André Lucas Fernandes

Diretor e fundador do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec). Graduado e mestre em Direito pela UFPE. Doutorando pela Unicap, na linha de tecnologia e direito, com foco em inteligência artificial e conceitos jurídicos. Professor na pós-graduação da UFPE, Cesar School e UPE. Presidente da Comissão de Direito da Tecnologia e da Informação da OAB-Pernambuco.

É preciso roubar ao futuro a palavra ‘tecno-otimismo’

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Um "tecno-otimismo" digno desse nome não pode ser fetiche corporativo
Um “tecno-otimismo” digno desse nome não pode ser fetiche corporativo | Crédito: Pexels

Reapropriar essa palavra é, no fundo, devolvê-la ao campo da humanidade. É retirar de grandes corporações a prerrogativa de nomear o futuro.

Eu queria falar de uma expressão com poder de praga no campo tecnológico, essa praga bem nordestina – dita por quem detém poder, pega. Eu quero falar do “tecno-otimismo”. Neste final de ano, é hora de desejar e pôr bastante intenção no desejo, (re)configurando-o, (in)conformando-o e para isso quero me insurgir e roubar uma palavra ao futuro. 

Veja, há palavras que se desgastam com o tempo. Mas há palavras que são mesmo capturadas… e com a captura, vai junto o nosso futuro e as possibilidades de sermos algo. E este é um cenário distópico. Tal fenômeno não se trata de erosão semântica espontânea, mas de um processo político de apropriação vocabular.

Como esquecer de Orwell e o controle da novilíngua implementado em Oceânia, que descamba para uma supressão contínua das palavras dicionarizadas?  

Certos termos, forjados no interior de disputas públicas e expectativas coletivas, são progressivamente reconfigurados por agentes que dispõem de poder material – a praga pega porque é enunciada a partir de atores com poder material suficiente para estabilizar sentidos, neutralizar conflitos e apresentar como evidência aquilo que é, em verdade, uma escolha. 

“Tecno-otimismo” é caso paradigma. O termo, que poderia designar uma aposta social tecnosituada, tornou-se uma peça de retórica promocional: um significante polido e funcional a apontar para a legitimação de decisões técnicas tomadas a portas fechadas e apresentadas como inevitáveis. 

Na boca da elite tecnológica global (e brasileira, e nordestina, e recifense) o tecno-otimismo opera menos como horizonte de possibilidade e mais como um anestésico. Serve para justificar o curso das coisas, inexorável, não para interrogá-lo. 

O credo que sustenta essa visão é simples e eficaz: concentrar poder, extrair dados, reorganizar vidas e práticas sociais segundo métricas proprietárias, tudo apresentado sob a estética asséptica da inovação, acompanhado por discursos sobre liberdade, eficiência e neutralidade. Trata-se de um evangelho tecnocrático que confunde meios com fins e apresenta escolhas políticas como decorrências naturais de uma suposta “racionalidade técnica”.

Quando eu recorro a essa expressão, faço-o quase sempre em chave irônica, até mesmo adversarial, pois quero marcar a infantilização embutida na crença de que a tecnologia, enquanto tal, seria capaz de redimir os próprios danos que ajudou a produzir. Tanto o faço que sempre me apresento como tecnopessimista, não realista de Ariano, pessimista mesmo e digo, me socorrendo à frase popularizada por Gramsci que desse pessimismo não haverá abalo, mas combustível ao otimismo da vontade.

O pano de fundo desse debate é conhecido, mas raramente enfrentado com a devida franqueza. Nas últimas duas décadas, a orientação dominante do desenvolvimento tecnológico esteve nas mãos de um conjunto bastante restrito de atores que controlam infraestrutura, pesquisa, capacidade computacional e fluxos de capital (muito capital!). 

Esse controle material foi acompanhado de uma pretensão sobre a nossa forma de conhecer o mundo: a de que suas métricas descreveriam o real tal como ele é. Dados e gráficos num belo “data visualization” passaram a ocupar o lugar da realidade, modelos estatísticos passaram a ser tratados como diagnósticos sociais e algoritmos como destinos matematicamente manifestos.

A crença explícita é a de que sistemas de inteligência artificial operariam como dispositivos capazes de capturar o real sem mediação, sem escolha, sem historicidade. Ora leitor e leitora, o que se oculta nesse discurso é elementar: todo modelo é um recorte, toda estatística é uma decisão, toda representação é uma versão. 

O problema não reside apenas no erro empírico eventual, mas no efeito sistêmico do erro quando ele é projetado sobre dimensões sensíveis da vida social – privacidade, autonomia, justiça, democracia, saúde, sexualidade, silêncio etc – e quando reduz, de modo cumulativo, nossa própria capacidade de imaginar alternativas e de desejar! 

Nada disso implica negar que a tecnologia produza ganhos concretos. Eles existem e seria desonesto ignorar. Ampliação de acesso, redução de distâncias, facilitação de cuidados, novas formas de conexão entre territórios. Mas cada ganho carrega consigo uma zona sombria: externalidades ambientais sistematicamente invisibilizadas, extração predatória de recursos, consumo energético crescente, regimes de vigilância difusa, predação do campo cultural, consolidação de monopólios cuja opacidade é proporcional ao seu poder. 

Se o tempo que se abre, efemérico, exige algum gesto de coragem intelectual e um manifesto ao cosmos, talvez seja o de reapropriar essa palavra. Não para adotá-la ingenuamente, mas para tensioná-la até que revele o que foi suprimido em sua trajetória recente. 

Um “tecno-otimismo” digno desse nome não pode ser fetiche corporativo, precisa ser compreendido como aposta (no) social, situada, coletiva. Não o otimismo dos palcos patrocinados, mas aquele que emerge dos territórios, das práticas ordinárias, dos saberes não certificados que compreendem a tecnologia como meio inscrito em formas de vida e do viver. 

Falar em tecno-otimismo, nesse contexto, exige recolocar a tecnologia em seu devido lugar conceitual, aquele ordinário da antiga “inventio”, quando tudo era o humano diante de um mundo em profusão e sua capacidade de ser-no-mundo. 

Quero lembrar da tecnologia como continuidade – e não como sucessão de rupturas “move fast and break things”. Daquela dos saberes produzidos por povos e comunidades, daquela que passou pela memória guardiã feminina de nossas avós, num gesto de cuidado que não se funda na expropriação sistemática de água, terra, trabalho, tempo e dignidade.

O tecno-otimismo que me interessa não se deixa condensar em slogans. Ele opera em outra gramática: a do comum, da cooperação conflitiva, das tecnologias apropriadas, da invenção que emerge de baixo para cima. É um otimismo que sabe que tecnologia não é neutra e que, justamente por isso, pode (deve!) ser disputada, contestada, reorientada, redesenhada. Que reconhece que inovação não é privilégio de quem acumula capital, mas cristalização desse impulso humano, verdadeira pulsão de vida. 

Desse modo, tecno-otimismo não pode significar a crença automática de que todo avanço técnico corresponde a um avanço civilizatório. Precisa ser entendido como aposta deliberada na capacidade coletiva de redirecionar máquinas, códigos, redes e plataformas. Em termos talvez simples, mas politicamente exigentes: tecnologias que cuidem, que fortaleçam vínculos, que distribuam mais do que concentram. Tecnologias que respeitem limites ecológicos e escutem os territórios em vez de sobrepor a eles modelagens globais extremamente empobrecidas.

Enquanto profetas corporativos insistem em encenar o papel de demiurgos, reivindicando para si o monopólio da antecipação do futuro, o tecno-otimismo que proponho opera no registro oposto. Ele é desconfiado, crítico, comunitário. Parte da constatação de que tecnologia não substitui política, de que nenhum algoritmo pode produzir justiça em uma sociedade estruturalmente injusta e de que nenhum modelo estatístico gera igualdade quando nasce de assimetrias profundas de poder.

Reapropriar essa palavra é, no fundo, devolvê-la ao campo da humanidade. É retirar de grandes corporações a prerrogativa de nomear o futuro. É abrir espaço para que territórios pensem suas próprias infraestruturas, para que comunidades definam seus próprios critérios de inovação, para que a sociedade estabeleça limites éticos e ecológicos ao que se apresenta como inevitável.

O tecno-otimismo que defendo para 2026 não celebra a técnica em si, que a tudo transforma em recurso, mas a capacidade coletiva de reinscrevê-la em projetos de vida. É uma confiança de que podemos produzir tecnologias que não devastem, não silenciem, não vigiem, não substituam a complexidade da existência por métricas planas. Tecnologias que não se alimentem do colapso como modelo de negócio.

O que está em jogo, em última instância, é a recuperação do ensaio, da tentativa, da imaginação e da esperança – me perdoe o piegas, mas é preciso recuperar nossa criança que conhece. A máquina é um adulto sem futuro, vaticinado ao fracasso da ilusão objetivista. 

Está feito o meu desejo. Esse é o único tecno-otimismo que merece o nome. O restante é, como quase sempre, retórica publicitária fantasiada de destino.

Editado por: Rostand Tiago

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