A cerimônia de abertura do curso de Licenciatura em Filosofia da Terra foi realizada no dia 24 de agosto, no Assentamento Terra Vista, no município de Arataca, sul da Bahia. Esta é a primeira turma de graduação em Filosofia promovida pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) e conta com 50 estudantes, reunindo educadores populares, lideranças comunitárias e jovens originários de assentamentos, comunidades quilombolas e aldeias indígenas.
A formação é fruto de uma articulação construída desde o período pré-pandemia e reúne o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), a Teia dos Povos e movimentos sociais do campo, como MST, CETA, CPT e MLT. Ao longo de quatro anos, as aulas e atividades de pesquisa serão desenvolvidas integralmente dentro do próprio assentamento.
A proposta pedagógica da Licenciatura em Filosofia da Terra parte da Pedagogia da Alternância e da práxis agroecológica, colocando no centro as cosmovisões dos povos originários e das comunidades tradicionais.
Cris Ayie, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no território Claudemiro Dias Lima, integra a turma e destaca que uma das missões do grupo é poder ocupar esse lugar de disputa de ideias. “É um espaço de debates, de trazer realidades e se aprimorar no conhecimento que a gente já vem praticando ao longo dos tempos em cada território. É um espaço de confluência e de partilha de saberes. Essa turma é muito diversa e traz um acúmulo grande de experiências”, afirma.
Para o vice-reitor da UESC, Maurício Santana Moreau, a presença da academia no território estabelece uma relação horizontal de aprendizado mútuo. “A expectativa é que a gente trabalhe os saberes deles junto com o conhecimento acadêmico dos professores da universidade, e que quem saia ganhando seja toda a comunidade. Estamos muito felizes com esse momento importante e histórico”, observa.
O coordenador do curso e docente da UESC, professor Josué Cândido, explica o recorte específico da matriz curricular. “Esse curso tem um diferencial porque é uma filosofia da terra, voltada para pensar a questão agroecológica, o planeta e fazer com que nossos alunos se tornem seres críticos e reflexivos para levar essa contribuição para a educação na região”, relata.



Retomada do Pronera e soberania territorial
O início das aulas formaliza também a reorganização das instâncias regionais do programa. De acordo com Paulo Coqueiro, membro do Colegiado Estadual do Pronera na Bahia, o curso carrega duplo valor. “Esse curso inaugura a nova composição do Colegiado Estadual do Pronera na Bahia. É de uma grande importância histórica, quer seja por estar sediado dentro de um assentamento, quer seja por ser o primeiro curso dessa retomada”.
Fabrício Dias, chefe da Divisão de Educação do Campo do Incra Nacional, setor que gere o Pronera em âmbito federal, aponta o pioneirismo do debate filosófico na modalidade. “Depois de 28 anos de execução dessa política pública, realizamos a aula inaugural do primeiro curso de Filosofia do Pronera no Brasil todo. Foi um momento muito emocionante de retomada do programa na Bahia, principalmente com a inovação de trazer a filosofia para dentro do debate da educação do campo. Nossa expectativa é que esses alunos construam um outro pensar filosófico, aliado às populações tradicionais de todo o país”, ressalta.
No Terra Vista, a chegada da graduação é celebrada como consolidação de uma trajetória de luta pela terra e pelo conhecimento. Joelson Ferreira, liderança do assentamento e da Teia dos Povos, reforça o papel estratégico da formação. “Acredito que vai ser um marco para restabelecer um programa de formação capaz de ser instrumento de transformação da juventude e do povo que está nas áreas de reforma agrária, quilombolas e indígenas, para que a gente possa evoluir esse pensamento e construir uma militância capaz de entender e transformar a realidade. Essa parceria entre Incra, Pronera e UESC é fundamental para nos fortalecer”, observa Joelson.
Para Solange Brito, assentada no Terra Vista e integrante da Rede de Mulheres da Teia dos Povos, o impacto atinge diretamente o cotidiano da comunidade. “É de fundamental importância avançar na perspectiva política. Os estudantes pesquisando e se formando geram avanço na consciência da educação, da produção, da cultura e do fortalecimento dessa região tão rica, que é o bioma Mata Atlântica. Para nós, receber todos aqui representa um acúmulo de muita força”.
Com o calendário acadêmico em andamento no assentamento, a Licenciatura em Filosofia da Terra projeta consolidar, até a conclusão da turma, uma rede de educadores e pesquisadores preparados para atuar tanto nas salas de aula quanto nas organizações comunitárias, articulando soberania alimentar, preservação ambiental e pensamento crítico no campo.
