Carlos Castelo

Carlos Castelo é cronista, escrevinhador e sócio-fundador do grupo de humor Língua de Trapo.

Casteladas, a coluna dos aforismos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço: a frase curta, de alegria instantânea, a serviço do humor refinado. A coluna também publica crônicas — histórias compactas e irônicas que vêm, cutucam e partem.

Agente secreto, a crônica

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Hoje acordei com um agente da CIA debaixo de minha cama
Hoje acordei com um agente da CIA debaixo de minha cama | Crédito: Pinterest

Valeu alguma coisa ter sido alvo da CIA.

Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.

Hoje acordei com um agente da CIA debaixo de minha cama.

O maior susto, no entanto, foi ele reclamar da poeira.

— Você precisa melhorar seus protocolos de limpeza — disse, anotando alguma coisa num bloco.

Pensei que estivesse sonhando. Afinal, não é todo dia que alguém encontra um espião norte-americano escondido entre uma pantufa órfã e uma revista de palavras cruzadas de 2019.

— O que o senhor está fazendo aí?

— Monitoramento preventivo.

— De mim?

— Não exatamente. Do bairro. O senhor apareceu por acidente estatístico.

Era o tipo de resposta que só um serviço secreto ou o aplicativo do iFood poderia dar.

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Levantei, fui fazer café, e o agente me seguiu com a naturalidade de quem já tinha decorado a planta da casa.

Segundo ele, depois das notícias sobre facções brasileiras entrarem no radar internacional como possíveis organizações terroristas, a burocracia global havia enlouquecido. 

Computadores cruzavam dados, detectavam padrões e relatórios eram produzidos em velocidades incompatíveis com a leitura humana.

— Ontem investigamos um sujeito porque ele comprou cinco pacotes de Miojo.

— E era terrorista?

— Não. Era inadimplente.

Anotou mais alguma coisa.

Perguntei se os Estados Unidos realmente entendiam o Brasil.

O agente soltou uma risada.

Foi a primeira coisa de fato assustadora naquela manhã.

— Nós passamos décadas tentando entender o Oriente Médio. O Brasil tem reunião de condomínio, coxinha, grupo de família. É muito mais complexo.

Concordei.

Expliquei que o verdadeiro centro de operações estratégicas do país não era nenhuma facção criminosa, mas o grupo de WhatsApp dos moradores de prédio. Ali se espalhavam boatos, teorias conspiratórias e áudios de oito minutos gravados por pessoas caminhando na pracinha do bairro.

O agente ficou pensativo.

— Temos monitorado satélites, portos e redes financeiras. Nunca pensamos nisso.

Em seguida, foi anotando com fúria no bloquinho.

Ao meio-dia chegaram mais dois agentes. Um entrevistou o síndico. Outro desapareceu depois de ouvir uma discussão sobre vagas de garagem. Deve ter sido considerado morto em combate.

No fim da tarde, o primeiro agente arrumou suas coisas.

— Concluímos que o senhor não representa ameaça internacional.

— Que alívio.

— Porém…

Nunca existe frase mais perigosa que um “porém” pronunciado por alguém de crachá.

— Detectamos que já respondeu “vamos marcar” sem qualquer intenção de marcar.

Baixei a cabeça.

— Isso é crime?

— Não. Mas demonstra comportamento brasileiro avançado.

Ele apertou minha mão, agradeceu e saiu pela porta.

Antes de dormir, olhei embaixo da cama. Estava vazia. Pela manhã, o espião estava escondido ali. À noite, não mais.

Em compensação, ao me abaixar, encontrei duas cobranças e um boleto do IPTU ainda em data de validade.

Valeu alguma coisa ter sido alvo da CIA.

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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