Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Eleição sem santinho

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Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) | Crédito: Ricardo Stuckert/Jefferson Rudy/Agência Senado

O problema não é tanto o crescimento de Flávio e sim o encolhimento das intenções de voto em Lula, arrastado pela piora na avaliação do governo.

Olá, por caminhos tortuosos, e como a direita queria, a corrupção virou o tema central da campanha eleitoral.

.Fla-Flu. Com uma eleição morna, os dois principais protagonistas, Lula e Flávio Bolsonaro, tornaram-se praticamente coadjuvantes num cenário em que a fratura interna do STF tem mais influência sobre as eleições do que os programas de governo dos candidatos. Foram três decisões tomadas pelo STF em 36 horas, envolvendo André Mendonça, Alexandre de Moraes e Flávio Dino, numa queda de braços resolvida apenas temporariamente por Edson Fachin, que entrou no jogo depois de uma semana dormindo no banco. Apesar de comemorada, a atuação do presidente do STF ainda não mostrou a que veio. Por ter um perfil moderado, avesso a riscos e com um histórico de posicionamentos ambíguos, Fachin parece o personagem ideal para esfriar os ânimos, mas não para levar adiante as reformas que o STF precisa para recuperar seu papel institucional. Na próxima terça (15/9), quando o plenário do Supremo iniciar a análise da validade do relatório da PF a respeito de Alexandre de Moraes, saberemos se a trégua será ou não duradoura. A única certeza até aqui é que o STF se tornou o principal tema da campanha eleitoral. As manifestações do 7 de setembro do bolsonarismo, por exemplo, viraram atos em apoio a Mendonça e ataques a Moraes, em que a presença de Flávio Bolsonaro era só um detalhe. Até o aventureiro Augusto Cury, desempenhando melhor o papel de Padre Kelmon, resolveu surfar na onda bolsonarista pró-Mendonça. É verdade que a campanha de Flávio teme que a reação recaia sobre si e seus aliados, especialmente com a nova ofensiva da PF no caso Dark Horse no inquérito comandado por Flávio Dino, abrindo a caixa de alguns dos milhares de escândalos em que a família está envolvida. Mas, até lá, a estratégia bolsonarista é capturar os votos dos indignados com a situação política e com a lambança no Supremo, bater na tecla de que avisaram que o STF estava fora de controle e, de quebra, tentar colar Jair Bolsonaro como vítima da tirania de Alexandre de Moraes. E, se mesmo assim Flávio não conseguir se eleger, é provável que, no Senado, a direita e o bolsonarismo se fortaleçam, renovando o pesadelo de ter o pior Congresso da história do Brasil, até agora.

.Vai dar PT? Sem possibilidade de fechar a Caixa de Pandora aberta pelo STF, a estratégia petista é continuar batendo em Flávio com o episódio Dark Horse, denunciar que a ação de Mendonça é seletiva e fortalecer a liderança de Edson Fachin no Supremo. Ao mesmo tempo, Lula defende a quebra de sigilo de todos os envolvidos no caso Master, num sinal de que não tem o rabo preso como seu adversário e de que não pretende blindar nenhum ministro do STF, proposta que acabou sendo assumida pelo próprio Edson Fachin. Aliás, é preciso que a estratégia dê certo, porque a primeira pesquisa Quaest após a crise do Supremo indicou um empate técnico entre Lula e Flávio no segundo turno, num sinal de que o candidato bolsonarista recuperou os pontos perdidos durante o auge do escândalo Dark Horse. Pior do que isso, a recuperação pode ser um sinal da “boca do jacaré”, quando o adversário vai ganhando terreno, diminuindo a distância e com a tendência de superar em breve o primeiro colocado. O problema não é tanto o crescimento de Flávio, e sim o encolhimento das intenções de voto em Lula, arrastado pela piora na avaliação do governo. A cada rodada da Quaest, o presidente perde um ponto, enquanto a desaprovação alcança 50%. Outro indicativo é a dificuldade na arrecadação de recursos para a campanha, com Flávio Bolsonaro à frente com R$ 44 milhões declarados e Lula com R$ 35 milhões. Neste caso, o maior problema talvez não esteja no STF, e sim na economia. Thomas Traumann avalia que há uma desconexão entre a visão otimista do presidente sobre seu próprio governo e a visão da população, com apenas 31% dos eleitores considerando o governo ótimo ou bom. Além disso, Lula estaria mais isolado em seu terceiro mandato em comparação aos seus governos anteriores, o que teria gerado problemas em sua articulação política, o que inclui também seu distanciamento do empresariado. A campanha petista tenta mostrar que a vida do trabalhador melhorou dos tempos de Bolsonaro para cá. Mas, ainda que a previsão de crescimento do PIB tenha aumentado e a da inflação tenha caído, e que o governo controle o preço dos combustíveis, a estagnação do setor de serviços pelo segundo mês seguido é uma péssima notícia para o Planalto. Ou seja, no chão da vida real, a situação dos endividados não melhorou, com a renda drenada pelo crédito, juros altos e bets. 

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Um dicionário para decifrar a China atual. Na Jacobina, Rogério Faleiros apresenta o Dicionário do socialismo com características chinesas, editado pela Expressão Popular e pelo Instituto Tricontinental. 

.Alemanha: por que a ultradireita venceu. Austeridade fiscal e alinhamento dos partidos tradicionais com os EUA levaram o eleitor para o colo da extrema-direita. No Outras Palavras.

.Preocupa ver candidatos no Brasil oferecerem modelo Bukele como solução, diz jornalista que precisou deixar El Salvador. Por trás do modelo da extrema direita, detenções arbitrárias, tortura e perseguição a opositores em El Salvador.

.Como crédito caro prende entregadores argentinos aos aplicativos. O mecanismo de fabricar pobres e endividados na Argentina.

.O Brasil não quebrou nem vai quebrar: quem ganha com o alarmismo fiscal? No Intercept, Juliane Furno desvenda os interesses por trás do mito do descontrole da dívida pública.

.Um romance sobre a eleição de 2018 mas que poderia ser sobre hoje. Parque Modelo mostra o abismo social do Brasil sob a perspectiva da ascensão de classe, com a eleição de 2018 como pano de fundo. Na Jacobina.

.De Dandara a Canudos: conheça jogos digitais inspirados nas culturas brasileiras. Cultura popular, literatura e lutas nos videogames brasileiros. No Nonada Jornalismo.

*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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