Por Luciano Mendes
Já que nesta vida somos todos passageiros, tenho utilizado este espaço para falar sobre viagens e para refletir sobre a “condição viajante”, mais particularmente sobre encontros furtuitos ou inusitados e as transformações que, muitas vezes, eles operam em nós.
Seja pelo encanto das viagens que empreendi, seja por causa do meu otimismo existencial, os textos aqui publicados têm omitidos os perrengues das viagens. Inclusive a minha última crônica se encerrava assim: “Quando o errado dá certo então, é o melhor dos mundos!”. Mas, e quando isto não acontece e dá tudo errado mesmo?
Galinha que acompanha pato morre afogada, não cansa de nos alertar a querida Andrea Moreno. E, sobre isso, em relação a viagens, há sempre história por contar. Neste particular, minhas memórias de viagens me jogam, sempre e sempre, para uma fatídica noite em, acompanhando meu irmãos mais velhos em um “maravilhoso” passeio a Sete Lagoas (MG), me vi no alto de uma serra, numa noite fria, com fome e sem nenhum agasalho, deitado sobre um tronco de madeira, enquanto eles se esbaldavam numa festa, dançando e bebendo cachaça.
Felizmente alguém teve a feliz ideia de acender uma fogueira e lá fiquei eu, virando de um lado e de outro para não me queimar, até o sol nascer e irmos embora.
Em se tratando de viagem, o despreparo é, certamente, outra forma de convite ao azar.
Não me esqueço do dia em que entrei no ônibus em uma Belo Horizonte calorenta, em direção à cidade de São Paulo. Ao chegar na divisa dos estados começou um frio de doer os ossos, e eu sem nada, nenhuma proteção, só de camisa de malha de manga curta. Usei o artifício de desvestir as mangas e colocar os braços junto ao corpo para esquentar mais um pouquinho, mas isso de pouco valeu.
Do mesmo naipe, em se tratando de viagens, é a falta de atenção. Certa vez, no México, tomei o ônibus e fui parar numa cidade oposta à que eu queria ir, simplesmente porque, entre o nome de uma e de outra havia a diferença de apenas uma letra que, é claro, minha prenuncia do portunhol fez sumir, e as pessoas, sempre muito gentis, me indicaram a cidade “errada”.
Por falar em ônibus, quem nunca sofreu, por longos períodos, em ônibus quentes e em companhia de viajantes que tiveram a feliz ideia de tirar os sapatos para refrescar os nada cheirosos pés? Ou se ser surpreendido, bem no meio da viagem, dentro do ônibus, por um súbito mal estar intestinal? Quem nunca enfrentou, em plena viagem, uma greve de motoristas? A lista destes perrengues, neste particular, é quase infinita.
Mas o que me animou mesmo a escrever esta crônica não foi nada disso, e nem mesmo as mil e uma formas de se sentir enganado pelos anúncios de hotel, pelos motoristas de taxi, pela perda de documentos ou, simplesmente, pelo medo avassalador que nos toma conta quando estamos perdidos em lugares desconhecidos e, suposta ou realmente, perigosos.
O motivo dessa crônica é, acima de tudo, uma recente viagem a Belém em que eu tive o enorme desprazer de passar a viagem toda ouvindo a conversa de um trio que, nos bancos imediatamente à minha frente, ia trocando ideias e informações sobre o Brasil.
Na verdade, uma das pessoas não tem nenhuma responsabilidade sobre o meu mal-estar. Explico: tratava-se de estrangeiro que, no decorrer da viagem, pareceu-me ser um francês que, aparentemente em passeio, pedira informação sobre Belém e algumas outras cidades a um casal que viajava ao seu lado.
O casal, ela médica e professora universitária e ele, aparentemente, um empresário, adeptos da terceira via (nem Lula, nem Bolsonaro), mas francamente favorável às políticas deste último, foi a viagem inteira enfiando preconceitos, meias verdades e mentiras inteiras nos ouvidos do interlocutor que, no mais das vezes, se mostrava muito mais bem informado sobre o Brasil do que os nativos.
Para meu desespero, com perguntas curtas e sagazes, ele conseguia com que seus interlocutores expressassem, sem mais, seus pensamentos sobre o Governo Lula, as políticas de Bolsonaro, a população brasileira e, sobretudo, sobre a população do “norte” e sobre os povos indígenas.
Eu fui obrigado a ouvir, sem poder sair do lugar, que o principal problema do Bolsonaro é que ele não foi “empático” com as pessoas; as pessoas pobres não querem trabalhar porque contam com bolsa-família; que a experiência da população ribeirinha é marcada pela existência de pais que sistematicamente estupram e exploram as filhas; que os indígenas, na verdade, não são “índios” mais porque se vestem e se portam como o restante da população; que a situação do Brasil e da população brasileira está muito pior, hoje, sob o governo Lula, do que quando era governado por Bolsonaro, dentre outra pérolas.
Mas o meu desespero não advinha somente, no que eu ouvia, mas sobretudo do que eu pensava a partir do que eu ouvia, sobretudo da boca da jovem senhora. Se uma médica, professora universitária que desenvolve projetos de extensão com a população ribeirinha, assumia como suas e como verdadeiras, as des-informações e as posições da direita bolsonarista, como vislumbrar um horizonte de expectativas mais otimista?
Para mim, foram três horas de viagem que duraram dias, inclusive porque a conversa continuou reverberando, como se vê, em minha mente.
Por isto e por muito mais, neste início de ano me vejo pensando que 2026 será ano de muitas viagens, literal e simbolicamente falando, e algumas delas podem nos levar ao fundo do abismo, ou evitar que nos aprofundemos mais ainda na barafunda inóspita em que nos metemos.
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

