A proposta deste breve artigo é expor de forma sucinta como o neofascismo funciona na América Latina. Não se trata de relato amplo e detalhado, com nomes sem fim, empresas de fachadas, laranjas, lavagem de dinheiro e etc. Sim, este é o procedimento padrão, de melar as eleições nos países latino-americanos, poluir o debate público de versões disfarçadas de opiniões criadas por fazendas de bots e, de maneira muito aproximada, financiar estas iniciativas com a economia do crime. É isso mesmo, não é ficção ou roteiro de filmes com conspiração política.
No Brasil o epicentro da suspeita de golpe eleitoral, com o ministro André Mendonça sendo instrumento ativo na campanha de Flávio Bolsonaro e automaticamente, fortalecendo a aliança com o imperialismo capitaneado por Donald Trump e Marco Rubio. Já na Bolívia repercute um padrão mais ampliado, cuja prisão do operador da CIA Fernando Cerimedo, é a parte mais visível de todo esquema.
Cerimedo foi peça central na eleição de Javier Milei em 2023 na Argentina. Atuou para espalhar a calúnia de fraude nas urnas eletrônicas no Brasil. Fez campanha contra a constituinte no Chile e também no segundo turno das eleições no país. Foi conselheiro de campanha de Rodrigo Paz na Bolívia, depois teve um espaço informal com alto nível decisório. O intento de feminicídio contra sua ex-companheira – a influenciadora de direita boliviana Nadia Beller -foi para queima de arquivo conforme o próprio afirmou para um cúmplice. Este, é simplesmente o diretor da Polícia Nacional Boliviana na luta contra o narcotráfico.
Uma vez preso, Cerimedo traz consigo atividades conexas com voos irregulares no Departamento de Beni. “Coincidentemente” é o mesmo lugar de origem carreira política da ex-presidente golpista da Bolívia, Jeanine Áñez. Também deve ser por “coincidência” que o procedimento é o mesmo ocorrido no Equador, em Honduras e agora na Colômbia em casos de relação direto de narcotráfico e a ascensão de governantes de extrema direita.
A Bolívia passou por duas situações semelhantes antes do golpe impulsionado por narcotraficantes em 2019. O golpe liderado pelo então coronel Hugo Banzer (1971) e posteriormente no golpe de 1980 – tendo a frente o general Luis García Meza e pelo coronel Luis Arce Gómez. Em ambas tomadas de poder o narcotráfico atuou diretamente, financiou as atividades ilegais, operou com redes da CIA e da DEA e foi parte ativa no modo de acumulação através do Poder Executivo e a corrosão do aparelho de Estado.
Quais as semelhanças entre estes procedimentos e o acionar de Fernando Cerimedo como um operador de Donald Trump e Marco Rubio? Todas. O “consultor argentino” é pivô de uma crise cujas evidências eram abundantes desde o lançamento do portal Derecha Diario. Qual a diferença agora? A revelação de um esquema, considerando que ele, Cerimedo, foi para Santa Cruz de la Sierra para operar “livremente”, garantindo o financiamento de todos os seus clientes nas redes sociais, como o mandatário argentino.
Se na economia do narcotráfico as redes da CIA operam como funcionais, na base cibernética o suporte vem da inteligência sionista. Como de costume, a espionagem israelense incide através da internet com o uso de mecanismos de disparos em massa, poluindo o debate público, aliando-se às plataformas e Big Techs, exercendo censura na prática política.
Cerimedo é uma peça, hoje importante, depois removível. Em geral os cabeças da estrutura criminal tem pouca longevidade, e os aparelhos seguem funcionando. Estes vão sendo moldados de acordo com as frações de classe no poder dos países da América Latina e suas relações – se diretas ou indiretas – com Washington, o Comando Sul e o conjunto dos instrumentos do imperialismo para a dominação do Continente.
*Bruno Lima Rocha Beaklini é jornalista da HispanTV Brasil, doutor em ciência política, tem pós-doc em economia política internacional e é professor de relações internacionais.
**Para mais textos e análises sobre o Irã e Ásia Ocidental, acesse: https://hispantv.substack.com/
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

