O Brasil chega às eleições de 2026 com o maior número de candidaturas indígenas já registrado desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a coletar dados de cor e raça, em 2014. No Rio Grande do Sul, porém, os dados oficiais do TSE mostram um cenário oposto.
Um levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), divulgado em agosto, contabilizou 191 candidaturas de pessoas autodeclaradas indígenas concorrendo a cargos em todo o país neste ano, ante 186 em 2022. O número de candidaturas a deputado federal saltou de 59 para 75 no mesmo período.
No Rio Grande do Sul, uma análise dos registros para os cargos de governador, vice-governador, senador, deputado federal, deputado estadual e suas respectivas suplências identificou sete candidaturas autodeclaradas indígenas em 2022. Já em 2026, esse número caiu para quatro.
Em termos proporcionais, a presença indígena no conjunto de candidaturas do estado também recuou, de 0,49% do total de postulantes gaúchos em 2022 para 0,38% em 2026.
Menos nomes, mesmo padrão de disputa
As sete candidaturas indígenas registradas no Rio Grande do Sul em 2022 se distribuíram principalmente entre postulantes a deputado estadual, com cinco nomes, além de um candidato a deputado federal e uma candidatura ao Senado. Em 2026, o recorte ficou concentrado quase inteiramente na disputa proporcional: três candidaturas a deputado estadual e uma à segunda suplência ao Senado. Não há, até o momento, nenhuma candidatura autodeclarada indígena a deputado federal pelo Rio Grande do Sul em 2026, cargo em que o país como um todo registrou o maior salto nacional da série histórica.
O espectro partidário das candidaturas gaúchas atravessa legendas de diferentes campos políticos nos dois pleitos. Em 2022, apareceram nomes filiados a Republicanos, PL, Psol, PT e PP. Em 2026, a lista inclui PT, Democrata, PSTU e PSD. A diversidade partidária indica que a autodeclaração de cor/raça indígena, no caso do Rio Grande do Sul, não está circunscrita a um único campo ideológico.
Chama atenção também a mudança na composição por gênero. Em 2022, cinco das sete candidaturas indígenas gaúchas eram de homens e duas, de mulheres. Em 2026, as quatro candidaturas são todas de mulheres.
Entre elas está Helenir Aguiar Schürer, a professora Helenir, do PT, único nome que se repete nos dois pleitos: ela concorreu a deputada estadual em 2022, quando ficou como suplente, e volta a disputar a mesma vaga em 2026, agora aposentada do serviço público.
As outras três candidatas de 2026 são Eliana de Oliveira dos Santos, do Democrata, natural do Amazonas; Diana Sales, do PSD, agricultora e natural do Rio Grande do Sul; e Marcela Cristina Andrade de Azevedo, do PSTU, natural do Pará, que concorre como segunda suplente ao Senado na chapa de Daniela Maidana da Silva.
Concentração de forças ou aposta em 2028?
Para a pesquisadora Flávia Miranda Falcão, mestre em Direito pela Fundação Escola Superior do Ministério Público, especialista em multiculturalismo e interculturalismo e servidora do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS), a queda no número de candidaturas indígenas gaúchas em 2026 pode ter duas leituras possíveis.
A primeira, segundo ela, seria “uma possível concentração de forças nas campanhas dos poucos candidatos às eleições gerais de 2026”. A segunda hipótese apontada pela pesquisadora é “um investimento maior nas futuras eleições municipais de 2028, nas quais as candidaturas indígenas têm obtido melhores resultados”.
Falcão lembra que, “pela primeira vez, nas eleições municipais de 2020, municípios de forte presença indígena elegeram oito vereadores” no Rio Grande do Sul e que, “em 2024, a representação aumentou para 17 indígenas nos legislativos municipais gaúchos”. Em contraste, destaca a pesquisadora, o estado nunca elegeu um indígena como deputado estadual ou federal.
“Acredito que essa diminuição atual de candidaturas possa concentrar as intenções de voto no número reduzido de candidatos”, avalia. A pesquisadora pondera ainda que “não existe uma cota de vagas para candidatos indígenas” nas eleições estaduais e federais. “O que existe é uma previsão de recursos públicos para as campanhas de candidatos indígenas que vierem a entrar na disputa.”
O episódio que expôs os critérios da autodeclaração
A lista de 2022 inclui um caso que se tornou público justamente por questionar os critérios da autodeclaração racial no registro de candidaturas. Ao se inscrever para disputar uma vaga no Senado pelo Rio Grande do Sul, o então vice-presidente da República, Hamilton Mourão, do Republicanos, teve seu registro inicial classificado como de cor/raça branca. A informação contrastava com o que o próprio Mourão havia declarado em 2018, quando concorreu à vice-presidência na chapa de Jair Bolsonaro: naquele ano, ele se apresentou como indígena, dizendo ter pai “amazonense”.
Diante da repercussão, Mourão afirmou em publicação nas redes sociais que houve “um simples erro de preenchimento” no formulário de candidatura e reafirmou ser “descendente de índios”. Dias depois, a informação de cor/raça de seu registro foi alterada no sistema do TSE, de branca para indígena — versão que consta na base de dados final da candidatura, na qual Mourão aparece eleito senador pelo Rio Grande do Sul com a cor/raça indígena registrada.
O episódio não invalida, do ponto de vista formal, a contagem oficial de candidaturas indígenas no estado em 2022: a autodeclaração é o critério usado pelo TSE e não exige comprovação de pertencimento a um povo ou etnia específica. Ainda assim, o caso ilustra um limite do próprio dado: diferentemente do levantamento da Apib, que cruza os registros do TSE com identificação de povos e etnias específicas, a categoria “indígena” no cadastro eleitoral não distingue autodeclaração vinculada a uma comunidade, história de vida ou território determinado daquela feita sem esse vínculo.
Nomes que carregam identidade nas urnas
Entre as demais candidaturas gaúchas de 2022, uma prática recorrente entre postulantes indígenas em todo o país também apareceu no Rio Grande do Sul: a escolha de nomes de urna que explicitam pertencimento étnico ou papel de liderança comunitária. É o caso de Eloir de Oliveira, registrado como “Prof Eloir Mbyá Guarani” em candidatura a deputado estadual pelo Psol, e de Jadir Jacinto, que concorreu como “Cacique Jadir” pelo PP. Maria Helena Alves Gomes, cabeleireira e barbeira, disputou a vaga como “Índia Gomes” pelo PL. Essa opção de nome de urna é documentada em candidaturas indígenas de outras regiões do país como forma de tornar a identidade étnica visível no próprio processo eleitoral, independentemente do resultado da disputa.
Nenhuma das seis candidaturas de 2022 registradas para cargos proporcionais (deputado estadual e federal) foi eleita; todas terminaram como suplentes. A única candidatura indígena vitoriosa no pleito gaúcho de 2022 foi a de Mourão, ao Senado — justamente aquela cujo registro de cor/raça gerou controvérsia pública.
Pragmatismo partidário explica ausência na Câmara
Questionada sobre a ausência de candidaturas indígenas a deputado federal pelo Rio Grande do Sul em 2026 — justamente o cargo em que o país teve o maior salto histórico —, Flávia Falcão atribui o fenômeno a uma lógica de cálculo eleitoral, não a uma rejeição direcionada. “Acredito que seja reflexo do menor investimento partidário em candidaturas indígenas com maior visibilidade estadual”, afirma a pesquisadora. Segundo ela, “o aumento dos recursos públicos destinados ao financiamento partidário e ao financiamento de campanhas atrelado à representação efetiva dos partidos no Legislativo Federal intensificou o pragmatismo partidário”, no sentido de “propor e investir em candidaturas com reais chances de eleição”.
“É natural: para que continuem viáveis, partidos precisam desses recursos, que são distribuídos proporcionalmente ao número de representantes no Congresso Nacional”, explica. Como o RS nunca elegeu um indígena como deputado federal, pontua Flávia, “essa seria uma aposta muito arriscada num cenário em que há 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral”.
A pesquisadora faz questão de separar esse cálculo de qualquer viés identitário: “não vejo como uma rejeição específica às candidaturas indígenas, mas sim como aversão ao risco de uma candidatura pouco expressiva, em geral”.
Um recorde nacional, uma exceção gaúcha
Para a Campanha Indígena, iniciativa da Apib que articula candidaturas de povos originários em todo o país, o crescimento nacional das candidaturas indígenas em 2026 é resultado de uma “caminhada histórica de resistência e de cobrança” dos povos originários por espaço e respeito na política institucional, avaliação do coordenador político da campanha, Marcos Sabaru. Segundo a Apib, a Amazônia Legal concentra a maior parte do avanço nacional, com 80 das 191 candidaturas registradas em 2026, o equivalente a 41,9% do total. A região Sul do país — que reúne Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná — soma 14 candidaturas indígenas neste ano, mas o levantamento da Apib não desagrega esse total por estado.
Historicamente, o Rio Grande do Sul concentra sua presença indígena nas etnias Kaingang e Guarani, distribuídas majoritariamente na região norte do estado, onde está a Terra Indígena Guarita, considerada a maior reserva indígena gaúcha, com cerca de 23 mil hectares e população estimada em oito mil pessoas entre os municípios de Redentora e Tenente Portela.
A lógica da visibilidade nas redes
Para explicar por que candidaturas indígenas gaúchas avançam pouco além do registro, Falcão aponta a exposição midiática como fator decisivo. “Atualmente, a visibilidade do candidato parece ser o maior atrativo para os partidos”, diz. Segundo ela, políticos tradicionais “não dependem de uma fama estabelecida pelos meios de comunicação, como as redes sociais, para que sejam vistos como candidaturas interessantes”, mas “as novas candidaturas parecem não ter como escapar dessa lógica de notoriedade nas redes sociais”. Na avaliação da pesquisadora, quando algum indígena do RS conseguir “furar a bolha” e obter “capital político”, “vários partidos vão se interessar e investir pesado nessa candidatura”.
Essa lógica, no entanto, multiplica as exigências sobre quem se candidata. “Aumenta o número de obstáculos para o candidato indígena viável”, observa Flávia: “será necessário dominar o português, apenas um idioma, em que pese oficial, num país [em que] 295 línguas indígenas são faladas atualmente”, “ser alfabetizado nesse idioma”, “dominar a linguagem das redes sociais” e “investir pesado em aumentar o alcance da sua visibilidade”.
Eleição em curso
O registro de candidaturas para o pleito de 2026 foi encerrado em 15 de agosto e ainda pode sofrer alterações por decisões da Justiça Eleitoral. A votação em primeiro turno ocorre em 4 de outubro. Os dados sobre resultado eleitoral das candidaturas de 2026 ainda não estão disponíveis, já que o pleito não ocorreu.
