Recentemente, falávamos aqui sobre o modo como nossa sociedade categoriza e idealiza a infância. Essa reflexão me levou a pensar também sobre a idade que vem em seguida: a adolescência. Idade recente, de definição pouco consensual, e, na minha opinião, frequentemente mal compreendida e injustiçada.
A adolescência é recente como uma das idades da vida. Costuma-se dizer que antes do século XX se desconsiderava a existência de um período de transição entre a infância e a idade adulta. Essa é, no entanto, uma afirmação exagerada. Nos tratados sobre educação escritos nos séculos XVII e XVIII, as etapas de formação apresentam algum período intermediário entre a criança e o adulto.
Jan Amos Comenius, por exemplo, dividia o programa de estudos em 4 fases: infância (de 0 aos 6 anos), puerícia (dos 7 aos 12 anos), adolescência (dos 13 aos 18 anos) e juventude (dos 19 aos 24 anos). Também Jean-Jacques Rousseau se preocupou em diferenciar cada fase: designando a idade de natureza (do bebê aos 12 anos), a idade da força (dos 13 aos 18 anos), a idade da razão e das paixões (dos 15 aos 20 anos) e a idade da sabedoria e do casamento (de 20 a 25 anos).
De qualquer modo, os estudos de história social, que buscam analisar o que se passava no dia a dia das pessoas que viveram no passado (e não apenas o que diziam os teóricos da época), têm trazido evidências de que o trabalho era uma realidade que se impunha muito cedo, sobretudo aos mais pobres.
E para a maioria das mulheres, os filhos se impunham logo, como uma inexorável realidade. Não era raro, portanto, que no século XIX, mesmo nos meios sociais menos pressionados pela dureza da vida econômica, as meninas se casassem entre os 12 e 14 anos. Nas primeiras décadas do século XX ainda se encontram muitos anúncios de emprego buscando crianças de 8 a 10 anos para entregar jornal.
O século XX é, no entanto, quando a escola se torna progressivamente obrigatória e, estabelecida por lei a idade escolar, cada vez mais é o fim da escolaridade que marca o início da vida adulta. Postergado para aquelas que podem continuar seus estudos; abreviado para os grupos sociais atingidos pela exclusão escolar. E isso ainda é verdade para os tempos atuais.
Também no século XX, outro acontecimento vem se somar à escolarização na marcação da adolescência como uma etapa específica. Aqui é a preocupação da Psicologia do Desenvolvimento em caracterizar o que seria “normal” para cada idade que assume centralidade. O livro de G. Stanley Hall sobre psicologia da adolescência, publicado nos Estados Unidos em 1904, é um marco importante nesse sentido. Segundo ele, a adolescência começava aos 14 anos e se estendia até os 24.
A tradição de estudos que se desenvolve a partir disso vai insistir em ancorar a definição das idades da vida na biologia, naquilo que supostamente seria estabelecido pela natureza. Até hoje essa compreensão sobre a questão circula de muitos modos em nossa sociedade, acessível mesmo para quem não conhece os textos especializados no tema.
Diferenças sociais
Um dos problemas é que tais categorizações desconsideram as diferenças estabelecidas socialmente, muitas das quais resultado das injustiças e desigualdades sociais.
Assim, se a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a adolescência começa aos 10 anos, que dizer dos contextos sociais em que meninas de 7 ou 8 anos precisam fazer o almoço para si e para os irmãos menores enquanto a mãe, por falta de outra opção para o sustento da sua família, está ocupada fazendo almoço em alguma casa de classe média?
Diante da desigualdade social, como estabelecer quando começa a idade de trabalhar, assumir responsabilidades, ter filhos? Como estabelecer para todas as culturas uma mesma idade como início da transição entre infância e idade adulta? Como garantir, inclusive, o direito a uma etapa de transição?
Se é difícil chegar a um consenso sobre o início da adolescência, estabelecer até onde vai essa fase também não tem se mostrado simples. Recentemente circulou a notícia que a Neurologia teria “descoberto” que a adolescência vai até por volta dos 30 anos. É o cume da tendência biologizante de que eu falava há pouco: trata-se de uma afirmação que se apoia na compreensão de que a definição das idades estaria marcada no funcionamento do cérebro, na natureza, na biologia.
Ocorre que a refutação dessa ideia já foi amplamente sustentada por muitas pesquisas tanto da História quanto da Antropologia. Evidências variadas e abundantes mostram que as idades da vida são estabelecidas pela cultura, não pela biologia.
Óbvio que existem mudanças que acontecem no corpo com o passar do tempo – e se assemelham ou mesmo são idênticas em pessoa de grupos sociais diferentes –, mas os significados que atribuímos a essas mudanças e o que fazemos a partir disso é algo definido pela cultura e, portanto, difere (às vezes significativamente) em diferentes épocas e lugares.
E justamente, no meu entendimento, é na cultura que, hoje em dia, temos naturalizado um misto cruel de negligência e injustiça com nossos adolescentes. Somos injustos ao designar, mesmo que seja em tom de brincadeira, que eles são “aborrecentes”. Estabelecemos na cultura uma designação para essa idade e a ancoramos na biologia: supostamente os adolescentes nos aborrecem por efeito dos hormônios.
Não observamos que os adultos ao redor andam constantemente irritados, pelo estresse do trabalho e pelas pressões de uma sociedade competitiva em que o consumo e a aparência são mais importantes do que a introspecção, do que a compreensão dos nossos anseios e angústias existenciais. E aí os adultos, perdidos em seus próprios dramas pessoais mal resolvidos e envoltos em delírios de super controle dos filhos, é que se sentem aborrecidos pelos adolescentes?
Não há modo único de ser adolescente
É claro que não há modo único de ser adolescente nem manual de instrução explicando como estabelecer uma convivência harmônica com os adolescentes ao nosso redor. Na minha própria experiência, a parte mais difícil tem sido lidar comigo mesma diante das alterações provocadas – na rotina e nos sentimentos – pelo convívio com seres em transformação, pessoas que vão progressivamente se tornando adultas. Nada é de um dia para outro; a adultez não chega de modo automático aos 18 anos!
E é nesse sentido que me parece, olhando ao redor, que em nossa sociedade a experiência mais frequente dos adolescentes é a negligência. Atenção: cabe alertar nesse ponto que o contrário de negligência não é uma atitude controladora de país e mães que alimentam delírios de onisciência e onipotência.
No convívio com esse meio termo entre “quase criança” e “quase adulto”, os adultos tendem a não saber como se posicionar e, no mais das vezes, vão se retirando… se retiram da convivência (a porta fechada do quarto chega a ser um alívio), se retiram da interação descontraída (antes iam ao teatrinho infantil com os filhos, mas agora os interesses dos adolescentes são “insuportáveis”), se retiram da escuta interessada (não escutam, apenas julgam e/ou entram imediatamente no modo “lição”).
Sim, reconheço que não é fácil essa posição intermediária que a vida de mãe de adolescentes demanda: ficar por perto, mas também não tão perto assim, porque eles precisam do próprio espaço!
Mas estou convencida que é disso que eles precisam: o delicado equilíbrio entre presença e espaço. E não deixo de lembrar que, se é difícil para mim, que tenho maturidade e experiência de vida, tudo isso é muito mais difícil para eles.
Natália Gil é pedagoga, doutora em Educação e professora da UFRGS.
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

