Agroecologia e Democracia

A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) é um espaço de diálogo e convergência entre movimentos, redes e organizações da sociedade civil brasileira engajadas em iniciativas de promoção da agroecologia, de fortalecimento da produção familiar e de construção de alternativas sustentáveis de sistemas alimentares.

O que você precisa saber do canfo e da manjerioba

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Dona Conceição, mestra da cultura alimentar do município de Fortim (CE) e guardiã dos saberes e sementes tradicionais da sua comunidade, ensina como fazer o café de manjerioba
Dona Conceição, mestra da cultura alimentar do município de Fortim (CE) e guardiã dos saberes e sementes tradicionais da sua comunidade, ensina como fazer o café de manjerioba. | Crédito: Articulação Nacional de Agroecologia (ANA)

Os conhecimentos tradicionais de camponeses, indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais são saberes tecidos ao longo do tempo

Devem ser poucas, muito poucas, as pessoas que sabem o que são e para que servem plantas como o canfo e a manjerioba. O canfo sequer aparece numa busca na Internet pelo termo isolado. Já a manjerioba tem verbete na Wikipedia, mas não chega a mencionar o uso extraordinário que pode ser feito de suas folhas. É um saber que pertence ao conhecimento ancestral que a agroecologia busca valorizar na prática, na formulação de políticas públicas e na realização de eventos como o 13° Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), que ocorreu em outubro, em Juazeiro (BA), e o 5° Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que está por vir em 2027. O que está em jogo nessas e em outras iniciativas de compartilhamento de saberes agroecológicos é o incrível papel que espécies absolutamente desconhecidas da maioria da população – e até de muitos especialistas-, podem ter na alimentação, na preservação da biodiversidade e no modo de vida de inúmeras comunidades pelo país. 

Canfo é o nome usado na Bahia para se referir à fruta conhecida em alguns outros lugares como abricó ou pão-de-cristo (Mammea americana), parente do cambucá. A marisqueira e pescadora baiana, Norma Cristina Ferreira Borges, da Comunidade de São Roque do Paraguaçu, em Maragogipe, no Recôncavo Baiano, alerta para o fato de que a espécie nativa da mata atlântica está em risco de desaparecimento em algumas áreas do litoral brasileiro. “Antigamente, havia canfo por todo o litoral baiano. Era uma fruta muito apreciada para matar a fome e a sede dos pescadores quando chegavam do mar, mas hoje é encontrada quase que exclusivamente em Boipeba”, diz ela, referindo-se à Ilha de Boipeba, no Sul do estado. 

A marisqueira e pescadora Norma Cristina Ferreira Borges, da Comunidade de São Roque do Paraguaçu, em Maragogipe, no Recôncavo Baiano, alerta para o sumiço do canfo. | Crédito: Articulação Nacional de Agroecologia (ANA)

A pescadora faz um apelo pela multiplicação de sementes e o início do plantio da árvore, que antes abundava na mata. “É uma fruta muito saborosa, você come e fica o dia todo com a barriga cheia. Serve de alimento para pescadores, pescadoras, marisqueiras, visitantes e moradores das praias”, ela explica. Para ela, o canfo não deveria desaparecer do nosso meio ambiente, porque além de alimentar as pessoas e os animais, é uma espécie importante para o bioma.

Já a manjerioba (Senna occidentalis) tem diversos nomes: pajamarioba, majerioba, manjerioba, pajomarioba, paieriapa e folha-de-pajé. É uma planta ancestral reconhecida como uma Planta Alimentícia Não Convencional (Panc). Pertencente à família das leguminosas, ela é conhecida também como mandioca-salsa e, originária da América do Sul, é amplamente cultivada em países tropicais e subtropicais graças à sua capacidade de adaptação climática. 

A manjerioba resiste a variações de temperatura que vão de -5℃ a 43℃ e tem propriedades tanto medicinais quanto culinárias. E é aí que entra o papel do conhecimento ancestral, intrinsecamente ligado à preservação da vida, que marca a agroecologia: ele ensina como transformar uma plantinha extremamente resistente, que floresce na nossa caatinga, em medicina popular e receitas tradicionais. 

Dona Conceição, nascida Maria Conceição de Freitas e reconhecida como mestra da cultura alimentar do município de Fortim (CE) e guardiã dos saberes e sementes tradicionais da sua comunidade, ensina como fazer um café de manjerioba. Ela guarda saberes do cultivo e do preparo dessa planta, um conhecimento passado entre as mulheres da família, desde a sua avó. “A gente esbulha a vaginha, tira a sementinha e torra – que a gente não pode guardar crua de um ano para o outro, tem que passar no fogo. Aí, depois que ela tá bem pretinha, a gente bota o açúcar. Depois do açúcar, a gente deixa esfriar um pouquinho, traz para o pilão e faz esse serviço”, mostra ela. Como é o gosto? Quem prova, acha realmente muito parecido com o café. 

Para Roselita Vitor Albuquerque, agricultora do Polo da Borborema e integrante da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), conhecimentos como esse mostram a importância da valorização da agrobiodiversidade e do saber ancestral para o desenvolvimento rural.  “Dizem que o desenvolvimento, o progresso, está nas cidades. Acho que a gente não precisa dessa ideia de progresso. A gente precisa de um progresso com educação popular que também traz raízes. Para preservar, a gente precisa construir um processo de pertencimento, precisa dialogar sobre os saberes que estão nos territórios”, afirma.

Os conhecimentos tradicionais de camponeses,  indígena, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais são saberes tecidos ao longo do tempo, associados às formas de ser, viver e se reproduzir e estão profundamente ligados à biodiversidade. Incluem a leitura das fases da lua e sua relação com a agricultura, o uso medicinal de raízes, folhas e cascas, a preparação de tinturas, os potenciais cosméticos aromáticos, assim como os conhecimentos sobre caça, pesca, confecção de roupas, biojoias, preparo de bebidas utilizadas em práticas e rituais,  reconhecimento das plantas que podem ser consumidas com segurança, entre outros. Envolvem também o uso adequado do fogo como técnica de manejo das roças e de aprimoramento da agricultura.

Transmitidos de geração em geração pela oralidade, esses saberes possibilitam o desenvolvimento de plantas mais resistentes a determinados climas, adaptadas a cada bioma. Essa herança viva revela a riqueza do papel das comunidades, mostrando que são esses conhecimentos que garantem a existência das florestas, a preservação das águas, a diversidade de alimentos e a variedade de espécies animais que hoje conhecemos.

Tudo isso é resultado do manejo cuidadoso feito por povos e comunidades tradicionais em seus territórios. Essa é uma de suas contribuições fundamentais para o equilíbrio ecológico e para a harmonia entre as espécies, incluindo o próprio ser humano como parte desse sistema. 

Jaqueline Andrade, advogada da Terra de Direitos e integrante do GT Biodiversidade da ANA, afirma que é por isso que “defendemos a natureza com gente, e não sem gente”. “Cuidar da biodiversidade, proteger as sementes e salvaguardar os saberes comunitários contra a biopirataria é essencial, pois são esses conhecimentos tradicionais que sustentam os ecossistemas, regulam o clima e preservam o futuro do planeta que habitamos”, diz Andrade.

A advogada lembra também, de forma poética, que sementes multiplicadas ressuscitam a utopia. “Hoje, as sementes somos eu e você, prontos, esperando para cair no colo da Mãe Terra. Ouça, ela está suplicando por isso”, conclui. 

Editado por: Luís Indriunas

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