Bioética em Pauta

A coluna Bioética em Pauta é mantida pela Sociedade Brasileira de Bioética em Minas Gerais. E tem como objetivo compartilhar com os desafiadores debates que envolvem as éticas da vida em uma sociedade em rápida transformação e de enorme diversidade.

Desinformação em saúde: quem é o responsável?

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As plataformas digitais amplificam o sensacionalismo | Crédito: Pedro França/Agência Senado

A responsabilidade de reconstruir a confiança é de quem está diante do paciente

Por Maria Isabel Villalobos 

Imagine um paciente que está com dor de cabeça que não passa, ou qualquer outro sintoma que o está preocupando. Em vez de procurar o médico, ele faz o que a maioria das pessoas atualmente faz: pega o celular e pesquisa. Em poucos minutos, ele encontra dezenas de vídeos, posts e “especialistas” defendendo tratamentos milagrosos, curas naturais e teorias que contradizem tudo o que um profissional o aconselharia. 

Agora, imagine que o paciente foi ao profissional de saúde, que receitou um tratamento adequado, baseado nas evidências científicas atuais. Mesmo assim, esse paciente decide buscar na internet sobre a melhor opção para o seu sintoma. Diante de tanta informação (ou melhor dizendo, desinformação), ele precisa decidir sobre a própria saúde. Mas como decidir quando não é possível distinguir o que é verdade e o que é mentira?

Esse é o dilema vivido diariamente por milhões de brasileiros. 

Cada vez mais, nos deparamos com desinformação na internet e principalmente, nas redes sociais, seja sobre vacinação, terapias milagrosas ou outros temas de saúde. Dados recentes sugerem que o Brasil se tornou o epicentro latino-americano do movimento antivacina, algo difícil de aceitar para um país que, até pouco tempo atrás, era referência mundial em vacinação. 

 Entre a mentira e o dano, o profissional de saúde é a última linha de defesa

Teria isso alguma relação com o fato de o Brasil estar entre os países com o maior número de pessoas conectadas, que dedicam grande parte do seu tempo online e no engajamento nas redes sociais?

Estudos mostram que o uso excessivo de internet e de telas está associado ao aumento de transtornos mentais, como ansiedade e depressão. Mas há um agravante ainda mais silencioso: quando o excesso não é apenas de telas, mas de conteúdos inverídicos, quem carrega o peso da decisão é o paciente, muitas vezes sozinho, confuso e sem ferramentas para avaliar o que lê. Ao analisarmos essa situação com um olhar bioético, uma pergunta importante se impõe: 

Se a mentira adoece, quem é o responsável?

Se o paciente possui autonomia para decidir sobre o seu tratamento, como o profissional atua nesse processo de decisão frente a disseminação de informações falsas sobre saúde? 

É importante destacar que esse princípio exige que o paciente decida com base em informações verídicas e compreensíveis. Mas o que acontece quando esse “consentimento” é construído sobre informações falsas (as tão conhecidas fake news)? Deixa de ser consentimento esclarecido e vira manipulação. Logo, respeitar a recusa de quem foi enganado é respeitar o paciente ou respeitar o engano?

Os profissionais de saúde vivem, na atualidade, uma grande tensão entre os pilares da bioética. No caso da beneficência e da não maleficência, podemos discutir a seguinte situação: quando o paciente recusa um planejamento com base em uma fake news, e profissional sabe que o tratamento recusado faria bem ao paciente e que a recusa pode causar dano (como é o caso da vacinação, que inclusive pode prejudicar terceiros). 

Como esse profissional faz para educar, e não “convencer”, esse paciente? E a justiça? Quem é mais atingido com a desinformação? Estudos mostram que pessoas com menor letramento digital, pacientes com doenças crônicas e idosos tendem a ser mais vulneráveis em situações como essa.

São muitas as camadas dessa discussão, e não será aqui que terminaremos por definido a melhor forma de resolver essa situação. Porém, é importante lembrar que o profissional de saúde tem o dever ético de falar a verdade e de não propagar desinformação, seja dentro do consultório, seja nas redes sociais. Ainda assim, vemos casos reais de profissionais suspensos por postagens antivacina ou até mesmo cassados por disseminação de desinformações. 

As plataformas digitais, por sua vez, amplificam o sensacionalismo: uma postagem absurda é compartilhada, viraliza em instantes e o algoritmo segue distribuindo-a para mais pessoas. Será que a sociedade é responsável pelo engajamento dessas informações ou a responsabilidade é inteiramente das redes sociais?

As instituições que deveriam esclarecer os boatos, como os conselhos, sociedades e órgãos públicos, muitas vezes não estão preparadas para uma comunicação clara e eficaz. E o paciente? Até onde vai sua responsabilidade individual?

Acolhimento

Diante desses questionamentos, acredito que o caminho para os profissionais de saúde não seja de confronto com o paciente, mas de acolhimento. É preciso explicar riscos e benefícios com clareza, usando exemplos acessíveis à realidade e à vivência de cada um. 

O termo de consentimento, conforme prevê o recém-publicado Estatuto do Direito dos Pacientes (Lei no 14.378/2026) só deve ser assinado após o paciente ter sido informado, de forma clara, acessível e detalhada, sobre todos os aspectos relevantes acerca de seu diagnóstico, prognóstico, tratamento e cuidados em saúde.  Tudo deve ser bem documentado, inclusive a recusa, como prevê o termo de recusa terapêutica, reconhecido pelo Superior Tribunal Federal (Temas 952 e 1069), que garante ao paciente capaz o direito de recusar o tratamento, desde que devidamente esclarecido. 

O ponto chave, porém, é diferenciar a recusa informada da recusa manipulada: a primeira deve ser respeitada; a segunda, desmontada pelo diálogo.

A autonomia não é o direito de ser enganado, e respeitar uma decisão construída sobre mentiras é respeitar o engano, não a pessoa. O papel do profissional não é vencer o paciente, mas devolver-lhe a capacidade de decidir com a verdade. Se a responsabilidade pela desinformação é compartilhada por plataformas, algoritmos e instituições, a responsabilidade de reconstruir a confiança é, em grande medida, de quem está diante do paciente. Entre a mentira e o dano, o profissional de saúde é a última linha de defesa, não a última a agir, mas a que pode impedir que o pior aconteça.

Maria Isabel Villalobos é Professora Assistente I (PUC Minas), cirurgiã-dentista (PUC Minas), doutoranda e mestre em Odontologia (PUC Minas), especialista em Odontologia Legal (FORP/USP), integra a Diretoria Executiva Nacional da Associação Brasileira de Ética e Odontologia Legal (ABOL).

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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

Editado por: Elis Almeida

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