Mulheres que enfrentam a fome, a pobreza e a violência no campo se encontram nesta quinta-feira (3), em Alagoa Grande, para dar o primeiro passo para a construção da 8ª Marcha das Margaridas, que terá seu ápice em Brasília, em 2027. A atividade reunirá mulheres trabalhadoras do campo, da floresta e das águas e marcará uma nova etapa de mobilização na Paraíba para a construção da Marcha nacional, prevista para agosto de 2027, em Brasília.
Eles não sabiam que Margarida era semente*
A programação terá início às 8h, com uma vigília em frente à casa onde viveu Margarida Maria Alves, liderança sindical rural assassinada em 12 de agosto de 1983. Logo em seguida, as mulheres seguirão em caminhada pelas ruas de Alagoa Grande até a sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. A atividade aguarda cerca de 600 mulheres oriundas de diversos territórios do estada, e contará om a participação das Batuqueiras Independentes de João Pessoa e, em frente ao sindicato, haverá o lançamento estadual da Marcha, com apresentação da Ciranda da Caiana dos Crioulos.
A construção na Paraíba reúne a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares da Paraíba (Fetag-PB), sindicatos de trabalhadores rurais e organizações parceiras, entre elas a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia do Polo da Borborema, a Articulação do Semiárido Brasileiro (Asa), o Movimento de Mulheres e Feministas da Paraíba e o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais.
A organização nacional da Marcha é coordenada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), em conjunto com federações, sindicatos e organizações parceiras. O movimento define a Marcha das Margaridas como uma ampla ação estratégica das mulheres do campo, da floresta e das águas e como um processo de construção de um projeto de sociedade baseado em relações mais justas e igualitárias.
Uma marcha que começa antes de Brasília
Para Léia Soares, secretária de Mulheres da Fetag-PB e integrante do Movimento de Mulheres Trabalhadoras da Paraíba, o lançamento estadual não deve ser compreendido apenas como uma preparação para um grande ato em 2027.
“A Marcha das Margaridas propriamente dita acontecerá em 2027. Este é um momento muito importante porque estamos em um ano de eleições e de luta pela defesa da democracia e da soberania dos povos. Todos os estados estão realizando seus processos de preparação para a Marcha. Em 2027, teremos o ápice dessa construção, mas a Marcha acontece todos os dias”, destacou ela.
Na avaliação da dirigente, a Marcha também funciona como um espaço permanente de elaboração política, no qual as mulheres apresentam demandas aos governos e reivindicam políticas públicas.
“A Marcha das Margaridas é uma construção de uma plataforma política na qual apresentamos e dialogamos com os governos sobre pautas voltadas para as mulheres, como o enfrentamento à violência contra as mulheres e a política de cuidados. Hoje, conseguimos pautar também a questão dos quintais produtivos. Já são mais de 100 mil quintais em todo o Brasil, que têm contribuído para a autonomia das mulheres, valorizando os espaços no entorno de suas casas e as experiências que elas já desenvolvem”, explica ela.


A relação entre quintais produtivos, autonomia das mulheres e políticas públicas também aparece em medidas recentes voltadas à agricultura familiar. Segundo a Agência Brasil, o Plano Safra da Agricultura Familiar 2025/2026 passou a prever linhas específicas para mulheres rurais, incluindo crédito para quintais produtivos, com condições diferenciadas anunciadas pelo governo federal. A medida foi apresentada como parte das demandas construídas pela Marcha das Margaridas de 2023.
Autonomia, liberdade e combate à violência
Para Heloísa de Sousa, integrante da Marcha Mundial das Mulheres e do Movimento de Mulheres e Feministas da Paraíba (MMFPB), a Marcha das Margaridas representa uma conquista histórica na organização política das mulheres rurais e na formulação de políticas públicas específicas para esse segmento.
“A Marcha das Margaridas é um marco importantíssimo na luta pelas mulheres rurais, por direitos, e marcando também a resistência e a história de Margarida Maria Alves, que foi assassinada em Alagoa Grande. Então, além de ser uma luta por memória e justiça pela sindicalista Margarida Maria Alves, é também um marco na luta pela história de direitos para as mulheres rurais, como documentação da trabalhadora rural, como direito a créditos específicos para as mulheres do campo”, destaca Sousa.
Na avaliação dela, a mobilização teve papel importante para dar visibilidade à existência das mulheres como agricultoras e trabalhadoras rurais e pressionar pela criação de políticas públicas voltadas às especificidades dessas mulheres. “Durante muito tempo só se referiu-se ao homem do campo, e não criou-se políticas públicas voltadas para as mulheres do campo, para as mulheres rurais, para as agricultoras, para as pescadoras, para as marisqueiras, então foi fundamental a Marcha das Margaridas nesse sentido” afirmou.
Segundo Adriana Galvão, assessora da AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa) e integrante da articulação da Marcha das Mulheres pela Agroecologia, neste ano há um esforço maior para ampliar a participação dos movimentos de mulheres na preparação da Marcha, reunindo diferentes organizações e segmentos sociais em torno da mobilização.
“Esse ano a diferença é que a Fetag vem convocando os movimentos de mulheres para essa construção. E nada mais relevante do que fazer uma construção que acolhe as mulheres e toda a diversidade das mulheres do campo e da cidade, de todas as classes, dos sindicatos, a participar no ato”, afirmou.
A memória de Margarida como ponto de partida
A trajetória de Margarida Maria Alves permanece associada à defesa dos direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores rurais. Documentos oficiais do Estado brasileiro registram que a liderança sindical foi assassinada em 12 de agosto de 1983, em Alagoa Grande, em um contexto de conflitos relacionados à luta por direitos no campo. O Arquivo Nacional também registra a repercussão do assassinato e a mobilização provocada pela morte da sindicalista.
O caso chegou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, uma decisão de 2021 reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro por violações relacionadas aos direitos à vida e à integridade pessoal, à justiça, à livre associação e às garantias e proteção judiciais de Margarida e de sua família.
A memória da sindicalista passou a inspirar, a partir de 2000, a mobilização nacional das mulheres do campo. Desde então, a Marcha das Margaridas passou por diferentes edições e se consolidou como uma ação política que articula formação, denúncia, pressão e negociação em torno das reivindicações das trabalhadoras rurais. A página oficial da Marcha registra as edições realizadas em 2000, 2003, 2007, 2011, 2015, 2019 e 2023, além da previsão da edição de 2027.
Para Heloísa de Sousa, o lançamento estadual em Alagoa Grande ganha uma dimensão simbólica justamente por acontecer na cidade que carrega a memória de Margarida Maria Alves. A atividade, segundo ela, combina a preservação dessa memória com a retomada da organização das mulheres para a mobilização nacional de 2027.
“O lançamento da Marcha das Margaridas, que vai acontecer na terra de Margarida, além de reafirmar a memória e a importância da sindicalista Margarida Maria Alves, é dar lançamento a esse marco de organização da luta das mulheres do campo, que as mulheres da cidade também apoiam, se preparando já para marchar agora em 2027”, ressaltou ela.
Esta também é a opinião de Adriana Galvão: “Eu acho fundamental falar da relevância de fazermos o lançamento da Marcha das Margaridas na cidade onde nasceu, viveu e construiu a sua luta a Margarida Maria Alves. E a força da Margarida, ela traz para a gente uma inspiração. Como diz o poeta, não sabia os patrões que Margarida viraria semente”, afirmou Galvão.
Dossiê Grupo da Várzea
A história de Margarida Maria Alves também foi investigada pelo Brasil de Fato PB em um dossiê dedicado à atuação do chamado Grupo da Várzea e ao assassinato da sindicalista. Publicado em 2021, o especial reconstitui, a partir de documentos do processo criminal e de outras fontes, a trajetória de Margarida na defesa dos trabalhadores rurais, as ameaças que antecederam sua morte e os caminhos percorridos pela investigação e pelo processo judicial. O dossiê também aborda as acusações envolvendo grandes proprietários rurais da região e o longo percurso do processo, que terminou sem condenações.
Clique aqui para conhecer essa história em detalhes: Dossiê Grupo da Várzea – o assassinato de Margarida Maria Alves
*A frase “eles não sabiam que Margarida era semente” é uma citação popular e um lema do movimento sindical associado à memória de Margarida Maria Alves, sindicalista e defensora dos direitos dos trabalhadores rurais assassinada em 1983.
A autoria da frase em si tornou-se um provérbio coletivo do movimento de mulheres camponesas e da Marcha das Margaridas, simbolizando que a morte de Margarida multiplicou sua luta em milhares de outras mulheres (as “Margaridas”) por todo o Brasil.
