Brasil Popular

A coluna do Movimento Brasil Popular é publicada quinzenalmente às quartas-feiras. Escrita por militantes do movimento de todo o Brasil, ela aborda temas relacionados à política brasileira, luta ideológica e os desafios da esquerda na organização popular.

10 pontos para entender a disputa pelo Brasil na nova ordem mundial

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O presidente Lula (PT) durante o discurso de encerramento da 17ª Cúpula do Brics, nesta segunda-feira (7)
O presidente Lula (PT) durante o discurso de encerramento da 17ª Cúpula do Brics. | Crédito: Alexandre Brum/BRICS Brasil

Sem ter sido superado plenamente o período defensivo inaugurado com o golpe de 2016, a esquerda brasileira está em uma guerra de posições.

1. Assistimos à erosão da velha ordem mundial e à transição para uma nova ordem, marcada pela ascensão da China como grande potência global e pelo declínio da hegemonia dos EUA. A disputa acontece no terreno militar, político e econômico, com falência das instituições nascidas no pós-Segunda Guerra e perda gradativa da referência do dólar nas transações internacionais. A guerra da Ucrânia, o genocídio do povo palestino, o sequestro de Maduro na Venezuela, o cerco a Cuba, o ataque ao Irã, o tarifaço de Trump, as ameaças de anexação da Groenlândia e a soberania de Canadá e México, e as interferências nas eleições de países latino-americanos são reações do imperialismo norte-americano à perda de protagonismo global. 

2. Está no centro da disputa global a busca pela vanguarda de um novo ciclo tecnológico com o desenvolvimento de novas tecnologias associadas à quarta revolução industrial, à transição energética, à inteligência artificial e à indústria militar. Esse novo ciclo tecnológico está baseado em minerais estratégicos, como lítio, nióbio, cobre e terras raras, presentes em abundância no Brasil, que possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, a maior reserva de nióbio, sendo responsável por 92% das reservas mundiais, e a sétima reserva de lítio. Além disso, 98% da nossa energia elétrica é de matriz renovável, o que também dota o país de centralidade estratégica na disputa global.

3. O continente latino-americano é atravessado por essa disputa pela grande presença na região de minerais, petróleo, água e biodiversidade, sua força de trabalho e seu mercado consumidor. Assistimos à intensificação da intervenção dos EUA nos países da região, favorecendo uma onda de governos de extrema direita, como na Argentina, Chile, El Salvador e Honduras. Diante do papel relevante que o Brasil ocupa na economia e na política do continente, as eleições de 2026 ganham especial atenção da Casa Branca, como mostra a recente inclusão do PCC e CV na lista de organizações terroristas e a ameaça de novas tarifas que podem chegar a 37,5%. . 

4. No Brasil, o período inaugurado pelo golpe de 2016, que levou à prisão de Lula e à eleição de um fascista, não está encerrado. Reflexo da unidade da burguesia em torno do programa neoliberal, essa renova no século 21 o que foi sua marca no século 19: o desprezo à democracia e a disposição para atropelar a vontade popular sempre que seus interesses e privilégios venham a ser ameaçados. A unidade que rapidamente se produziu entre o agronegócio, o mercado financeiro e os meios de comunicação empresariais em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro demonstra essa adesão ao neoliberalismo e ao autoritarismo de extrema direita. Mesmo após o vazamento dos áudios de Flávio para Vorcaro, não assistimos a um desembarque das forças que sustentam a candidatura do senador bolsonarista. 

Também explicita o golpismo vigente da classe dominante o fato de as demais candidaturas da direita sustentarem o mesmo programa econômico e aderirem à pauta da anistia aos golpistas do 8 de janeiro. 

5. A vitória eleitoral de 2022 e os quatro anos de governo não alteraram questões estruturais que impactam as eleições de 2026, como a concentração de riqueza, terra, renda e a enorme desigualdade social; o grande número de trabalhadores em trabalhos precários e com baixos salários; juros altos, limitando consumo e investimento e o aumento do endividamento das famílias; as amarras neoliberais ao Estado, o esvaziamento do poder do Executivo e o fortalecimento do poder Judiciário e Legislativo. Contexto marcado pela capilarização das ideias fascistas, como em setores religiosos, militares, pessoas de alta renda, em parte da classe trabalhadora e da juventude, e forte presença nas redes sociais. 

6. O governo não foi capaz de alterar a correlação de forças ao longo desses quatro anos, pelas condições adversas no Congresso, nos governos estaduais e na sociedade, e, em boa medida, pelo erro tático de escolher governar a frio, sem mobilizar, sem disputar a sociedade, sem politizar e pressionar pelas bases o legislativo e a população. Quando adotou tática distinta, implementando medidas do programa da frente popular, melhorou a avaliação do governo e conquistou vitórias maiúsculas no parlamento, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o fim da escala 6×1. Em uma sociedade polarizada, ao não fazer a disputa ideológica com centralidade, abre-se espaço para a extrema direita crescer.  

7. Sem ter sido superado plenamente o período defensivo inaugurado com o golpe de 2016, a esquerda brasileira está em uma guerra de posições, um período prolongado de busca por acúmulo de forças, com pouca margem para avançar. A conjuntura tem evoluído de forma rápida, com avanços e reveses para os interesses populares a cada semana. Esse quadro exige que as classes populares identifiquem a forma mais adequada para aproveitar lutas que possam mobilizar os interesses das grandes maiorias, organizando a frente popular e pressionando o governo federal e a frente ampla, para avançarmos no enfrentamento à direita e à extrema direita, colocando centralidade na constituição de um polo estratégico. 

Sem frente popular, não há frente ampla, muito menos transformações estruturais. No atual contexto, as condições que possibilitaram a construção da frente ampla em 2022 já não estão colocadas em 2026.   

8. As forças de esquerda não lograram a constituição de uma frente popular que atuasse de forma permanente na disputa da sociedade e na construção de lutas massas. A Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo cumpriram papel importante na construção de calendários de luta e do Plebiscito Popular por um Brasil mais Justo, em 2025, mas essa unidade se mostrou episódica e não se desdobrou em fóruns semelhantes nos estados. Quando houve unidade na pauta e na convocação, obtivemos vitórias importantes e melhorou a aprovação do governo federal, como na luta contra o ‘PL do Estuprador’, o PEC da Blindagem, a luta pela isenção do IR e taxação dos super-ricos e o fim da escala 6×1. Essas sete constatações acima marcam as eleições do Brasil em 2026. 

9. As eleições de 2026 colocam uma encruzilhada para o Brasil. De um lado, caso tenhamos mais uma vitória da extrema direita, assistiremos ao aprofundamento da dependência, da exportação sem beneficiamento de minerais e produtos agrícolas, sem retorno para a sociedade e para o Estado, com aumento dos crimes socioambientais e da vulnerabilidade à crise climática, piora das contas e das políticas públicas, e privatizações de setores estratégicos, retirando do Estado a capacidade de impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento. Além disso, alinharia o Brasil de forma acrítica aos interesses norte-americanos, fragilizando a construção de uma nova ordem multipolar. 

De outro lado, uma vitória das forças populares dotadas de um projeto de desenvolvimento pode aproveitar a abertura de um novo ciclo tecnológico e a importante posição do país na detenção de reservas expressivas de minerais estratégicos para impulsionar conquistas democráticas e populares que resolvam os reais problemas do povo, com transferência de tecnologia, geração de empregos de qualidade e ampliação da capacidade do Estado na execução de políticas públicas distributivas. 

10. Ao mesmo tempo, as eleições de 2026 são uma oportunidade de superação de dois limites decisivos para a luta política no próximo período: a constituição da frente popular e a convergência das forças progressistas em torno de um projeto de desenvolvimento democrático e soberano para o estado. 

Há na esquerda unidade em torno da reeleição do presidente Lula e na centralidade do enfrentamento à extrema direita em defesa da democracia e da soberania nacional. Há também convergência no entendimento de que as eleições não estão ganhas e de que as forças populares e a mobilização popular serão decisivas. Essa unidade de leitura pode e deve se desdobrar em unidade de ação e na constituição de espaços de articulação e organização estaduais e locais. Para além da vitória eleitoral, esse avanço organizativo e de ação, em torno de pautas e lutas comuns, deve acumular para uma luta de médio prazo no enfrentamento à extrema direita. 

As eleições de 2026, em um contexto de acirramento da disputa geopolítica, também dão centralidade à necessidade de debatermos um projeto de desenvolvimento nacional. Nossa base industrial, diversidade cultural, territorial e de biomas, produção científica e potenciais econômicos permitem afirmarmos que o Brasil pode muito mais: pode implementar um projeto popular e soberano que retome um ciclo de desenvolvimento no país a partir da realização de reformas estruturais que democratizem o país.

*Frederico Santana Rick é sociólogo e militante do Movimento Brasil Popular

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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