África & Diáspora

A coluna tem como objetivo ser um espaço de diálogo sobre temas históricos e contemporâneos do continente africano e da diáspora africana. A diáspora africana refere-se à dispersão de populações do continente africano pelo mundo, um movimento impulsionado principalmente pelo tráfico transatlântico de escravizados entre os séculos XVI e XIX. Esse deslocamento forçado de cerca de 12 milhões de pessoas moldou profundamente a cultura, a economia e a sociedade nas Américas, com o Brasil recebendo a maior parte desse contingente. Hoje, os povos da diáspora são vistos como uma extensão do próprio continente africano – uma “África ampliada” unida pela memória, pela luta antirracista e pela afirmação da identidade negra. O diálogo entre a África e suas diásporas continua vivo, servindo como um pilar para a educação, a história e a construção de sociedades mais justas e conscientes de suas raízes.

Sobre a autora: Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”

República Democrática do Congo: independência e transformações sociais

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A colunista Elisabete Vitorino entrevista o pesquisador Heritier Kabamba, que recebeu menção honrosa da UFPB
A colunista Elisabete Vitorino entrevista o pesquisador Heritier Kabamba, que recebeu menção honrosa da UFPB | Crédito: Arquivo pessoal/Heritier Kabamba

A independência do Congo gerou inúmeras transformações no país, mas também trouxe desafios políticos e econômicos

Por Elisabete Vitorino*

A entrevista apresentada aqui com o pesquisador congolês Heritier Kabamba tem como objetivo abordar informações sobre o processo de independência da República Democrática do Congo (RDC), também conhecida como Zaire. O país fica na África Central e é banhado pelo rio Congo, com estimativa populacional de cerca de 109 milhões de habitantes, dados de 2024, o que faz do país o quarto mais populoso do continente africano.

O país foi colonizado pela Bélgica e permaneceu como colônia até 1960, quando se tornou independente. Conhecido como Zaire, era território particular do rei da Bélgica, Leopoldo II, um monarca responsável pela exploração brutal, por atrocidades como a mutilação e o assassinato de 10 milhões de congoleses.

O pós-Segunda Guerra influenciou República do Congo a lançar um manifesto de ruptura radical baseada no federalismo no ano de 1956 em resposta ao então movimento dominante integracionista com a metrópole belga, vinculado ao manifesto La Conscience Africaine. Foi nesse cenário que o Movimento Nacional Congolês (MNC), organização de frente única nacionalista, teve início em 1958 sob liderança inicial de Patrice Lumumba, Cyrille Adoula e Joseph Iléo. Sua ação se baseava em mobilização sindical, motins e protestos (o maior deles em dezembro de 1958-janeiro de 1959) pela independência nacional, exercendo forte pressão sobre a Bélgica.

Em 30 de junho de 1960, o Congo conquistou a independência com o nome de República do Congo, assumindo os representantes eleitos em maio daquele ano. Também ficou conhecido naquele período como Congo-Léopoldville, para se diferenciar do antigo Congo Francês. As eleições parlamentares de maio de 1960 foram definidoras do futuro governo do novo país independente, o MNC liderado por Lumumba recebeu a maioria dos votos, mas foi obrigado a formar uma coalizão governista que incluiu o Partido da Solidariedade Africana, o Centro de Reagrupamento Africano e a Abako, além de grupamentos políticos menores. Lumumba foi confirmado como primeiro-ministro.

E é sobre o processo de independência que entrevistei Heritier Kabamba. Ele recebeu este ano a Menção Honrosa da Agência de Cooperação Internacional da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em reconhecimento à relevante contribuição acadêmica e cultural para o fortalecimento das relações interculturais entre África e a UFPB.

Elisabete Vitorino – Heritier, agradeço sua participação na coluna. Eu vou fazer algumas perguntas que irão compor a próxima publicação sobre a independência da República Democrática do Congo. Gostaria que você se apresentasse (nome, profissão e nacionalidade).

Heritier Kabamba – Meu nome é Heritier Kabamba Subissay, sou nacional da República Democrática do Congo e sou pesquisador na área de Ciência e Engenharia de Materiais e Engenharia Química. Atualmente, sou doutorando em Engenharia de Materiais na Universidade Federal da Paraíba.

Como você interpreta o processo de independência da República Democrática do Congo?

Para mim, a independência da República Democrática do Congo, conquistada em 30 de junho de 1960, representa um dos momentos mais importantes da história do país e do continente africano. Entretanto, é importante compreender que a independência política não significou automaticamente a conquista de uma autonomia plena. O Congo entrou no período pós-independência carregando profundas marcas do colonialismo, especialmente na estrutura econômica, política e social. A exploração dos recursos naturais e da população durante o período colonial deixou consequências que continuaram influenciando o país depois de 1960. Por isso, vejo a independência como uma conquista histórica fundamental, mas também como o início de um longo processo de construção de soberania. A verdadeira independência precisa envolver não apenas a liberdade política, mas também a capacidade de um país controlar seus recursos, desenvolver sua economia, fortalecer suas instituições e produzir conhecimento e tecnologia para atender às necessidades da própria população.

Quais foram as transformações ocorridas no país depois da independência?

Depois da independência, a República Democrática do Congo passou por profundas transformações, mas também enfrentou períodos muito difíceis de instabilidade política, conflitos e problemas econômicos. O país passou por diferentes regimes políticos e por mudanças importantes em sua organização institucional. Ao mesmo tempo, conflitos internos e interferências externas afetaram significativamente o desenvolvimento nacional. Apesar dessas dificuldades, também houve avanços importantes na formação de profissionais, na expansão das universidades e na construção de uma identidade nacional pós-colonial. Um dos grandes desafios que permanecem é transformar a enorme riqueza natural do Congo em desenvolvimento efetivamente distribuído para a população congolesa. O país possui recursos minerais estratégicos para a economia mundial, mas isso não pode significar apenas a exportação de matérias-primas. É necessário avançar para uma economia capaz de agregar valor aos seus próprios recursos.

Como você vê a sociedade congolesa atualmente?

Vejo a sociedade congolesa como uma sociedade jovem, resiliente, criativa e com enorme potencial. Mesmo diante de dificuldades históricas e sociais, os congoleses continuam demonstrando capacidade de adaptação, empreendedorismo, produção cultural e busca por conhecimento. Também considero importante destacar o papel da juventude congolesa. Existe uma geração que deseja participar mais ativamente da construção do futuro do país, inclusive por meio da ciência, da tecnologia, da educação e do empreendedorismo. Ao mesmo tempo, ainda existem desafios importantes relacionados à desigualdade, ao acesso à educação de qualidade, às oportunidades profissionais e à estabilidade necessária para que o potencial humano do país possa ser plenamente desenvolvido. Acredito que a ciência pode ser uma das principais ferramentas para aproximar países e transformar realidades.

Bem, você é um pesquisador em uma área bastante importante para o desenvolvimento tecnológico, quais contribuições que a sua pesquisa na área de Engenharia de Materiais pode dar ao seu país e ao Brasil?

Minha pesquisa está relacionada à ciência, engenharia de materiais e engenharia química, uma área estratégica porque os materiais estão presentes praticamente em todos os setores tecnológicos: energia, meio ambiente, indústria, eletrônica, catalisadores e diversas outras aplicações. Minha contribuição para a República Democrática do Congo pode ocorrer principalmente por meio da transferência de conhecimento, formação de pesquisadores e desenvolvimento de tecnologias adaptadas aos recursos e às necessidades do país. O Congo possui uma enorme disponibilidade de recursos naturais e minerais.

Entretanto, o grande desafio é fazer com que esses recursos deixem de ser apenas matérias-primas exportadas e passem a participar de cadeias produtivas que gerem conhecimento, tecnologia, empregos qualificados e maior valor agregado dentro do próprio país. Para o Brasil, minha contribuição também está relacionada à construção de pontes científicas entre África e América Latina. A presença de pesquisadores africanos nas universidades brasileiras pode favorecer novas colaborações, intercâmbios acadêmicos e projetos conjuntos. Eu acredito que a relação entre o Congo e o Brasil não deve se limitar às questões culturais ou históricas. Podemos construir uma cooperação científica e tecnológica muito mais forte. Como pesquisador congolês formado cientificamente no Brasil, vejo minha trajetória como uma oportunidade de conectar dois espaços: a África e o Brasil. Meu objetivo é que o conhecimento produzido aqui também possa contribuir futuramente para o desenvolvimento do meu país de origem.

Elisabete Vitorino – Mais uma vez, obrigada! Após a conquista da sua independência em 30 de junho de 1960, a República Democrática do Congo, antes propriedade pessoal do rei Leopoldo II e depois colônia oficial, viu crescer a pressão popular e revoltas nacionalistas no final dos anos 1950. Sob a liderança de Patrice Lumumba, o Movimento Nacional Congolês impulsionou a luta por um país soberano e unido. Após as eleições, Joseph Kasa-Vubu assumiu como presidente e Patrice Lumumba como primeiro-ministro da recém-criada República do Congo (posteriormente batizada de Democrática).

A independência do Congo gerou inúmeras transformações no país, mas também trouxe desafios políticos e econômicos. O país tem um rico subsolo congolês de minerais como o ouro, diamantes, cobre, coltan e o cobalto, fundamentais para a fabricação de celulares, computadores e baterias de carros elétricos. Essa riqueza atrai interesses de potências globais.

Apesar das dificuldades a RDC apresenta uma joia na biodiversidade, pois o país se localiza no coração da Bacia do Congo, com florestas tropicais equatoriais que cobrem 66% do seu território, cultura educacional muito rica e uma arte congolesa abrange formas de arte visual, música, dança e literatura. As pessoas estão profundamente ligadas as tradições, crenças e valores sociais do país, incorporando também influências modernas.

*Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”.

**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato

Editado por: Carolina Ferreira

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