Emergência Climática

Agroecologia, justiça climática e resiliência hídrica são apresentadas por movimentos populares e órgãos públicos como estratégias de enfrentamento ao El Niño

Há 90% de probabilidade de o El Niño avançar para a categoria muito forte no trimestre de novembro, dezembro e janeiro

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Não podemos esperar o desastre acontecer para depois correr atrás de ajuda. É preciso preparar os territórios, fortalecer a organização das famílias e construir formas de enfrentar esses períodos mais difíceis.
Não podemos esperar o desastre acontecer para depois correr atrás de ajuda. É preciso preparar os territórios, fortalecer a organização das famílias e construir formas de enfrentar esses períodos mais difíceis. | Crédito: Igor de Nadai/MST

Muito vem se falando sobre os impactos do fenômeno El Niño, e alguns órgãos já se preparam para amenizar seus efeitos. Para classificar a potencialidade do El Niño, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) adota categorias de intensidade como fraco, moderado, forte e muito forte, com isso, informações divulgadas pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), apontam condições de El Niño Forte, e a tendência aponta 90% de probabilidade de o El Niño avançar para a categoria muito forte no trimestre de novembro, dezembro de 2026 e janeiro de 2027.

Mas já dá para sentir os efeitos do El Niño? Francisco Vasconcelos Júnior, diretor técnico da Funceme, informa que algumas regiões do Brasil já observam impactos associados ao El Niño atual, como a Região Sul do país e o norte da Amazônia, mas no Ceará, ainda não há evidência clara de impactos diretos do evento atual, mesmo em seu estágio de categoria forte. “Em geral, os efeitos sobre o aumento da temperatura do ar tendem a ser mais percebidos durante a primavera e o verão do Hemisfério Sul, enquanto os impactos sobre a precipitação costumam se manifestar com maior relevância durante a estação chuvosa. Em diversos anos em que o El Niño atingiu a categoria muito forte, foi observada redução da precipitação acumulada no Ceará”.

Para Vasconcelos, as principais preocupações em relação a um El Niño de intensidade muito forte envolvem o aumento das temperaturas, a possibilidade de baixos índices de umidade relativa do ar e o risco de redução ou maior irregularidade das chuvas durante a estação chuvosa. “No caso do Ceará, a atenção se concentra especialmente nos possíveis efeitos sobre a disponibilidade hídrica, a agricultura, a pecuária e a saúde da população, considerando que o estado está inserido em uma região Semiárida e altamente sensível à variabilidade climática”.

Impactos

Débora Nunes, da Direção Nacional do MST e do Setor de Produção, Cooperação e Meio Ambiente do MST informa que a população que vive no campo já está sentindo alguns dos impactos do El Niño, mas salienta que os camponeses já vêm sofrendo há algum tempo com os efeitos da crise climática, e o El Niño tende a agravar esse cenário. Nunes explica que não podemos atribuir todo evento climático ao El Niño, pois existem outros fatores envolvidos, inclusive relacionados ao modelo de desenvolvimento que temos hoje e, principalmente, ao modelo de agricultura baseado no agronegócio, que tem provocado desmatamento, degradação dos solos, poluição das águas e perda da biodiversidade.

“Para nós, a crise climática não é uma ameaça para o futuro. Ela já está presente nos territórios, e enfrentar o El Niño significa que precisamos urgentemente mudar o modo de consumo, proteger as famílias camponesas, garantir água, fortalecer a produção de alimentos, cuidar dos territórios e construir políticas públicas de adaptação e justiça climática”, afirma Nunes.

No Brasil, de acordo com Nunes, os efeitos também aparecem de formas diferentes em cada região, com períodos de seca mais prolongados, chuvas irregulares, ondas de calor, enchentes e aumento das queimadas, e tudo isso interfere diretamente na vida de quem mora e produz no campo.

“Para nós do MST, o mais importante é entender que as famílias camponesas não estão diante de uma ameaça distante, elas já convivem com a falta de água, a perda de produção, as dificuldades para plantar e criar animais e, em muitos casos, com os impactos das enchentes e dos incêndios. Esses eventos extremos, que antes pareciam situações excepcionais, estão cada vez mais presentes na realidade dos territórios rurais brasileiros”, informa Nunes.

Ainda sobre os impactos, Nunes diz que a principal preocupação do MST é com três questões que estão diretamente ligadas, que são: a água, a produção de alimentos e a permanência das famílias no campo. Ela explica que quando há diminuição da chuva e temperaturas muito elevadas, aumentam os riscos de perda das lavouras, redução das pastagens, dificuldade para criar os animais e falta de água, tanto para a produção quanto para o consumo das famílias.

“Também nos preocupam muito as perdas de sementes, a degradação dos solos e as queimadas, além dos danos às casas, galpões, máquinas e outras estruturas das famílias. Tudo isso pode aumentar a insegurança alimentar e comprometer a renda e as condições de vida das comunidades”, explica Nunes, que ressalta outra questão. “Existe ainda uma questão que precisamos colocar no centro desse debate: quem paga a conta da crise climática? As famílias camponesas, os agricultores familiares, os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais são justamente aqueles que menos contribuíram para essa crise, mas estão entre os que mais sofrem com seus impactos. Por isso, não estamos falando apenas de uma questão ambiental. Estamos falando também de uma questão social e de justiça”.

A população precisa saber que o El Niño é um fenômeno natural do sistema climático, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, e que seus impactos podem variar entre regiões. No Ceará, é importante acompanhar informações de instituições oficiais, como a Funceme, a Defesa Civil e os órgãos de saúde, evitando boatos ou interpretações precipitadas. Também é fundamental seguir as orientações relacionadas ao uso racional da água, aos cuidados com o calor, à baixa umidade do ar e às medidas preventivas indicadas pelas autoridades competentes.

A população precisa saber que o El Niño é um fenômeno natural do sistema climático, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, e que seus impactos podem variar entre regiões.
A população precisa saber que o El Niño é um fenômeno natural do sistema climático, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, e que seus impactos podem variar entre regiões. | Crédito: Acervo ASA

Ações

Vasconcelos informa que o estado do Ceará vem atuando no monitoramento contínuo das condições do Pacífico e da resposta da atmosfera ao aquecimento oceânico, além de desenvolver ações para mitigar possíveis impactos do El Niño em diferentes frentes. Entre elas estão: planos de ação voltados ao setor da saúde, estratégias de convivência com a seca para a agricultura e investimentos em infraestrutura para ampliar a resiliência hídrica. “Essas medidas buscam fortalecer a capacidade de resposta do estado diante de cenários de maior temperatura, irregularidade das chuvas e possível redução da disponibilidade de água”.

Não podemos esperar o desastre acontecer para depois correr atrás de ajuda. É preciso preparar os territórios, fortalecer a organização das famílias e construir formas de enfrentar esses períodos mais difíceis. Isso passa pelo fortalecimento dos bancos de sementes crioulas, pela construção de sistemas de captação e armazenamento de água, pela organização das brigadas de prevenção e combate aos incêndios e também pela criação de mecanismos de monitoramento e alerta dentro dos próprios territórios. Também é fundamental fortalecer a assistência técnica voltada para a agroecologia e para a adaptação às mudanças climáticas.

“Outro espaço muito importante são as Escolas do Campo. Precisamos envolver as crianças, os jovens e os adolescentes nesse debate, para que eles compreendam o que está acontecendo e também se tornem sujeitos na defesa dos seus territórios. A ideia é que as comunidades não sejam apenas receptoras de políticas públicas, mas participem da construção das soluções e estejam preparadas para enfrentar os eventos extremos”, explica Nunes.

Convivência com o Semiárido

Luis Eduardo Sobral, coordenador do Projeto Floresta de Alimentos do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra) e coordenador executivo da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), diz que uma das maiores preocupações sobre o El Niño é a questão do aumento da temperatura, porque, de acordo com ele, com o aumento da temperatura a gente tem a umidade do ar muito baixa. Outra preocupação apontada por Sobral é o impacto na agricultura.

Dentro das áreas de atuação do Cetra e da ASA no Ceará, Sobral afirma que as entidades também já estão se preparando para os impactos do El Niño. “A gente tem, por exemplo, o projeto Floresta de Alimentos, que a gente tá fazendo um debate sobre a questão dos Sistemas Agroflorestais. A gente não pode mais pensar de ter uma agricultura sem diversidade, uma agricultura que não é resiliente às mudanças climáticas, ao clima”.

Sobral explica que já foram implantados, até agora, mais de 50 hectares de Sistemas Agroflorestais; em torno de 30 hectares de quintais agroflorestais, e em torno de 30 hectares de áreas de conservação. “Essas ações são estratégias de proteção, tanto focar na cobertura do solo, focar em espécies que são mais resistentes, que vão produzir essa biomassa e que também vão exercer a ciclagem de nutrientes”.

Fortaleza

A preocupação não está só para quem mora no campo, a Prefeitura de Fortaleza, por exemplo, reuniu mais de vinte órgãos municipais para discutir ações do Protocolo de Calor e Saúde de Fortaleza e o pacote de medidas preventivas contra os impactos do fenômeno El Niño.

Segundo estimativas da Defesa Civil de Fortaleza, o período mais crítico do El Niño na capital deve ocorrer entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Segundo estimativas da Defesa Civil de Fortaleza, o período mais crítico do El Niño na capital deve ocorrer entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. | Crédito: Marcos Moura/Prefeitura de Fortaleza

“Segundo estimativas da Defesa Civil de Fortaleza, o período mais crítico do El Niño na capital deve ocorrer entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, exigindo ações que se prolonguem ao longo do próximo ano. Para mitigar os impactos à população, o município criou o Comitê de Enfrentamento aos Efeitos do El Niño (COE El Niño) e o Plano de Contingência (Plancon El Niño)”, informa a Prefeitura em seu site oficial.

Segundo Artur Bruno, presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza (Ipplan), a iniciativa tem como objetivo preparar a capital cearense para integrar o planejamento urbano à saúde pública. “É preciso que estejamos cientes dos riscos climáticos e sanitários provocados pelo calor extremo, entendendo seus efeitos diretos e indiretos nas desigualdades territoriais e na necessidade de prepararmos os serviços públicos”, destaca Bruno.

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Editado por: Lívio Pereira

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