Estreia na próxima terça-feira, 8 de setembro, às 18h, no Youtube do Brasil de Fato RS, o podcast “Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios”. A série reúne 12 episódios dedicados à história, aos saberes, à espiritualidade, à cultura e às lutas da população negra no Rio Grande do Sul. A apresentação é de Iyá Vera Soares, que conduz encontros com lideranças religiosas, pesquisadoras, educadoras e militantes do movimento negro ao longo de todo o programa.
O projeto é uma realização do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), por meio do Termo de Fomento nº 973281 do Ministério da Igualdade Racial do Governo Federal, com correalização do Brasil de Fato RS. E percorre temas como visão de mundo africana, saúde pública, ervas medicinais, economia solidária, cooperativismo negro, cultura ancestral e educação de matriz africana. Cada episódio parte de uma conversa com uma convidada ou convidado que atua diretamente com o tema abordado, unindo vivência de terreiro, produção acadêmica e militância política.
Religiosidade, território e ancestralidade
A relação entre religiosidade de matriz africana e território aparece em mais de um episódio da série. No primeiro episódio, a relação entre os povos de terreiro e a economia solidária é o tema da entrevista com Gil Neves, educadora popular com atuação junto às comunidades de matriz africana no Rio Grande do Sul. Ela fala sobre organização comunitária, segurança alimentar e estratégias de enfrentamento à fome, à desigualdade social e ao racismo estrutural.

No segundo programa, a convidada é Iya Bia da Ilha, ialorixá de um terreiro localizado na Ilha da Pintada, em Porto Alegre, cuja liderança religiosa e comunitária é referência na discussão sobre território e territorialidade das tradições afro-gaúchas. Ela também trata sobre as enchentes e os terreiros atingidos.
O tema retorna no quinto episódio, com Negrita de Oyá, nome espiritual de Eliane Almeida de Souza, que atua junto ao Instituto Apakani. A conversa trata do que são os orixás e de seu papel nas tradições de matriz africana, das diferenças e semelhanças entre tradições africanas e afro-brasileiras, da forma como cada divindade se manifesta e é cultuada, e da importância de explicar essas tradições ao público leigo.
Transmissão entre gerações
Dois episódios da série tratam especificamente de como o legado ancestral chega às novas gerações. No terceiro, a jornalista Maria Helena, filha de Iyalorixá, aborda a participação da juventude nas tradições de matriz africana, os desafios de manter viva a tradição em contextos urbanos contemporâneos e o que significa crescer como filha de uma liderança religiosa.

No sétimo episódio, quem debate o tema sob a perspectiva da educação formal é Lucia Regina Brito Pereira, conhecida no terreiro como Yemoleayaba. Gaúcha, licenciada e bacharel em História pela PUCRS desde 1991, com mestrado concluído em 1995 e doutorado em 2008 pela mesma universidade, ela construiu trajetória acadêmica dedicada à história afro-brasileira e à educação das relações étnico-raciais no Rio Grande do Sul, com produções sobre quilombos urbanos de Porto Alegre e sobre a implementação da Lei 10.639/2003 nas escolas gaúchas.

Pereira é autora de capítulos em obras como “Negras Histórias no Rio Grande do Sul” e “Colonos e Quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre”. No episódio, discute como a educação formal e não formal pode combater o racismo religioso, a aplicação da Lei 10.639/2003 na valorização da história africana e afro-brasileira, a preservação das tradições dentro e fora da escola, os desafios enfrentados em escolas e universidades e o papel dos terreiros como espaços de transmissão de saberes.
Saúde integral e ervas medicinais
O quarto episódio é dedicado à relação entre saúde e ancestralidade, com a participação de Kota Mulangi, nome religioso da Dra. Regina Goulart, médica e Ialorixá que atua no município de Rio Grande. Ela une a prática da medicina formal ao conhecimento ancestral das ervas e dos rituais de cura de matriz africana, abordando o uso de ervas medicinais em curas físicas, energéticas e rituais espirituais, a relação entre saúde integral, corpo, espírito e natureza, os diálogos e tensões entre medicina formal e saberes tradicionais, e o papel da Ialorixá no cuidado da comunidade.
Economia solidária e cooperativismo negro
A série reserva dois episódios para experiências de organização econômica das comunidades negras. No sexto, Iya Gisa de Oxum, Ialorixá e liderança comunitária no Rio Grande do Sul, discute o cooperativismo negro desde o período do navio negreiro, experiências contemporâneas de cooperativismo em terreiros, cozinhas solidárias ancestrais e redes de apoio comunitário, e a ancestralidade como base organizativa das comunidades negras.
Tambores, música e pesquisa acadêmica
Três episódios da série tratam da relação entre música, percussão e resistência negra. No décimo primeiro, Baba Phill, criador do Batuque Poa, projeto de referência na formação de tamboreiros no Rio Grande do Sul, fala sobre a importância dos cânticos, tambores e instrumentos na tradição de matriz africana, sobre como a música conecta e fortalece a identidade comunitária, sobre a formação de novas gerações de tamboreiros e sobre o Batuque Poa como experiência de transmissão cultural.
O oitavo episódio traz a pesquisadora Juliane Andreia Lucio Soares, que participa do Programa de Pós-Graduação em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Maranhão. Sua pesquisa investiga a noção de pessoa africana e afro-brasileira a partir da categoria Ìmò Jé, tendo como local de investigação a comunidade tradicional de matriz africana Ilé Asé Aloyá Iforakaran, no Rio Grande do Sul.
Segundo a pesquisadora, o estudo busca compreender como a visão de mundo do povo batuqueiro contribui para a construção de concepções de pessoa, humanidade e modos de existir, valorizando os saberes produzidos no interior das comunidades tradicionais como fundamentos legítimos para a produção de conhecimento em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros.

No sexto episódio, a percussionista e pesquisadora Nina Fola discute o tambor como meio de comunicação política do povo negro na África e na diáspora, o tambor como símbolo de resistência afro-gaúcha e a pesquisa acadêmica sobre percussão e cultura africana.
História do Movimento Negro Unificado
O décimo episódio recebe Emir Silva, analista de políticas públicas formada pela UFRGS e militante do Movimento Negro Unificado (MNU). Emir Silva integra a direção da Executiva Nacional da ANLU – A Nossa Luta Unificada, e atua no campo de reflexão, análise e articulação política do MNU. O episódio trata da resistência histórica e atual da organização no Rio Grande do Sul e no país.
A série é encerrada com a participação da socióloga e deputada federal Reginete Bispo sobre a participação das mulheres negras nos espaços de poder.
A série completa passa a ficar disponível no Youtube e nas redes sociais do ICPJ e do BDF RS a partir da estreia.
