A pesquisa Datafolha que revela que 46% dos usuários de bets apostam para obter renda extra e pagar contas não descreve apenas um comportamento de consumo. Ela expõe uma ferida social aberta no Brasil: milhões de pessoas estão sendo empurradas a transformar o desespero em aposta.
O levantamento realizado mostra ainda que 10% dos brasileiros dizem ter o hábito de apostar em plataformas digitais ou cassinos online — sendo 2% com alta frequência, 4% às vezes e 4% raramente. Não se trata de um fenômeno periférico. Trata-se de uma prática disseminada, que avança sobre o orçamento das famílias e sobre a vida cotidiana de milhões de trabalhadores e trabalhadoras.
Não estamos diante de um simples entretenimento digital, como tenta vender a publicidade agressiva dessas plataformas. O que cresce no país é um modelo de exploração sustentado pela vulnerabilidade econômica. Quando quase metade dos apostadores vê nas bets uma saída para fechar o orçamento doméstico, o problema deixa de ser individual e passa a ser coletivo, político e urgente.
Os dados revelam um cenário preocupante: 5% dos entrevistados afirmam já ter apostado com a intenção direta de gerar renda para pagar despesas, enquanto 1% admite ter utilizado dinheiro originalmente destinado ao pagamento de contas mensais em jogos de azar. Em um país ainda marcado pela desigualdade, pelo endividamento das famílias e pela instabilidade da renda, isso significa comida, aluguel, remédio e luz sendo disputados com algoritmos programados para lucrar sobre a esperança alheia.
A lógica das bets se alimenta exatamente desse cenário. O trabalhador precarizado, a juventude sem perspectiva e as famílias pressionadas pelo custo de vida tornam-se alvo preferencial de uma indústria que vende a fantasia do ganho rápido enquanto concentra lucros bilionários. A velha exploração apenas mudou de plataforma.
Os números mostram ainda que o hábito de apostar é mais frequente entre homens e entre jovens com ensino médio completo e renda de até dois salários mínimos. Não por acaso. São setores atravessados por dificuldades materiais e bombardeados diariamente por campanhas que associam apostas a sucesso, liberdade financeira e ascensão social. Trata-se de uma comunicação pensada para seduzir justamente quem mais precisa de proteção.
Por isso, o debate sobre as bets não pode se resumir à arrecadação tributária ou à formalização do setor. É preciso discutir responsabilidade pública. O Estado tem o dever de regular mercados que produzem danos sociais, especialmente quando esse dano recai sobre os mais pobres.
O presidente Lula acertou ao elevar o alerta sobre esse tema e demonstrar preocupação com o endividamento das famílias brasileiras. Ao defender medidas mais duras contra o avanço desenfreado das bets, recoloca no centro do debate uma questão essencial: a política não pode assistir passivamente à transformação da angústia popular em oportunidade de negócio.
O primeiro passo é evidente: restringir severamente — e, em muitos casos, proibir — a propaganda de apostas. Não faz sentido permitir que celulares de adolescentes, transmissões esportivas e redes sociais sejam ocupados por anúncios que normalizam o risco financeiro como caminho de prosperidade. O Brasil já aprendeu, em outras áreas, que publicidade sem limite pode custar vidas e destruir famílias.
Mas a resposta precisa ir além. É necessário fortalecer políticas de proteção ao consumidor, ampliar mecanismos de prevenção ao vício, criar barreiras tecnológicas para conter práticas abusivas e garantir fiscalização rigorosa sobre plataformas e influenciadores que lucram com a indução ao jogo.
Por isso, o presidente Lula tem razão ao cobrar um basta. O Brasil precisa escolher entre proteger seu povo ou assistir passivamente à transformação da angústia popular em modelo de negócio. Porque quando a esperança vira mercadoria, quem sempre paga a conta é o povo brasileiro.
Gleide Andrade é secretária nacional de Finanças e Planejamento do Partido dos Trabalhadores (PT).
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

