Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha ([email protected] / www.estrategiaeanalise.com.br) é jornalista, cientista político e professor de Relações Internacionais; é membro do ICCEP / O Coletivo e participa da luta pela democracia na comunicação social; é jornalista da HispanTV Brasil

O desenvolvimento da Organização de Cooperação de Xangai inverte de vez a hegemonia dos EUA e seus vassalos da OTAN

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Registro do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, realizado em 8 de agosto, durante coletiva de imprensa
Registro do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, realizado em 8 de agosto, durante coletiva de imprensa. Na oportunidade, o presidente defendia o fim da guerra e entendia que o país saía vitorioso diante dos olhos do mundo | Crédito: Iranian Presidential Office / AFP

A lista de propostas vai ao encontro de uma maior integração interasiática

A Hispan TV Brasil, serviço em língua portuguesa da mídia pública iraniana, publicou como postagem em rede social a notícia de que o presidente da República Islâmica, Masoud Pezeshkian, apresentou três iniciativas para ampliar a cooperação econômica e energética na Organização de Cooperação de Xangai (OCX), durante cúpula realizada em Bishkek, capital do Quirguistão. A conferência dos presidentes se realizou no dia 31 de agosto e em 1 de setembro. 

A lista de propostas vai ao encontro de uma maior integração interasiática, contando com a participação da Índia, país mais populoso do planeta, maior democracia liberal em curso no mundo e potência econômica absoluta. Vejamos o que indica o mandatário do Irã: 

– Ampliar o uso de moedas nacionais, criar mecanismos conjuntos de liquidação e financiamento e, futuramente, estabelecer um Banco da Organização de Cooperação de Xangai.

– Criar a União de Seguros de Exportação e Investimento da Organização de Cooperação de Xangai para facilitar atividades comerciais e investimentos. A terceira prevê um Consórcio de Energia para integrar produção, transporte e consumo.

– Estabelecer duas instituições chave: o centro de estudos estratégicos e um fórum parlamentar na OCX. 

A criação das novas instituições dentro do guarda-chuva da OCX viria acompanhada de condenações públicas das ações militares estadunidenses e israelenses contra o Irã, classificando-as como violações internacionais.

Uma estratégia de desenvolvimento através da desdolarização

Em 2017 havia o debate de um consórcio interbancário, tendo por base a OCX. A lista das instituições membro, ainda no período inicial – de acordo com a página oficial da OCX, era essa:

“Os membros do SCO IBC são o Banco de Desenvolvimento do Cazaquistão, o Banco Estatal de Desenvolvimento da China, a Companhia de Liquidação e Poupança da República Quirguiz (RSK Bank), o Banco Russo para o Desenvolvimento e Assuntos Econômicos Externos (Vnesheconombank), o Banco Estatal de Poupança da República do Tadjiquistão (Amonatbonk) e o Banco Nacional para Atividades Econômicas Externas da República do Uzbequistão.

Os bancos parceiros do SCO IBC incluem o Banco Conjunto de Poupança “Belarusbank”, o Habib Bank Limited (Paquistão) e o Banco de Desenvolvimento da Mongólia.

O SCO IBC realiza seminários anuais em Sanya (China) desde 2010 para trocar opiniões sobre a situação financeira e econômica da região e discutir as perspectivas de desenvolvimento do Consórcio.”

Na conferência da OCX em setembro de 2025, o governo da China foi bastante proativo e propôs a criação de um banco para operações desdolarizadas. Segundo o portal Think China, as metas anunciadas foram:

“Na 25ª Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), realizada em Tianjin, na China, o presidente chinês Xi Jinping renovou o antigo apelo de Pequim pela criação de um banco de desenvolvimento da OCX. Ele prometeu dois bilhões de yuans (cerca de US$ 280 milhões) em doações aos Estados-membros e dez bilhões de yuans em empréstimos ao Consórcio Interbancário da OCX (SCO IBC) nos próximos três anos, ressaltando o empenho da China em institucionalizar a cooperação financeira dentro do bloco.”

Os benefícios deste banco multilateral operando por fora do dólar são visíveis, ainda segundo o portal acima citado: 

“O novo banco de desenvolvimento beneficia todas as partes. Para os membros da OCS, ele pode complementar ou competir com outras fontes de financiamento, além de diversificar o financiamento disponível para o desenvolvimento. Para Pequim, isso se alinha à sua estratégia mais ampla de construir instituições financeiras de governança (como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e o Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics, NDB), que expandem a influência da China e oferecem alternativas ou mesmo complementam as estruturas lideradas pelo Ocidente.

Há uma clara necessidade disso. A demanda por infraestrutura na região da OCS permanece alta. A Ásia Central, por exemplo, enfrenta lacunas persistentes de conectividade, com aproximadamente metade de sua população sem acesso confiável à internet. O financiamento para banda larga, corredores de transporte, gasodutos e projetos de energia renovável atenderia a essas necessidades urgentes de desenvolvimento, ao mesmo tempo que aprofundaria a integração regional.”

Um exemplo de desenvolvimento desdolarizado se dá nas relações bilaterais entre os países membros da OCX. O potencial das atividades de integração econômicas é descomunal, considerando os membros da organização multilateral com base asiática. 

Estados-membros: Bielorrússia (aderiu em 2024), China (membro fundador), Índia (aderiu em 2017), Irã (aderiu em 2023), Cazaquistão (membro fundador), Quirguistão (membro fundador), Paquistão (aderiu em 2017), Rússia (membro fundador), Tadjiquistão (membro fundador), Uzbequistão (aderiu em 2001). Estados observadores: Afeganistão, Mongólia. Parceiros de diálogo: Turquia, Azerbaijão, Armênia, Egito, Camboja, Catar, Kuwait, Laos, Maldivas, Mianmar, Nepal, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Sri Lanka.

No caso da organização bilateral, os países de maioria islâmica que faziam parte da antiga União Soviética (URSS), as capacidades de realização extrapolam qualquer possibilidade de concorrência econômica pelo ocidente. Vejamos os pré-acordos traçados no presente momento entre os presidentes do Irã e do Quirguistão (país onde se realiza a conferência da OCX em 2026).

De acordo com a agência iraniana Tasnim, “O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, acolheu favoravelmente a proposta do Quirguistão de estabelecer uma refinaria conjunta no país da Ásia Central, afirmando que o Irã está pronto para fornecer o petróleo bruto necessário para a instalação e compartilhar seus produtos refinados com o Quirguistão.

Pezeshkian fez essas declarações durante uma reunião com o presidente quirguiz, Sadyr Japarov, em uma reunião bilateral simultânea ao encontro de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai e Xangai Plus em Bishkek, onde os dois presidentes discutiram áreas-chave de cooperação bilateral, incluindo política, comércio, transporte, energia, agricultura, defesa, turismo e cultura.

O petróleo bruto necessário para a refinaria pode ser fornecido pelo Irã, e os produtos podem ser divididos entre os dois países”. Ele descreveu o projeto como uma boa oportunidade para elevar o nível de cooperação econômica e energética entre Teerã e Bishkek.”

Evidente que esta iniciativa não seria financiada tendo por base contratos em dólar e nem a arquitetura financeira ou securitária passaria perto de qualquer país ocidental. Multipliquemos esta iniciativa por demais agendas de desenvolvimento econômico nas demais reuniões bilaterais durante a cúpula da OCX. Somemos às iniciativas multilaterais e a provável inauguração do Banco da Organização da Cooperação e a integração econômica ganha uma dimensão incomensurável. 

*Bruno Lima Rocha Beaklini ([email protected]) é jornalista da HispanTV Brasil, doutor em ciência política, tem pós-doc em economia política internacional e é professor de relações internacionais

**Para mais informações sobre a República Islâmica do Irã, com material diário em língua portuguesa, acesse o link: https://hispantv.substack.com/publish/home

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


Editado por: Vivian Virissimo

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