O relatório 2025 do Observatório Brasileiro das Desigualdades mostra que, apesar de avanços em alguns indicadores, a disparidade de renda, gênero e raça segue marcante no país. Para Clemente Ganz Lúcio, coordenador do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, enfrentar essas distorções exige mudanças estruturais, especialmente no sistema tributário.
“A desigualdade de salário, a desigualdade de trabalho, as diferentes outras manifestações de desigualdade, seja entre as pessoas, no território, nas condições de trabalho, nas condições de vida, [se manifestam também] nas contribuições à tributação: os ricos pagam menos impostos do que os mais pobres”, afirma, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
O levantamento mostra que o 1% mais rico ganha, em média, 30,5 vezes mais do que os 50% mais pobres. Além disso, os mais pobres são os que proporcionalmente mais pagam impostos: os 10% mais pobres comprometem 26,4% da renda com tributos, enquanto os 10% mais ricos gastam 19,2%.
Para Lúcio, medidas como a taxação dos super-ricos e a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais são importantes, mas insuficientes. “É preciso fazer uma mudança na estrutura tributária para ter uma estrutura justa, correta, progressiva. É mais um passo importante. Não resolve todo o problema, mas é um passo importante”, avalia.
Mulheres negras seguem na base da pirâmide
O relatório mostra que, em 2024, o rendimento médio da população chegou a R$ 3.066, com aumento de 2,9% em relação ao ano anterior. Mas as mulheres seguem ganhando em média R$ 2.581, o que corresponde a 73% do salário dos homens, que é de R$ 3.541, em média.
No recorte racial, a desigualdade é ainda mais acentuada. As mulheres negras tiveram rendimento médio de R$ 2.008, que significa apenas 43,3% da média de R$ 4.636 recebida por homens não negros.
“Há uma diferença em quantidade de reais muito grande. Essas desigualdades estão presentes no campo de trabalho, seja por ocupações mais precárias, seja por condições de acesso ao mercado de trabalho mais limitadas”, destaca Lúcio.
Apesar disso, o relatório aponta que as mulheres negras registraram o maior crescimento proporcional de rendimentos (5,2%), superando tanto a média nacional quanto o avanço dos homens não negros (3,0%).
Sub-representação política
Mesmo sendo maioria da população, negros ocupam apenas 35,1% das cadeiras nas assembleias estaduais. Entre as mulheres, a presença é ainda menor: apenas 18,2% estão nos legislativos municipais.
“Os partidos têm uma estrutura que é fortemente comandada pelos homens, pelos homens brancos, com pouca participação das mulheres e menor participação, muitas vezes, das mulheres negras e dos homens negros”, avalia Lúcio. Ele defende que a sociedade pressione para que os partidos cumpram as cotas e distribuam recursos de campanha de forma igualitária.
Avanços recentes
Apesar das desigualdades, o relatório registra melhora em 25 dos 43 indicadores analisados, incluindo a redução de 23,4% da pobreza e a saída do Brasil do mapa da fome, sob a gestão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Esse relatório combina, de um lado, a permanente denúncia de que no Brasil há uma desigualdade muito grande em várias dimensões, mas tem uma outra dimensão que é também muito importante: uma melhora. (…) O Brasil consegue sair do mapa da fome, deixando, felizmente, para trás uma situação dramática de extrema injustiça”, celebra Lúcio.
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