Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.
Hoje acordei com um agente da CIA debaixo de minha cama.
O maior susto, no entanto, foi ele reclamar da poeira.
— Você precisa melhorar seus protocolos de limpeza — disse, anotando alguma coisa num bloco.
Pensei que estivesse sonhando. Afinal, não é todo dia que alguém encontra um espião norte-americano escondido entre uma pantufa órfã e uma revista de palavras cruzadas de 2019.
— O que o senhor está fazendo aí?
— Monitoramento preventivo.
— De mim?
— Não exatamente. Do bairro. O senhor apareceu por acidente estatístico.
Era o tipo de resposta que só um serviço secreto ou o aplicativo do iFood poderia dar.

Levantei, fui fazer café, e o agente me seguiu com a naturalidade de quem já tinha decorado a planta da casa.
Segundo ele, depois das notícias sobre facções brasileiras entrarem no radar internacional como possíveis organizações terroristas, a burocracia global havia enlouquecido.
Computadores cruzavam dados, detectavam padrões e relatórios eram produzidos em velocidades incompatíveis com a leitura humana.
— Ontem investigamos um sujeito porque ele comprou cinco pacotes de Miojo.
— E era terrorista?
— Não. Era inadimplente.
Anotou mais alguma coisa.
Perguntei se os Estados Unidos realmente entendiam o Brasil.
O agente soltou uma risada.
Foi a primeira coisa de fato assustadora naquela manhã.
— Nós passamos décadas tentando entender o Oriente Médio. O Brasil tem reunião de condomínio, coxinha, grupo de família. É muito mais complexo.
Concordei.
Expliquei que o verdadeiro centro de operações estratégicas do país não era nenhuma facção criminosa, mas o grupo de WhatsApp dos moradores de prédio. Ali se espalhavam boatos, teorias conspiratórias e áudios de oito minutos gravados por pessoas caminhando na pracinha do bairro.
O agente ficou pensativo.
— Temos monitorado satélites, portos e redes financeiras. Nunca pensamos nisso.
Em seguida, foi anotando com fúria no bloquinho.
Ao meio-dia chegaram mais dois agentes. Um entrevistou o síndico. Outro desapareceu depois de ouvir uma discussão sobre vagas de garagem. Deve ter sido considerado morto em combate.
No fim da tarde, o primeiro agente arrumou suas coisas.
— Concluímos que o senhor não representa ameaça internacional.
— Que alívio.
— Porém…
Nunca existe frase mais perigosa que um “porém” pronunciado por alguém de crachá.
— Detectamos que já respondeu “vamos marcar” sem qualquer intenção de marcar.
Baixei a cabeça.
— Isso é crime?
— Não. Mas demonstra comportamento brasileiro avançado.
Ele apertou minha mão, agradeceu e saiu pela porta.
Antes de dormir, olhei embaixo da cama. Estava vazia. Pela manhã, o espião estava escondido ali. À noite, não mais.
Em compensação, ao me abaixar, encontrei duas cobranças e um boleto do IPTU ainda em data de validade.
Valeu alguma coisa ter sido alvo da CIA.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

