Por Luciano Mendes
Uma viagem sempre comporta muitas viagens ou, assim como diria Ítalo Calvino, uma cidade sempre comporta muitas cidades. E há sempre que distinguir o joio do trigo, o que importa do que deve ficar de lado, os contratempos dos caminhos outros que nossos sentidos podem buscar ou construir. As coisas não dão certo, pois viajar é passar perrengues.
Na semana passada, quando cheguei a Santiago, já era quase o dia seguinte. Minha reserva estava confirmada, pois eu a fiz dias antes, na Casa del Maestro, também conhecida como La Moneda Chica, por ter sido o primeiro gabinete do Governo Popular de Salvador Allende. Então, quando cheguei ao palácio, o dia da partida já havia ficado para trás. O problema é que a minha reserva também.
Depois de atendido no interfone pela senhora da recepção, fui informado que minha reserva havia caducado e que eu deveria ter chegado, na verdade, no dia anterior ao da minha partida do Brasil. Verifiquei que era verdade. Na correria, eu esqueci de mudar a reserva feita antes mesmo de comprar a passagem. Conversa vai, conversa vem, havia um quarto disponível e cá estamos.
No dia seguinte, foi a vez do telefone. Não acessava internet e eu, tentando resolver, aumentei o problema: esqueci o meu PIN e bloqueei meu número. Era preciso saber o PUK do meu chip. Claro que não o tinha comigo, e era preciso ligar para a operadora no Brasil. Esforços em vão. Já imaginava um dia perdido entre amolações e não soluções, como sempre. Ainda chateado, deixei a coisa para lá, quero dizer, o chip, e saí para a rua.
A poucas quadras da Casa del Maestro está o Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago, um dos lugares de memória mais importantes do mundo a respeito das atrocidades da ditadura chilena e em outros países, e para lá caminharam os meus passos. Eu já conhecia o museu, mas entrar de novo nesses espaços é sempre uma experiência de reconhecimento do outro e de si. Foi o que ocorreu comigo naquela manhã.
Logo na entrada, uma enorme escada, daquelas de avião, indicava a importância de chegar (Asilo) e de partir (Exílio) em tempos de autoritarismos e atentado ao Estado Democrático de Direito. Neste, como em outros casos, chegar e partir é parte de uma mesma viagem, como nos lembrava poeticamente – e dolorosamente, às vezes – Milton Nascimento, citado na crônica anterior.
De repente, a diáspora passa a fazer parte da vida, de incontáveis vidas, algumas vezes como única condição de preservá-la, inclusive. Quando se é obrigado a viajar, sair de seu país involuntariamente, a viagem é, definitivamente, outra, me peguei pensando, já quase esquecendo os meus microproblemas de viagem.
Passada a escada, vi-me no pátio interno do museu. Lá, uma exposição me fez derramar lágrimas e retomar o caminho das coisas que importam. De um cielo a outro semejante “reúne fotografías y cortometrajes sobre la vida cotidiana de niños y niñas en Palestina, producidos en condiciones de asedio, violencia, hambruna y exilio. Bajo la curaduría de Francisca y Andrés Khamis Giacoman, la muestra da visibilidad a las infancias palestinas, resaltando su dignidad en medio del actual genocidio.”
Não é possível, aqui, reproduzir as marcantes imagens da exposição, mas as perguntas das crianças, postas em grandes painéis ao lado das mesmas sim:
Después de que muramos, podré oír sus vocês? Cuando muero, me podrán en una tumba con mi mamá o con mi papá? Cuando llueva, nos vamos a inundar en la tienda? Cuando bombardeen la tienda, nos quemaremos? Por qué siempre nos bombardean? Si bombardean a alguién mientars caminho a su lado, seré mártir? Cuando un mísil nos golpee, lo sentiremos? Cuando el mísil cae sobre nosotros, sentiremos dolor o moriremos al instante? Cuando moriremos para descansar de los bombardeos e de los israelies? Cúando volveremos a nuestra habitación y los desplazados a sus hogares?
Perguntas nada inocentes. Muito antes da filosofia ou da sociologia da infância, os poetas já nos advertiam que as perguntas das crianças nos levam de volta ao humano, incluindo-se aí os seus maiores absurdos. Ainda que destroçadas, as crianças evocam as infâncias possíveis e repõem o movimento da vida (e da educação, pois, como dizia Hannah Arendt, educar é um imperativo porque novas crianças chegam ao mundo).
Não por acaso, foi também nesta semana que pudemos ler, no belo poema do poeta mineiro Antônio Souza Capurnan, uma pergunta dessa mesma ordem: “O que encontrará o palestino no retorno para a casa, para a casa que não existe?”
E, por falar em absurdos, destroços, cacos, infâncias perdidas e perguntas, muitas perguntas, adentrar ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos é se deparar continuamente com as indagações de milhares de crianças sobre o paradeiro de seus pais e suas mães ou sobre quando a vida voltaria à normalidade. Para milhares delas, não voltou, nunca voltaram.
A fortuna da viagem são os encontros, mas também a reflexão e o silêncio, e são as perguntas que daí brotam, muito mais do que as respostas, que nos fazem retornar ao fundamental da vida. A questão é se essas perguntas terão o poder de nos fazer mover ou se nos juntaremos ao coro das multidões aflitas que clamam por respostas dos céus.
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, entre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
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Este é um artigo de opinião, a visão da autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

