No acervo do Arquivo Público da Bahia, as pesquisadoras Lisa Earl Castilho, doutora em Letras, e a historiadora Wlamyra Albuquerque, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), encontraram documentos que ajudam a preencher uma lacuna historiográfica importante da vida do abolicionista Luiz Gama. A revelação diz respeito à infância de Gama na Bahia, onde viveu até os nove anos, antes de ser levado para o Rio de Janeiro na condição de escravizado ilegal, e informações que problematizam o papel de sua mãe, Luiza Mahin, nas insurreições baianas do século 19.
No Conversa Bem Viver desta quinta-feira, as pesquisadoras comentam sobre os novos achados documentais e o que eles revelam sobre a história de vida de dois grandes personagens da luta contra a escravidão no Brasil.
Os documentos encontrados pelas pesquisadoras são o registro de batismo do abolicionista e as escrituras de alguns imóveis na rua do Bengla, de propriedade de Antônio Agostinho Carlos Pinto da Gama, todos herdados de uma tia, Maria Rosa de Jesus, e vendidos entre 1837 e 1840.
No artigo, as pesquisadoras relatam que além dos imóveis na rua do Bengla, Maria Rosa tinha duas “cativas nagôs”. Em seu testamento, Maria Rosa faz menção especial a uma, chamada Luiza, cujo filho, “de nome Luiz Gonzaga Pinto da Gama […] é livre de toda a escravidão como se assim nascesse”. Para as pesquisadoras, não cabe a menor dúvida. O menino era o próprio Luiz Gama, filho de Antônio Agostinho Carlos Pinto da Gama com Luiza Mahin.
No entanto, nos novos documentos não foram encontrados nenhum indício da atuação de Luiza Mahin como liderança ativa da Revolta dos Malês e da Sabinada. “Temos documentos que comprovam que Luiza Mahin foi de fato mãe de Luiz Gama, mas não há nada que indique que ela tenha lutado nessas revoltas”, explica Wlamyra Albuquerque.
Boa parte da história de vida de Luiz Gama que conhecemos foi narrada por ele mesmo em cartas autobiográficas. Os estudos sobre sua vida, em geral, partem das informações registradas na famosa carta escrita para Lúcio de Mendonça, outro abolicionista, em 25 de julho de 1880.
O próprio Luiz Gama foi responsável por impulsionar uma narrativa sobre si digna dos grandes heróis nacionais. Segundo Wlamyra, Gama era ciente do alcance que a sua narrativa teria para a luta contra a escravidão. “Tanto ele quanto o Lúcio sabiam que contar essa história era uma forma de, naquele momento, dar fôlego ao movimento abolicionista na década de 1880”, explica a pesquisadora.
Do mesmo modo, ao citar sua mãe na carta, a história de Luiza Mahin ganha novos contornos épicos no imaginário brasileiro, sobretudo nos movimentos sociais e feministas, que ao longo do tempo vão lhe atribuindo um enredo que às vezes se sobrepõe à própria história de Luiz Gama. Em 2019, Luiza Mahin entrou no Livro de Heróis da Pátria. Contudo, salvo as enigmáticas informações fornecidas pelo próprio filho, as evidências sobre a vida de Mahin são muito vagas.
De acordo com o artigo, o que Luiz Gama disse na carta a Lúcio de Mendonça foi apenas que a sua mãe foi presa “suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito”. Na disseminação dessa lembrança do filho, Luiza tem sido transformada em participante ativa, ao passo que a ambígua referência a “insurreições escravas” é interpretada como a Revolta dos Malês, em 1835.
As autoras citam ainda que a ideia de Luiza Mahin como a face feminina da revolta só começa a surgir um século depois, com o romance escrito por Pedro Calmon sobre a rebelião, em que ela aparece como protagonista.
Ao cruzar as informações contidas na carta redigida por Gama a Lúcio de Mendonça e os novos documentos encontrados no acervo do Arquivo Público da Bahia, as pesquisadoras questionam e problematizam se Luiza Mahin realmente participou de forma ativa dos levantes. Para elas, não há indícios suficientes para tal afirmação.
“Não duvidamos que Luiza tenha sido presa em algum momento, sob a acusação de conspirar contra o regime escravista, como foram tantos outros africanos na década de 1830, marcada por instabilidade política. Mas na ampla discussão sobre seu suposto papel em 1835, falta um detalhe fundamental do relato do filho: a insurreição pretendida que resultou na prisão da mãe não tivera efeito. Gama descreveria assim uma das maiores rebeliões escravas da Bahia? Acreditamos que não”, conta Lisa Castilho.
Para elas, o mais provável é que a prisão de Luiza tenha acontecido no período logo depois do levante, quando a polícia estava em estado de alerta permanente, fiscalizando os movimentos de africanos e prendendo-os sob qualquer pretexto.
“A Luiza Mahin foi um personagem importantíssima, mas isso não quer dizer que ela tenha pegado em armas e liderado um grupo contra o Exército brasileiro na Bahia no começo do século 19”, afirma Wlamyra.
Lisa Castilho e Wlamyra Albuquerque chamam a atenção para o desejo das pessoas de encontrar essa referência feminina, principalmente negra, como protagonista da história brasileira, mas destacam a importância que os documentos históricos possuem para a humanização desses grandes personagens.
“Acho que isso tem a ver com um vazio que se construiu na historiografia brasileira sobre o protagonismo feminino, especialmente sobre o protagonismo feminino negro. Mas sendo historiadoras, estamos contentes também por colaborar em humanizar essa personagem, essa Luiza Mahin, que não precisa ter lutado na Revolta dos Malês contra os soldados para ser reconhecida como uma grande personagem”, comenta Wlamyra.
“É importante valorizarmos o protagonismo das mulheres nos acontecimentos históricos, sobretudo a atividade contra a repressão, a resistência na Bahia, mas temos também que ser cautelosos e não colocar fatos onde não há informações”, complementa Lisa Castilho.
Este estudo inédito joga luz a muitos aspectos que antes estavam obscuros sobre a vida de Luiz Gama. Ao mesmo tempo, abre margens para novas investigações historiográficas, principalmente sobre a vida de Luiza Mahin, que segue sendo uma grande referência de luta para o movimento negro.

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