Carol Santos*
No último dia 24 de janeiro completou-se um mês da morte de Tainara. Um mês em que o tempo passou, mas a dor permanece. A sociedade e o Estado seguiram em frente, e Tainara corre o risco de ser empurrada para o esquecimento, reduzida a mais uma estatística. Não podemos aceitar isso. Por trás de cada número existe uma mulher, um corpo violentado, uma vida atravessada pela violência.
Tainara foi vítima de feminicídio. Após ser brutalmente arrastada por cerca de um quilômetro, ela sobreviveu à tentativa e permaneceu hospitalizada por aproximadamente um mês, lutando diariamente pela vida. As violências sofridas provocaram danos gravíssimos e irreversíveis em seu corpo. Seu corpo carregou as marcas profundas da misoginia e da violência extrema praticadas pelo feminicida. Ela sobreviveu à tentativa, mas as consequências dessa brutalidade foram fatais.
É fundamental afirmar: se Tainara tivesse vencido as sequelas graves deixadas em seu corpo, passaria a viver na condição de uma mulher com deficiência, enfrentando diariamente o capacitismo, a negligência institucional e o abandono quase total do Estado realidade comum a tantas sobreviventes de tentativas de feminicídio no Brasil.
Ela deixa dois filhos órfãos de mãe e uma mãe destroçada, que clama por justiça. A violência não se encerra na vítima direta: ela atravessa famílias, destrói vínculos e impõe lutos e lutas que não têm prazo para terminar.
A violência não acaba quando uma mulher sobrevive a uma tentativa de feminicídio. Como ocorre com muitas mulheres vítimas dessas tentativas, a brutalidade deixa sequelas profundas e irreversíveis. Muitas sobreviventes tornam-se mulheres com deficiência; outras permanecem em estado vegetativo ou com comprometimentos severos, necessitando de cuidados permanentes, assistência contínua e suporte do Estado que, na maioria das vezes, não chega.
Aqui no estado, estamos revoltadas diante da notícia de 9 feminicídios apenas nos primeiros 20 dias do ano, além de inúmeros casos graves de tentativas de feminicídio. Dados do Observatório de Feminicídios da Lupa Feminista apontam que, em 2025, já foram monitorados 89 casos de feminicídio no estado. O Rio Grande do Sul figura, ao longo da última década, entre os estados que mais matam mulheres no país, ocupando o terceiro lugar, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais, em um Brasil que está entre os países que mais matam mulheres no mundo. Esse cenário escancara a ausência de políticas públicas efetivas e o profundo descaso do governo com a vida das mulheres. Em nível nacional, 1.470 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025. Esses números evidenciam uma violência estrutural, contínua e anunciada.
Desde 2022, lutamos incansavelmente para dar visibilidade à pauta das sobreviventes de tentativa de feminicídio, abrindo diálogo no país por meio de movimentos sociais, ações políticas e projetos construídos por nós. Hoje, estamos atuantes no Observatório de Feminicídios da Lupa Feminista, integramos o Comitê da Campanha Levante Feminista Contra o Feminicídio, em âmbito nacional e estadual, a Frente Nacional das Mulheres com Deficiência, além de grupos e articulações que contribuem para a construção e o aprimoramento de legislações sobre violência contra as mulheres.
Nossa luta é por uma política pública de cuidado urgente, que garanta dignidade às sobreviventes: atendimento psicológico, assistência social, acesso a aparelhos assistivos, cuidados permanentes e condições reais para que possam refazer suas vidas com segurança, autonomia e sem medo.
O Estado precisa se responsabilizar por não proteger a vida das mulheres. A violência contra nossos corpos ultrapassa o físico, atinge o psicológico, o social e avança também no campo digital, que tem se tornado uma terra sem lei.
Justiça por Tainara é memória, denúncia e luta política.
Não aceitaremos mais o abandono, o silêncio e a omissão. Chega de contar corpos: queremos políticas públicas que garantam a vida das mulheres.
*Carol Santos é ativista feminista, sobrevivente de tentativa de feminicídio e faz parte do Movimento Feminista Inclusivass.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

