A montagem teatral pernambucana “Ombela” volta ao Espaço O Poste (Rua do Riachuelo, nº 641, Boa Vista) para uma temporada com seis apresentações nos dias 11, 12, 18, 19, 25 e 26 de setembro. Com mais de uma década de trajetória, o espetáculo é uma das produções do grupo O Poste Soluções Luminosas dedicadas à pesquisa de matrizes africanas e à construção de poéticas negras no teatro.
As sessões acontecem sempre às 19h, às sextas-feiras e aos sábados, com ingressos a R$ 10 (meia) e R$ 20 (inteira), vendidos pela plataforma Sympla. A classificação indicativa é de 16 anos.
Em cena, Agrinez Melo e Naná Sodré dão vida a duas personagens atravessadas por questões relacionadas ao feminino, à identidade racial e à ancestralidade. A dramaturgia parte de textos e poemas do escritor angolano Manuel Rui e incorpora elementos da língua Umbundo, falada pelos Ovimbundos, povo das regiões centrais de Angola. O termo “Ombela” significa chuva nessa língua africana.
A água é o ponto de partida da narrativa. Na história, duas gotas de chuva caem sobre a terra e passam por um processo de humanização, assumindo diferentes formas ao longo da jornada. A partir delas, o espetáculo constrói uma narrativa que transita entre o mundo concreto e uma dimensão simbólica e mágica, propondo reflexões sobre existência, ancestralidade, identidade e continuidade da vida.
O espetáculo prevê abertura para participação dos espectadores e utiliza a água como elemento central para abordar questões sociais e filosóficas.
A presença da cultura africana também aparece na linguagem do espetáculo, que combina o português com trechos falados e cantados em Umbundo. A poesia funciona como uma espécie de passagem entre diferentes dimensões da narrativa, enquanto cenário, figurino, iluminação e maquiagem incorporam referências africanas sem se prender a uma representação temporal específica.
A montagem também reúne artistas pernambucanos em diferentes áreas da criação. A trilha sonora tem composição e direção musical de Isaar, enquanto Surama Ramos é responsável pela preparação musical. As indumentárias foram concebidas por Agrinez Melo. Samuel Santos assina cenário, iluminação e encenação, e Daniele Perin participa com consultoria e estudos em Antropologia.
“Ombela” estreou em 2014, no próprio Espaço O Poste, onde retorna agora para a temporada de setembro. No ano seguinte, integrou a programação do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos e recebeu um prêmio especial pela pesquisa de matriz africana.
A trajetória da montagem também inclui apresentações fora de Pernambuco. Em 2019, o espetáculo participou do Festival de Teatro Lusófono, o FestLuso, realizado em Teresina, no Piauí. Em 2022, chegou a Portugal por meio do Festival Tanto Mar Apresentações. Mais recentemente, em março de 2026, “Ombela” foi apresentado no Centro Cultural Banco do Nordeste Fortaleza, como parte da Mostra BNB das Artes Cênicas.
A pesquisa desenvolvida a partir da montagem também ultrapassou os palcos. O espetáculo é objeto de trabalhos acadêmicos, incluindo uma dissertação de mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), voltada aos procedimentos estéticos e à presença da ancestralidade no teatro de grupo.
A obra também é tema do artigo “Ombela: uma cena ancorada no imaginário africano”, publicado pela Revista USP, que analisa os procedimentos utilizados para levar à cena elementos relacionados à ancestralidade africana.
A montagem integra ainda a trajetória de pesquisa da Escola O Poste, iniciativa que trabalha com saberes afro-brasileiros, afro-indígenas e afropindorâmicos e desenvolve práticas ligadas à oralidade, ao corpo ancestral, às poéticas dos Orixás e Encantados, à capoeira, às tradições indígenas, à voz e à dramaturgia.
