A procura por atendimento em saúde mental relacionado ao vício em apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) cresceu quase 140% nos últimos cinco anos. O dado foi apresentado pelo Ministério da Saúde durante audiência pública realizada na Câmara dos Deputados na quinta-feira (28). O avanço das plataformas de apostas eletrônicas, conhecidas como “bets”, tem mobilizado gestores que discutem os impactos do setor na economia e na saúde.
O representante da pasta da Saúde, Marcelo Dias, participou do debate técnico na Comissão de Desenvolvimento Econômico. Ele explicou que o aumento da oferta dessas plataformas gerou reflexos diretos nas redes de assistência pública.
Segundo Marcelo Dias, o mercado de apostas virtuais operou sem barreiras regulatórias rígidas durante o período crítico da pandemia da covid-19. Essa ausência de fiscalização nos anos anteriores criou o que ele classificou tecnicamente no plenário como uma “tempestade perfeita” para o vício. O representante alertou para os gatilhos psicológicos que alimentam a dependência.
“A pessoa começa ganhando, e isso a estimula a continuar jogando”, afirmou Dias durante sua exposição na Câmara dos Deputados. “Quando as perdas começam, entra em ação um mecanismo comum nos transtornos relacionados a jogos, não apenas digitais: a tentativa de recuperar o dinheiro perdido”, complementou o especialista.
Para o técnico governamental, esse comportamento gera um ciclo vicioso de endividamento familiar difícil de ser quebrado sem apoio clínico. Marcelo Dias chamou a atenção para o agravamento da situação financeira e psíquica dos cidadãos. “À medida que a dívida aumenta, cresce também a tendência de a pessoa continuar jogando”, explicou.
Diante do crescimento expressivo das demandas por suporte psicológico nas unidades de saúde, o governo federal passou a estruturar linhas específicas de cuidado para o transtorno do jogo. O Ministério da Saúde lançou uma plataforma de atendimento online para acolher as vítimas da dependência. O suporte é realizado por meio das ferramentas digitais oficiais da pasta.
O serviço oferece teleatendimento gratuito e confidencial para pessoas com compulsão por apostas online, familiares e redes de apoio por meio do aplicativo Meu SUS Digital. O sistema foi desenhado para facilitar o acesso de quem tem vergonha de procurar os postos presenciais. “Antes do atendimento, a pessoa faz um autoteste para verificar o nível de dependência”, detalhou Marcelo Dias.
As medidas de acolhimento em saúde mental tentam mitigar os danos gerados por práticas abusivas de mercado. Os dados oficiais apontam que mais de 500 mil pessoas já solicitaram formalmente a exclusão de seus cadastros em plataformas de bets. Esses usuários recorreram aos mecanismos de segurança digital por terem perdido o controle sobre os gastos.
O representante do Ministério da Fazenda, Leandro Lucchesi, também integrou a mesa de debates na audiência pública. Ele ressaltou que o processo recente de regulação foi responsável por retirar muitas operadoras irregulares do mercado nacional. A fiscalização agora busca barrar propagandas enganosas e abusivas.
De acordo com Lucchesi, a prioridade fiscalizatória é combater “a publicidade que trata as apostas como uma complementação de renda”. O governo federal trabalha na identificação do chamado design manipulativo dos jogos eletrônicos. São estratégias visuais e de programação voltadas para reter o internauta na tela.
“Já identificamos alguns padrões nesses mecanismos de design”, afirmou Leandro Lucchesi aos deputados federais. “Um deles é o do ‘quase ganho’: quando o apostador sente que esteve perto de vencer, a tendência é insistir na aposta”, explicou o integrante do Ministério da Fazenda ao esmiuçar o funcionamento dos algoritmos.
Outra armadilha identificada pelas equipes técnicas e descrita por Lucchesi é o “ganho negativo”, modelo em que o usuário comemora pequenas vitórias que escondem um prejuízo financeiro real. Esse tipo de mecânica abusiva atinge um perfil demográfico bem delimitado pelos levantamentos estatísticos apresentados na comissão.
O público mais vulnerável às apostas é composto majoritariamente por homens com idade entre 18 e 50 anos. Estimativas econômicas apontam que esse grupo perdeu cerca de R$ 38 bilhões apenas no ano passado. O volume financeiro total movimentado pelas operadoras atinge cifras quase dez vezes maiores.
Os dados revelam ainda que metade dos apostadores ativos desembolsou até R$ 50 em algum mês do ano passado. No entanto, uma parcela mais severamente comprometida, equivalente a 20% do total de usuários rastreados, chegou a apostar cerca de R$ 1.000 em um único mês, ligando o sinal de alerta de economistas.
Diante do cenário de degradação social, o deputado Pedro Uczai (PT-SC) tem defendido posições firmes no Congresso Nacional. O parlamentar apoia medidas legislativas que imponham freios rígidos ao setor produtivo de jogos de azar. Ele argumenta que os lucros das empresas privadas não podem se sobrepor à sustentabilidade econômica das famílias.
Uczai endossa frentes parlamentares que buscam rever os termos da autorização dessas plataformas no Brasil. Para o deputado, o país enfrenta uma transferência massiva de renda das camadas populares para corporações internacionais de jogos. O político aponta a urgência de defender o orçamento das famílias trabalhadoras.
O deputado Vander Loubet (PT-MS), que solicitou a realização da audiência pública na Câmara, endossa junto a colegas o Projeto de Lei 1808/26. A proposta em tramitação legislativa busca proibir terminantemente as apostas online no território nacional. Parlamentares favoráveis à proibição argumentam que a regulação atual é insuficiente.
A disparidade entre o faturamento das empresas de apostas e o custo social gerado pelo vício é alvo de estudos profundos. Um relatório publicado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), intitulado “A Saúde dos Brasileiros em Jogo”, trouxe evidências epidemiológicas e econômicas inéditas sobre o tema.
Uma das autoras do estudo do Ieps, a analista de relações institucionais Marcella Semente, destaca o papel fiscalizador do Estado. Para a pesquisadora, o crescimento acelerado do mercado de bets gerou impactos significativos que exigem uma resposta coordenada e estruturada das políticas públicas de saúde.
Marcella Semente aponta que a fragmentação das respostas governamentais dificulta o enfrentamento real da crise. Ela defende a urgência de converter as demandas e alertas da sociedade civil em metas governamentais claras. “Até o ano passado, o ministério sequer tinha criado uma linha de cuidado para transtorno do jogo no SUS. Era preciso alertar para os danos, mesmo antes de o país ter essa infraestrutura de informação organizada”, afirma.
O estudo capitaneado por Semente e outros especialistas quantifica os danos socioeconômicos causados pelo avanço dos jogos de azar no país. O custo social anual atinge a cifra estimada de R$ 38,8 bilhões para o Brasil. Desse montante total, a grande maioria (R$ 30,6 bilhões) corresponde a impactos diretos na saúde mental da população.
O dossiê detalha que esses custos estão atrelados a mortes adicionais por suicídio (R$ 17 bilhões), à perda de qualidade de vida decorrente da depressão (R$ 10,4 bilhões) e aos gastos com tratamentos médicos para lidar com a depressão (R$ 3 bilhões).
Os pesquisadores apontam para a imensa assimetria entre a arrecadação federal de impostos e os custos sociais e de saúde gerados pelo setor das apostas online. Os recursos que retornam para o financiamento da saúde pública são apontados como insuficientes por economistas e sanitaristas que avaliam o orçamento do setor.
Reportagem do Brasil de Fato com dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Fiquem Sabendo detalha essa discrepância financeira nas contas públicas. O levantamento apontou que apenas R$ 57 milhões oriundos da arrecadação das bets foram destinados ao Fundo Nacional de Saúde no período entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026.
Essa destinação de recursos equivale a meros 1,15% do bolo total arrecadado pelo governo federal com a regulação tributária das apostas online. Especialistas em economia da saúde calculam que o gasto público real para tratar os impactos da dependência chega a ser 500 vezes maior do que o volume repassado pelas operadoras ao SUS.
A economista Ione Amorim, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), também tem se pronunciado de forma contundente sobre as armadilhas do setor. Para a coordenadora de programas de sustentabilidade financeira do Idec, o modelo de negócios das plataformas se apoia na exploração das fragilidades financeiras da população. “Você pega uma realidade de falta de dinheiro e transforma o jogo em promessa de renda. A pessoa deixa de ver aquilo como entretenimento e passa a tratar como solução financeira”, diz.
O impacto da drenagem desse dinheiro do orçamento doméstico foi mapeado recentemente pelo Congresso Nacional. O relatório final da CPI das Bets, apresentado pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), concluiu que as plataformas atuam como um vetor de drenagem de renda das famílias.
Na apresentação do seu parecer, a senadora resumiu o cenário afirmando que a expansão das apostas reduziu o consumo das famílias, fazendo com que os recursos deixassem de circular em outros setores e que “empregos da economia real” fossem destruídos.
