Na noite desta quarta-feira (2), o Parcão, em Porto Alegre, recebeu o primeiro grande ato eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) como candidato à Presidência da República no Rio Grande do Sul. Em diversos momentos, porém, o comício parecia uma micareta política.
Não havia trio elétrico nem abadá. Mas havia camisetas iguais, bandeiras sobre os ombros, máscaras, celulares erguidos e um público inflamado à espera de seus protagonistas.
Atrás das grades, apoiadores vestidos de verde e amarelo carregavam bandeiras, adesivos com a inscrição “Fora Xandão” e máscaras com o rosto de Jair Bolsonaro, além de exibirem mensagens com ataques à candidata ao Senado Manuela D’Ávila — elementos de identificação coletiva que aproximavam a política da lógica das arquibancadas: de um lado, os nossos; do outro, os adversários.
O candidato que estava e o que não estava
Flávio subiu ao palco, mas quem ocupou o Parcão foi Jair.
Mesmo ausente, o ex-presidente estava nos rostos carregados pelos apoiadores, nas referências dos discursos e na própria identidade visual do público. Quando alguém colocava diante do próprio rosto uma máscara de Bolsonaro, a metáfora quase dispensava legenda.
Flávio precisa apresentar-se como candidato ao Planalto, mas sua campanha permanece ancorada na imagem e no repertório político do pai — e, durante o ato realizado no Parcão, isso ficou ainda mais evidente.

Política como torcida
Comícios sempre carregaram algo de espetáculo. Palcos, jingles, bandeiras e palavras de ordem não são fenômenos recentes. Ali, entretanto, o pertencimento ao grupo parecia anteceder a própria discussão política.
Alexandre de Moraes virou “Xandão” e alvo de palavras de ordem. Lula ocupou o papel de inimigo. Jair Bolsonaro permaneceu como referência e Flávio apresentou-se como a continuidade desse campo político.
Como numa arquibancada, todos sabiam quando aplaudir e contra quem vaiar.
E o antagonismo não ficou restrito às vaias. Em um dos momentos mais ovacionados do ato, Flávio afirmou que, com sua eleição, o PT deixaria de existir. A frase foi recebida como palavra de ordem pela arquibancada: já não bastava derrotar o adversário; era necessário retirá-lo do campeonato.
Nesse ambiente, pouco espaço restou para as propostas, que disputavam atenção com símbolos, antagonistas e sobrenomes. Mais do que ouvir um candidato, o público reafirmava uma identidade.
Uma eleição pressupõe divergência e disputa entre projetos. Uma torcida, pertencimento e fidelidade.
Na política, o adversário precisa ser derrotado nas urnas, mas também pode ser ouvido, confrontado e, eventualmente, convencer. Na arquibancada, trocar de lado significa virar a casaca. Quando essa lógica passa a ocupar o espaço político, o debate de ideias cede lugar à lealdade de arquibancada, e a divergência deixa de ser parte natural da democracia para transformar o outro em adversário permanente.
No Parcão, essa fronteira pareceu especialmente estreita. Entre máscaras, bandeiras, camisetas e palavras de ordem, importava não apenas apoiar um candidato, mas demonstrar a qual lado se pertencia.
E, quando a política assume a lógica das arquibancadas, vencer o adversário pode se tornar mais importante do que convencê-lo — e a eleição corre o risco de deixar de ser uma disputa sobre qual país construir para se transformar apenas numa disputa sobre quem pode seguir vestindo a camisa.
* Rafael Rosa é fotojornalista brasileiro residente em Porto Alegre, tendo suas imagens veiculadas em diversas publicações de alcance nacional, tais como IstoÉ, CBN, Terra, Folhapress, Intercept Brasil, CNN, dentre outras plataformas jornalísticas.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
