública mais eficiente. O professor lembra que o discurso privatista é antigo e remonta à época do ex-presidente Fernando Collor e, segundo ele, existem apenas três empresas que poderiam gerar lucro caso fossem privatizadas: Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica. “São as três joias da coroa”, brinca, lembrando que, caso os bancos públicos fossem privatizados, isso afetaria em cheio os créditos do Plano Safra para o agronegócio e as linhas de financiamento imobiliário. “É isso que o Flávio está propondo, então?”, questiona.
“O discurso de privatização já está totalmente esgotado e superado no mundo inteiro. Esse discurso, que começou com os governos neoliberais do Reagan e da Thatcher, nos Estados Unidos e na Inglaterra, no início dos anos 1970, gerou uma onda de privatizações no mundo. Muitas das privatizações que foram feitas nos países desenvolvidos depois foram revertidas, e nós vemos, de quando em quando, problemas no sistema de trens e de metrô de São Paulo, que é um sistema privatizado”, cita Oreiro.
“As privatizações que foram feitas, na sua imensa maioria, significaram uma piora dos serviços que eram antes prestados por empresas estatais”, conclui.
Durante o período eleitoral, por causa da propaganda política, o jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h25 e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
