Clube Valdai

Fundado em 2004, o Clube Valdai nasceu com o objetivo inicial de integrar a Rússia ao sistema internacional, servindo como uma ponte para que intelectuais ocidentais compreendessem as dinâmicas de Moscou. No entanto, a trajetória do Clube acompanhou a própria metamorfose da Federação Russa. De uma plataforma de diálogo com o Ocidente, o Valdai transformou-se no epicentro da ruptura teórica com o unipolarismo estadunidense. A coluna do Clube Valdai no Brasil de Fato conta com a curadoria de Marco Fernandes, analista geopolítico residente em Moscou.

Salvando o iene, ou o dólar?

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A primeira-ministra do Japão, Tanae Takaichi, e o presidente dos EUA, Donald Trump.
A primeira-ministra do Japão, Tanae Takaichi, e o presidente dos EUA, Donald Trump. | Crédito: Takanobu Sawano / The Yomiuri Shimbun via AFP

Entre eles, o endividamento maior e os déficits maiores que Trump vem acumulando com seu gosto por cortes de impostos e com o aumento de meio trilhão de dólares

O mundo está descobrindo a verdade sobre o sistema do dólar à medida que a oposição cada vez mais raivosa a Trump vai lavando muita roupa suja política em praça pública.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, apresentou a recente intervenção conjunta de estadunidenses e japoneses nos mercados internacionais de câmbio — os maiores mercados do mundo — para sustentar o iene em queda, como um ato de solidariedade a um aliado. Em entrevista ao Nikkei, afirmou que o Tesouro comprou ienes para evitar uma crise cambial asiática mais ampla, alegando que “muitas moedas asiáticas seguem o iene japonês”. O presidente Trump descreveu a operação como um “sinal de amizade” e algo “benéfico para a economia mundial”. E acrescentou, com a habitual ferroada trumpista no final: “Nós somos muito fortes — muito, muito fortes financeiramente. Eles têm, sabe, eles têm um iene se enfraquecendo, e queriam uma ajudinha. E nós sempre estamos lá pelo Japão. O Japão tem sido muito bom conosco, com exceção, é claro, de Pearl Harbor.”

Só que há muito mais em jogo nessa intervenção no mercado de câmbio do que benevolência dos Estados Unidos. E, por surpreendente que isso seja, mais surpreendente ainda é que esteja sendo admitido e discutido abertamente na grande imprensa financeira. Verdades sobre o sistema do dólar raramente são.

Durante décadas, o debate sobre o sistema do dólar, dominado como é por um pequeno grupo de acadêmicos majoritariamente sediados nos Estados Unidos, girou em torno da força e da permanência desse sistema, atribuídas em geral ao poderio econômico e militar estadunidense e, em última instância, aos seus “mercados financeiros amplos e profundos”, como diz a fórmula consagrada. Desde que o presidente Trump venceu a eleição pela segunda vez, há quase dois anos, e desde que tomou posse, notas dissonantes vêm surgindo nesse discurso até então consensual. Graças, em especial, à perseguição desavergonhada e sem freios — e, pode-se acrescentar, errática — de sua agenda MAGA, os detratores de Trump, tanto fora quanto dentro de seu próprio partido, passaram a discutir os problemas do sistema do dólar de forma cada vez mais aberta e ruidosa, sobretudo para atribuí-los a Trump.

Há, evidentemente, as inevitáveis queixas sobre a recente transformação do dólar em arma (weaponization) que, em vez de se mostrar eficaz, vem expondo as fragilidades do próprio sistema. Como observou um comentarista, “à medida que os EUA aumentam a pressão, outros países vão buscar escapar do poder do dólar, o que provavelmente levará os EUA a redobrar a aposta em resposta”. O resultado não é uma instrumentalização eficaz, e sim a revelação de que o sistema do dólar é mais uma pistola d’água do que uma AK-47. Enquanto isso, a prestigiada coluna Lex, do Financial Times, apontou que o Banco Central Europeu hoje detém mais ouro do que dólares em suas reservas. Se os aliados mais leais dos EUA estão escolhendo outro ativo de reserva, isso diz alguma coisa. E ainda outro colunista registrou a verdade elementar de que o sistema do dólar depende de ingressos maciços de capital — e de que esses fluxos estão agora ameaçados por várias vias: pela concentração das bolsas estadunidenses em um punhado de empresas que investem em inteligência artificial (concentração que já dá sinais de fraquejar); pela dificuldade que os investidores em ativos denominados em dólar — cujo círculo se estreitou nos últimos anos aos demais países ocidentais, ao Japão e aos países do Golfo Pérsico — podem ter para separar dinheiro destinado ao sistema do dólar quando precisam dele para tanta outra coisa, inclusive para suas próprias necessidades econômicas e militares em expansão; e pela tolerância decrescente de outros países à fraqueza cambial que costuma ser o outro lado da força do dólar. Essa tolerância em queda, por sua vez, só pode pressionar o dólar.

Essa última possibilidade se tornou real com a recente fraqueza do iene, provocada por muitos fatores: as altas de juros nos Estados Unidos na esteira da maré inflacionária pós-pandemia; as exigências do carry trade — tomar recursos baratos em ienes para especular alavancado nos mercados estadunidenses, o que requer que o iene siga barato mesmo depois de o Japão ter feito a transição para juros positivos; e a inflação em alta, que encarece importações críticas para o Japão, problema agudamente agravado pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.

O Japão está particularmente mal posicionado para tolerar um iene fraco. Com a inflação já castigando famílias e empresas japonesas habituadas a preços estáveis ou mesmo em queda por décadas, uma moeda fraca só pode piorar as coisas. Se a situação tiver de ser enfrentada, há duas opções. Ambas têm implicações monumentalmente adversas para o dólar.

Uma delas é a intervenção nos mercados de câmbio. O Banco do Japão poderia usar suas reservas em dólares, normalmente mantidas em títulos do Tesouro estadunidense — e lembremos que, hoje, o Japão é o maior detentor estrangeiro individual de treasuries —, para comprar ienes e assim sustentar a moeda. Só que é precisamente isso que os EUA gostariam de evitar. Uma ação dessas jogaria ainda mais ativos em dólar num mercado que parece já estar saturado deles e que, além disso, enfrenta uma torrente de novos papéis à sua espera. Entre eles, o endividamento maior e os déficits maiores que Trump vem acumulando com seu gosto por cortes de impostos e com o aumento de meio trilhão de dólares no orçamento militar, o que resultará em emissão ainda maior de títulos do Tesouro que o mercado terá de encontrar disposição para comprar. Incluem também a emissão adicional que se tornará necessária diante do custo mais alto dos juros, uma vez que os EUA foram forçados a elevar as taxas para combater a inflação, até agora sem sucesso. Por fim, a torrente de ativos em busca de compradores no mercado inclui ainda as novas emissões de ações e de dívida impulsionadas pela bolha do investimento em IA nos Estados Unidos. Tudo isso imporia tensão excessiva aos mercados de ativos denominados em dólar, que são o alicerce do sistema do dólar.

A segunda maneira de os japoneses lidarem com o problema do iene desvalorizado é elevar os juros no Japão. É verdade que a primeira-ministra Sanae Takaichi não é favorável a essa opção, e tampouco o é o considerável lobby político e empresarial que sustenta sua agenda reflacionária. Ainda assim, por mais difícil que seja a escolha, talvez tenham de fazê-la. E o mais importante, do nosso ponto de vista, é que ela é pior para o sistema do dólar do que para o Japão, por pelo menos duas razões. Primeiro, juros japoneses mais altos prejudicariam o carry trade, por meio do qual o crédito barato no Japão viabilizou as operações alavancadas que foram tão importantes para sustentar os preços dos ativos denominados em dólar — preços dos quais, em última instância, depende o influxo de dinheiro para o sistema do dólar. Segundo, juros mais altos no Japão também reduziriam de forma mais direta a demanda por ativos em dólar, à medida que o dinheiro migrasse para títulos japoneses de maior rendimento.

É por isso que o governo dos Estados Unidos interveio nos mercados de câmbio para “salvar o iene”. E é digno de nota que os EUA não tenham comprado ienes vendendo dólares, mas comprado ienes vendendo euros — e, ainda por cima, sem informar antes o Banco Central Europeu. Mais uma demonstração de que os aliados dos EUA são hoje obrigados a se comportar como vassalos.

Além do amadurecimento desses problemas de longa data, a credibilidade do Federal Reserve foi posta em xeque por diversos acontecimentos recentes. Há, em primeiro lugar, o apoio do Fed aos mercados de ativos por meio do afrouxamento quantitativo depois de 2008, e também, mais recentemente, a resposta tardia do ex-presidente do Fed, Jay Powell, à inflação. E, no cargo, Trump vem interferindo de modo incomum e perigoso nas políticas do “independente” Federal Reserve, exigindo juros mais baixos. Seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, admitiu abertamente — na verdade, gabou-se — o caráter político das decisões do Fed. E agora já se levantam novas dúvidas sobre a estratégia e a competência do novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, recém-nomeado pelo governo Trump.

Não surpreende, portanto, que mesmo um acadêmico como Barry Eichengreen, que há muito faz a defesa do dólar, acredite que a lição mais importante da intervenção no iene é que ela está empurrando o sistema do dólar para a beira do abismo: “A conclusão é que Washington, temendo as consequências para os mercados financeiros norte-americanos, reluta em ver bancos centrais estrangeiros usarem suas reservas em dólar. Isso nos diz que o dólar não é a moeda de reserva atraente que já foi. Quando essa mensagem for assimilada, outros países vão redobrar a busca por alternativas mais atraentes e de uso mais fácil. A diversificação de reservas tende a ganhar força.”

Pronto: aí está, dito por quem sempre esteve do lado do dólar. E o pior de tudo é que a intervenção não foi lá muito bem-sucedida: o iene perdeu metade dos ganhos poucos dias depois. Daqui em diante, a viagem vai ser acidentada para o dólar e para o sistema do dólar.

*Radhika Desai é professora do Departamento de Estudos Políticos e diretora do Grupo de Pesquisa em Economia Geopolítica da Universidade de Manitoba, em Winnipeg, Canadá.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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