“E o amor é tão longe… e a dor é tão perto…”
Há vozes que atravessam a vida como trilha sonora. A voz de Maria Bethânia é, para mim, mais do que música: é companhia que atravessa a vida, em suas alegrias e desesperanças. Entre tantas canções que a filha de Dona Canô interpretou, há uma que nunca foi sucesso comercial, nunca embalou trilha sonora de novela e sequer foi feita para conforto ou romance. “Balada da Gisberta”, composta por Pedro Abrunhosa e lançada em 2010, é uma elegia e também um espelho da nossa própria sociedade.
A canção reconta a vida de Gisberta Salce Júnior, mulher trans nascida na cidade de São Paulo, em 1960. Aos dezoito anos, atravessou o Atlântico. Migrou, como tantos que buscam sobreviver ao próprio país. Em Portugal, dançou em palcos, viveu da noite, reinventou-se sob luzes artificiais. Tornou-se conhecida, ironicamente, dublando Marilyn Monroe em “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Sobreviveu como pôde. Mais tarde, com o avanço do HIV, vieram a doença, a precariedade, a erosão lenta das possibilidades. O palco tornou-se rua. A rua tornou-se abandono. O abandono tornou-se abrigo improvisado em um edifício vazio da cidade do Porto.
Há prédios que são metáforas. Aquele não estava apenas desocupado; estava socialmente destinado a acolher o que a cidade não queria ver. Ali, naquele sítio — como dizem os portugueses — foi encontrada por três adolescentes: Fernando, Ivo e Flávio. Primeiro, curiosidade. Depois, convivência. Em seguida, somaram-se outros onze, com idades entre 12 e 16 anos. A partir daí, violência. Durante dias, Gisberta sofreu agressões, tortura, abusos sexuais. Há vinte anos, em 22 de fevereiro de 2006, acreditando que estivesse morta, os adolescentes jogaram seu corpo em um poço de quinze metros. A autópsia revelou: ela ainda estava viva. Morreu por afogamento.
Não foi apenas um crime. Foi a exposição brutal de uma vida considerada descartável. O poço não é apenas profundidade física. É silêncio. É aquilo que absorve o escândalo até transformá-lo em esquecimento.
Diáspora Ontológica: existir à beira do poço
A vida de Gisberta foi atravessada por deslocamentos: geográfico, social, identitário. Mas há um deslocamento ainda mais radical: o de nunca caber plenamente. A diáspora não é apenas migratória; é ontológica. É a experiência de existir nas bordas do reconhecimento. Trata-se de migração geográfica, mas também da interseccionalidade entre identidade, fronteiras e existência.
A canção que Bethânia interpreta constrói-se a partir da experiência da não pertença. “Perdi-me do nome… Hoje podes chamar-me de tua.” É a negação do reconhecimento, do próprio rosto. Um grito que revela a subserviência de quem exauriu as forças em batalhas travadas apenas pelo direito de existir. Indica, assim, o declínio da própria personagem, na desvalorização do ser humano. “Dancei em palácios… Hoje danço na rua.” É a queda da promessa à precariedade, da potência ao fracasso. E, por fim, quando se volta para o nada, resta apenas a intimidade com a própria dor, inscrita em um corpo humilhado, violado, machucado. “E o amor é tão longe… O amor é tão longe… E a dor é tão perto.”
Vinte anos depois, a Balada de Gisberta não terminou.
Mulheres continuam sendo assassinadas por serem mulheres.
Somente o Rio Grande do Sul já registra ao menos 18 feminicídios em 2026. No sábado, 21 de fevereiro, duas décadas depois de Gisberta, três mulheres foram mortas. Roseli Vanda Pires Albuquerque, de 47 anos, foi assassinada em Nova Prata (RS). Glai Maria da Costa Conceição, também de 47 anos, foi assassinada em Mostardas (RS), ambas pelos ex-companheiros. No mesmo dia, em Ivaí, nos Campos Gerais do Paraná, Nadia Gavanski, de 82 anos, religiosa há 55 anos, foi encontrada morta no convento onde vivia. O suspeito não a conhecia. A violência escolheu a fragilidade.
Meninas. Idosas. Casadas. Solteiras. Freiras. Putas. Mulheres.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
Diante dessas mulheres, que encontram seus destinos nos poços da vida, as estruturas de poder respondem com notas protocolares e discursos episódicos. Fala-se em proteção, mas investe-se pouco em prevenção estrutural. Fala-se em direitos, mas decisões judiciais continuam a relativizar a violência contra a mulher. Recentemente, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais absolveu um homem, de 35 anos, que manteve relações sexuais com uma menina de 12 anos, condenado em primeira instância por estupro de vulnerável.
Decisões assim ensinam. Produzem mensagem pública e reforçam a ideia de que a violência contra mulheres pode ser negociável e absolvida na camaradagem do clube dos machos. A apropriação do corpo feminino como posse, como território, como extensão do desejo alheio, não é acidente. É herança histórica. É pedagogia silenciosa que atravessa gerações.
A menina, a adulta, a idosa. A que ama, a que vende o corpo, a que consagra a vida à fé. Todas conhecem, em graus distintos, a precariedade do pertencimento. Há sempre um poço à espera daqueles que o mundo considera descartáveis. Às vezes ele é físico. Às vezes é jurídico. Às vezes é apenas a indiferença coletiva que transforma violência em estatística.
Não se combate o feminicídio apenas com luto e retórica. Combate-se alterando as condições que o tornam possível: educação consistente, políticas permanentes, compromisso institucional que vá além da indignação episódica. Nunca se falou tanto sobre direitos das mulheres. Nunca se produziu tanta retórica de igualdade. Ainda assim, o básico — existir sem medo — não está garantido.
Não é seguro ser mulher.
Não é seguro para meninas, idosas, solteiras ou casadas.
Não é seguro para freiras ou putas.
Enquanto o amor, entendido como reconhecimento, proteção e justiça, continuar distante, a dor continuará por perto. A voz de Bethânia sustenta a nota até o limite do silêncio. O país, porém, parece incapaz de sustentar o compromisso de proteger suas mulheres.
A balada não terminou.
Ela apenas mudou de nome.
Hoje é Balada de Roseli.
Balada de Glai.
Balada de Nádia.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

