Há um muro alto que separa o Carmelo* da avenida Loureiro da Silva, 1735, também chamada de Perimetral, na Cidade Baixa. O muro não consegue impedir ou abafar os sons da cidade. Carros que passam, ônibus, caminhões, vozes, buzinas, movimentos que começam cedo e continuam ao longo do dia. A cidade segue o seu ritmo, muitas vezes acelerado, enquanto ali dentro a vida procura outro compasso, outro tipo de circunstância.
As 20 irmãs que ali vivem estão fora deste mundo. Vivem dentro dele, mas de uma maneira diferente. Não estão presas. A clausura não é uma fuga da realidade. É uma forma de permanecer nela diante de Deus. Estão ali por livre e espontânea vontade. No local, as irmãs aprendem que o silêncio não significa que nunca haja barulho. A cidade continua existindo do outro lado do muro, e seus ruídos muitas vezes chegam até elas, diz, por telefone, uma interlocutora da priora (madre) superior do Carmelo, Miriam do Espírito Santo.
Também existem os seus próprios ruídos: preocupações, pensamentos, cansaço, saudades, fragilidades e tantas coisas que fazem parte da condição humana. Mas elas seguem firmes na vocação que escolheram. Por isso, o silêncio não é simplesmente ausência de sons. É uma busca. É aprender, pouco a pouco, a criar dentro de nós um espaço para Deus. Uma clausura escolhida por amor, diz a voz que nos atende, sem se identificar.
A porta da clausura possui uma chave simbólica E isso diz muito sobre a vocação das irmãs que ali vivem. As irmãs estão no Carmelo porque escolheram estar, não por obrigação delas ou de familiares. A clausura não é uma prisão e não é uma imposição. É uma resposta livre a um chamado que cada uma precisou discernir diante de Deus. Um dia, cada uma precisou dizer, com liberdade, o seu “sim”.

O sim renovado a cada dia
E esse “sim” continua sendo renovado na vida de cada dia. Escolher a clausura, diz a priora, não significa deixar de ter vontade de sair, de conhecer, de experimentar, de estar com aqueles que amamos ou de saber tudo o que acontece no mundo, pois são pessoas normais, com uma história, uma família, sentimentos, desejos e limitações.
A entrega das irmãs não elimina a própria humanidade que cada uma carrega, ela as convida a oferecê-la. É justamente aí que elas compreendem a verdadeira liberdade. Ser livre não é poder ir a qualquer lugar ou fazer tudo o que se deseja. Para as irmãs carmelitas, o silêncio é fundamental para seguir a vida em harmonia.
Para elas, a liberdade é poder entregar a própria vida a Deus e permanecer fiéis àquilo que discerniram com o seu chamado, enfatiza a priora Miriam do Espírito Santo.
Riem, costuram, trabalham, rezam
A clausura é um limite escolhido por amor. E aquilo que é escolhido por amor deixa de ser apenas limite e passa a ser caminho. Uma vida escondida, mas não parada. Dentro do Carmelo, a vida não é estagnada, mas dinâmica. Ela tem ritmo, horários, responsabilidades e trabalho. Rezam. Trabalham. Comem. Descansam. Costuram. Fazem artesanato. Cuidam da casa e da horta. Preparam aquilo que é necessário para a comunidade.
Convivem. Riem. Têm momentos de recreação. Também têm dias difíceis. Há uma vida muito concreta ali e, talvez, seja justamente essa dimensão que muitas vezes não se vê quando se fala de uma comunidade contemplativa. Fora do muro muito se pergunta sobre o que fazem ali. É complexo entender, uma opção de vida completamente diferenciada daquilo que a maioria dos mortais imagina.
A contemplação não dispensa das pequenas coisas, pelo contrário. É no cotidiano que as irmãs aprendem a amar. É na convivência que são chamadas à paciência, ao perdão e à caridade. É no trabalho que aprendem a servir. É na rotina que são convidadas à fidelidade. E é no meio de tudo isso que procuram permanecer diante de Deus, com determinação e muita concentração.
O centro de tudo, mas há dias difíceis
Elas têm horas destinadas à oração pessoal e comunitária. Mas dizer que a oração é o centro da vida dessas irmãs, não significa que estão sempre sentindo a presença de Deus ou que rezam sempre com facilidade. Existem dias em que a oração é consoladora. Existem dias em que ela parece árida, difícil, não sai do fundo da alma. Existem momentos em que encontram palavras. E outros em que tudo o que conseguem fazer é permanecer quietas. Mas talvez seja exatamente aí que a oração se torne mais verdadeira.
Para elas, reforça a voz que nos fala, é contemplar, não é necessariamente sentir. Contemplar é permanecer. É estar diante de Deus quando o coração está cheio e quando está vazio. É continuar acreditando quando não temos respostas. É confiar que Deus está presente mesmo quando não conseguimos percebê-Lo.
No Carmelo da Cidade Baixa, as Irmãs aprendem que uma vida de oração não é uma vida sem lutas. É uma vida na qual aprendem a levar suas lutas para Deus. O silêncio também é uma oferta e ocupa um lugar importante na vida do Carmelo.
Há momentos em que ele é mais rigoroso. Há momentos de conversa, convivência e lazer. O silêncio carmelita não significa que nunca se fala. Significa que procuram não viver dispersas. Elas aprendem quando falar, quando calar e, principalmente, quando escutar. Escutar a Deus. Escutar a irmã. Escutar aquilo que acontece dentro de nós. E aprendem também a não preencher imediatamente todos os espaços, esclarece a priora.
A cidade as ensina muitas vezes a responder rapidamente, a estar sempre informadas, conectadas e disponíveis. A vida contemplativa as chama para outra experiência: permanecer, esperar, escutar. Não têm todas as informações. Não acompanham tudo o que acontece fora. E isso também é uma renúncia. Mas não significa indiferença, ao contrário: quanto menos podem acompanhar diretamente tantas realidades, mais são chamadas a colocá-las diante de Deus, diante das suas obrigações e da sua missão.
Carregar o mundo na oração
“Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas e, ao mesmo tempo, mais escondidas da vocação carmelitana”, diz a irmã. Elas não saem pelas ruas para encontrar todas as pessoas. Não estão presentes em todos os lugares. Não resolvem os problemas do mundo. Mas podem rezar e rezam muito.
Elas podem colocar diante de Deus aquilo que conhecem e aquilo que não conhecem. Podem rezar por quem sofre, por quem está sozinho, pelas famílias, pelos jovens, pelos que perderam a fé, pelos que procuram um sentido para a vida, pelos que enfrentam doenças, pelos que estão longe de Deus.
Podem rezar também por aqueles que jamais saberão que alguém rezou por eles. Essa é a fecundidade escondida da vida contemplativa. Nem sempre verão os frutos. Nem sempre saberão o que a sua oração alcançou. Mas acreditam. Acreditam que uma vida entregue a Deus nunca é estéril, afirma a freira.

O Carmelo no coração da cidade
Há algo de muito significativo em viver uma vocação contemplativa justamente em pleno burburinho da cidade, de prédios, de bares, de restaurantes, dos movimentos de todos os tipos. Do outro lado do muro, a cidade continua correndo. Mas ali dentro, as irmãs procuram permanecer. Não porque são melhores. Não porque têm todas as respostas. Não porque tenham conseguido abandonar todas as preocupações. Mas porque acreditam que Deus merece uma vida inteira, diz a priora, convicta da firmeza das 20 irmãs.
O Carmelo, no meio da cidade, torna-se uma pequena presença escondida que muitos nem se dão ao trabalho de perguntar o que é aquilo tão fechado e tão misterioso.
Nada disso. Ali, para as carmelitas, se recorda que existe algo além da pressa, do consumo, da produtividade e do excesso de informação. Uma vida pode ser fecunda mesmo quando ninguém a vê. Uma oração pode transformar uma realidade que não conhecemos. Um silêncio pode ser uma resposta. Uma vida escondida pode ser uma vida profundamente oferecida.
A verdadeira liberdade
Talvez alguém olhe para a vida do Carmelo e pergunte: “Como podem ser livres vivendo em clausura?”, diz a irmã. E talvez a resposta não esteja em uma explicação, mas na própria vida. Porque liberdade, para as irmãs, não significa ausência de limites. Significa pertencer. Pertencer a Cristo. Escolher permanecer. Amar aquilo que um dia discerniram como chamado vocacional.
E, quando chegam as dificuldades, voltar a escolher. Todos os dias. A verdadeira liberdade não é poder fazer tudo. É não ser escrava de tudo. É ter um coração capaz de dizer: “Senhor, eu escolho a Ti”, garante a priora.
E essa escolha precisa acontecer também nas pequenas coisas: quando é difícil conviver, quando estamos cansados, quando a oração não consola, quando precisamos recomeçar, quando somos contrariadas, quando sentimos saudade, quando sentimos que queremos o mundo, a família, os passeios, quando, enfim, sonhamos com outras coisas. Quando a rotina pesa. É aí que o nosso “sim” se torna concreto.
Uma vida simples, escondida e real
O Carmelo não é um lugar de mulheres que já chegaram à santidade. É um lugar de mulheres que desejam caminhar para Deus. São aprendizes. São frágeis. Precisam umas das outras. Precisam da misericórdia. Precisam recomeçar muitas vezes. E talvez seja justamente nessa realidade simples que está a beleza da vocação carmelitana.
As irmãs não são chamadas a fazer coisas extraordinárias aos olhos do mundo. São chamadas a amar. A permanecer. A oferecer. A buscar a Deus no escondimento. Enquanto a agitação dos carros passa pela avenida e a cidade segue seu ritmo, dentro do Carmelo continua uma vida que quase ninguém vê. Uma vida feita de oração e trabalho. De silêncio e convivência. De renúncia e liberdade. De alegrias simples e lutas concretas. Uma vida que não pertence mais somente a nós, diz a madre superior Miriam do Espírito Santo.
Quando uma mulher entra no Carmelo, ela não entrega apenas seus projetos pessoais. Ela coloca toda a sua existência nas mãos de Deus. E, escondida atrás dos muros, continua caminhando. Não para fugir do mundo. Mas para levá-lo consigo diante de Deus.
Não é um isolamento. Não é uma fuga. É simplesmente uma escolha de amor. Uma vida escondida com Cristo. Uma vida oferecida pela Igreja e pelo mundo. Uma vida de oração, trabalho e contemplação. Uma vida que, em meio ao barulho da cidade, procura escutar uma única voz. A voz daquele que um dia chamou. E que continua chamando, no silêncio do coração: “Permanece comigo.”
Só serviços extraordinários para os de fora
Tudo que acontece no Carmelo pode ser divulgado, mas os acessos das pessoas são limitados, salvo serviços extraordinários que as freiras não conseguem executar. Não se vive em segredo no 1º Carmelo do Sul do Brasil e 2º do Brasil, fundado em 1839 pela portuguesa Madre Joaquina de Jesus. Hoje, o local está com 187 anos.
O muro que cerca o Carmelo está todo pichado. Existe igreja, ou capela, na área. Ela pode ser frequentada por quem quiser ir nas missas de todos os dias (segunda à sexta às 7h da manhã e sábados e domingos às 8h). Não há registro oficial do total de metros quadrados pertencentes ao mosteiro.
Há na calçada um quiosque de cachorro quente e hambúrgueres, além, é claro, de bebidas. Com familiares falam em ocasiões especiais por necessidade ou doença. Para as que moram longe, podem ligar eventualmente. No locutório, compartimento ou recinto separado, as religiosas em clausura conversam com eventuais visitantes, podem receber familiares, que não podem entrar nos locais internos.
Os quartos, chamados de celas, são individuais. Ali dormem, descansam das suas atividades ou fazem as suas orações pessoais. “As irmãs são felizes diante da realidade que escolheram. Fizeram os votos de castidade, obediência e pobreza e concordaram livremente a seguir todas as regras”, garante a superiora. Elas só saem do Carmelo para eventuais consultas médicas.
As freiras podem falar tanto na Quaresma quanto no Advento, mas a comunicação sofre restrições bem mais severas. O silêncio é a base da regra das irmãs carmelitas, porém a Quaresma é o período mais rigoroso, funcionando como um retiro fechado e profundo.
A Quaresma e o Advento são dois tempos litúrgicos cristãos de preparação espiritual, mas que antecedem festas e têm focos diferentes. A Quaresma é o período litúrgico de 40 dias de preparação espiritual para a Páscoa, marcado pela oração, pelo jejum e pela caridade.
Já o Advento é o período cristão que marca o início do novo ano na Igreja e serve de preparação espiritual para o Natal. Dura quatro semanas, abrangendo quatro domingos antes de 25 de dezembro, Natal, dia do nascimento de Jesus Cristo.
Outro período importante para as irmãs é a novena de Nossa Senhora do Carmo no Carmelo de Porto Alegre e acontece anualmente de 7 a 15 de julho, antecedendo a solenidade da padroeira celebrada no dia 16 de julho. Neste período há missas diariamente às 19h.
No período da novena, há uma feira no mosteiro, cuidada por amigos da instituição e devotos de Carmo. As freiras não entram em contato com o público. Um grupo de amigos vende a produção local, como artesanatos, pães e bolos, e depois entregam a arrecadação para o mosteiro. Confiança absoluta entre as duas partes.
Problemas? Quase nenhum. Em alguns finais de semana, algumas pessoas bêbadas ou drogadas incomodam, mas não tentam invadir o local, informa.
Como lidar com as informações do mundo de fora
Tecnologia, internet? Segundo a porta-voz, algumas irmãs têm acesso ao telefone celular por designação da madre, “mas estamos convictas de que estamos em clausura. Não temos acesso a maiores informações. Viagens? “Em casos excepcionais ocorrem visitas a familiares por alguma doença”, diz.
Vinculadas à Ordem da Bem Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, a qual tem como pais fundadores Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Elas também fazem parte de uma família religiosa, enriquecida com um carisma próprio, para desempenhar uma missão específica na Igreja Católica.
Pertencem a uma família consagrada, especialmente, ao amor e culto à Virgem Santíssima e tendem à busca da perfeição evangélica em comunhão com a Santa Mãe de Deus, cuja espiritualidade vocacional é dedicada à contemplação e à comunhão fraterna, à abnegação evangélica e ao espírito apostólico.
A fundadora do Carmelo
Faltam 13 anos para o Mosteiro comemorar os seus 200 anos. A fundação foi em 1839 – em plena Revolução Farroupilha – pela portuguesa Madre Joaquina de Jesus. Tinha 16 anos quando precisou fugir junto com a família para a Inglaterra por ocasião da invasão francesa. Depois de um certo tempo vieram para o Brasil. Joaquina conseguiu trazer apenas um tesouro: as obras de Santa Teresa de Jesus.
O período de vida de Madre Joaquina de Jesus (fundadora do primeiro mosteiro carmelita do Rio Grande do Sul) é delimitado pelo seu falecimento em 1862. Não há uma data clara sobre o nascimento, mas supõe-se que tenha sido entre 1780 e 1800.
Embora o ano exato de seu nascimento não conste nos registros históricos gerais, a sua trajetória pública e religiosa ganhou destaque no século 19: fundou o Carmelo de Porto Alegre em 1839, sob sua liderança a primeira capela do mosteiro foi inaugurada em 1846 e a sua estrutura definitiva em 1857.
Ela é definida pelas religiosas como a de uma pessoa de caráter alegre e comunicativa, mas enérgica, empreendedora, gênio constante e espírito jovial. Uma das suas virtudes mais ressaltadas é a coragem, não tinha medo de desafios, nada lhe abatia, “a sua confiança em Deus era sem limites”.
No dia 6 de novembro de 1857 aconteceu a inauguração da atual capela. Com a aprovação da autoridade eclesiástica, Dom Feliciano José Rodrigues Prates, primeiro Bispo do RS, no dia 8 de dezembro daquele ano, na Festa Solene da Imaculada Conceição da Bem Aventurada Virgem Maria, principiaram a viverem religiosamente, em regime de claustro, a Madre Joaquina e suas 10 companheiras.
No dia 18 de novembro de 1862 Madre Joaquina faleceu, sem poder ver seu convento canonicamente aprovado. Nem havia completado dois meses após a morte da madre fundadora, aos 12 de janeiro de 1863, a Santa Sé concedeu a aprovação. Em 24 de maio do mesmo ano, pela primeira vez foram pronunciados os votos religiosos no Carmelo.
Origem da congregação vem do século 12
As Irmãs Carmelitas descendem dos eremitas do século 12 no Monte Carmelo, na Terra Santa, inspirados pelo profeta Elias. Eremita é uma pessoa que vive isolada da sociedade, motivada principalmente por religiosidade, penitência, busca espiritual ou amor à natureza. O ramo feminino oficial nasceu entre 1451 e 1471 com o Beato João Soreth, e a ordem foi reformada no século XVI por Santa Teresa de Ávila, que criou as Carmelitas Descalças.
Os primeiros monges viveram na Palestina como eremitas em busca de oração e silêncio. Eles receberam uma regra oficial de Santo Alberto entre 1206 e 1214. O ramo feminino reunia (e reúne) mulheres piedosas, abnegadas e com profundo sentido religioso. Elas começaram a se associar aos frades, formalizadas pelo Papa Nicolau 5 em 1452.
Santa Tereza de Ávila entrou para o Carmelo na Espanha em 1536. Ela fundou um grupo mais rigoroso focado na pobreza e na oração profunda em 1562, junto com São João da Cruz.
Um dos fatos marcantes da história das carmelitas aconteceu na França, em 1794, quando 16 delas foram guilhotinadas durante a Revolução Francesa, cantando hinos até o fim. O sacrifício delas ajudou a encerrar o Regime do Terror. No Brasil, as primeiras monjas carmelitas chegaram em 1839 com a inauguração do Mosteiro de Porto Alegre. Há outras versões, mas completamente fora do tom inicial.
*A palavra “Carmelo” refere-se à Ordem do Carmo e designa o mosteiro onde vivem as monjas carmelitas, que seguem uma vida de clausura e contemplação.Todo “Carmelo” é um mosteiro, mas nem todo mosteiro é um Carmelo, já que existem mosteiros de outras ordens religiosas.
*PS: Com agradecimentos às freiras do Carmelo pela entrevista e pela participação ativa na reportagem.
