Aristóteles Cardona

Aristóteles Cardona é médico de família no sertão pernambucano e professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco

É cedo para falar em uma segunda onda?

25 de março são paulo
Registro da rua 25 de Março, em São Paulo (SP), no primeiro dia de abertura do comércio de rua após mais de dois meses de portas fechadas | Crédito: Nelson Almeida/AFP

Estamos longe ainda de falar da pandemia como algo que ficou para trás

Estamos distantes ainda de poder falar em fim da pandemia de Covid-19 no Brasil e no mundo. Infelizmente não era disso que queria tratar neste momento de retomada da publicação semanal do nosso jornal Brasil de Fato, mas é preciso lidar com a realidade dos fatos. E estes, os fatos, nos reforçam o que afirmei no início: estamos longe ainda de falar da pandemia como algo que ficou para trás.

A Covid-19 é uma doença sobre a qual seguimos tentando conhecer melhor. Há muito do seus mecanismos de ação, nos indivíduos e nas populações, que precisa ser melhor esclarecido. Entretanto, diferente do início do ano, já acumulamos certos conhecimentos que devem nos permitir agir de forma antecipada no intuito de evitar mortes e sofrimento desnecessários.

Antes de chegar ao Brasil, acompanhamos todo o rebuliço que o novo Coronavírus provocou na Europa. Apesar do negacionismo de Bolsonaro e de boa parte de seu governo, este conhecimento sobre os estragos provocados pela doença nas bandas do velho mundo permitiu que os estados e municípios pudessem de alguma forma se preparar para o que vinha. E é exatamente nesta situação que nos encontramos agora novamente. 

Temos acompanhado nas últimas semanas não somente um aumento no número de casos, como também de internamentos e mortes em boa parte da Europa. Neste momento, já são vários os países que anunciam medidas mais duras de isolamento e distanciamento social para conter a chamada segunda onda da pandemia por lá. Já são 14 países, até agora, que anunciaram tais ações. Por lá, a situação é encarada com a seriedade que a vida das pessoas merecem.

No que nos cabe, aqui no país, ainda é cedo para falar em uma segunda onda. Em primeiro lugar, por uma questão um tanto óbvia: sequer saímos da primeira onda. E isso, de fato, torna a nossa situação bem peculiar para conseguir cravar qualquer que seja o cenário das próximas semanas. Porém, numa tentativa de apontar possíveis quadros, diria hoje que voltaremos a sofrer, enquanto país, ainda mais por conta da Covid-19.

É evidente que não se trata de uma mera previsão e devemos seguir acompanhando e analisando os cenários para melhor entender o que vem pela frente. Porém precisamos nos preparar. Não dá para normalizar sequer o patamar das centenas de mortes diárias que ainda enfrentamos. A pandemia ainda não acabou e, provavelmente, ainda teremos que lidar com os seus impactos por um bom tempo. Pela vida dos brasileiros e das brasileiras.

Editado por: Vanessa Gonzaga

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