Desde que Álvaro Damião assumiu a Prefeitura de Belo Horizonte, em março de 2025, a cidade tem vivenciado uma sucessão de conflitos, insatisfações e questionamentos relacionados aos serviços públicos municipais. Há uma crise dos serviços públicos que hoje se expressa em diferentes áreas e revela, na verdade, uma crise de direção política e de projeto de cidade.
Mais do que avaliar ações pontuais da prefeitura, é necessário compreender quais prioridades têm orientado a gestão municipal e quais consequências essas escolhas produzem para a vida dos belo-horizontinos, especialmente daqueles que dependem cotidianamente dos serviços públicos.
A tentativa de demissão de trabalhadores do SAMU revertida por mobilização dos trabalhadores e usuários da saúde; greve dos professores devido a estrutura precária da escola, ausência de materiais didáticos e por valorização salarial e que ainda enfrentam dificuldade para dialogar com a prefeitura; acompanhamos no ano passado as reivindicações dos trabalhadores da limpeza urbana por melhores condições de trabalho; recorrentes manifestações espontâneas de usuários dos transportes públicos ocorrem nas estações de integração do BRT Move, especialmente na estação São Gabriel; e insatisfação crescente com a manutenção da cidade revelam um cenário que vai além de problemas pontuais.
As decisões recentes favorecem uma BH cada vez mais desigual
Quando observados em conjunto, esses acontecimentos apontam para uma questão mais profunda a qual revela uma crise de um modelo de gestão incapaz de responder às necessidades da maioria da população.
A Câmara Municipal também tem responsabilidade com a situação em que a cidade se encontra. Em vez de exercer de forma mais efetiva seu papel de fiscalização do Executivo e de acompanhamento da qualidade dos serviços públicos, parcela significativa dos vereadores tem concentrado sua atuação em pautas de caráter ideológico e conservador, muitas vezes distantes dos problemas concretos enfrentados pela população.
Enquanto Belo Horizonte convive com desafios na saúde, na educação, no transporte e na manutenção urbana, o Legislativo frequentemente se vê envolvido em debates simbólicos, homenagens e projetos de pouca relevância para a vida cotidiana dos moradores. Essa desconexão contribui para ampliar a sensação de que as instituições municipais têm dificuldade de responder às demandas mais urgentes da cidade.
A percepção de deterioração dos serviços públicos está cada vez mais presente no cotidiano da cidade. Ao mesmo tempo, a administração municipal justifica medidas de contenção alegando limitações orçamentárias. No entanto, o debate público tem demonstrado que a questão central não é apenas a existência ou não de recursos, mas as prioridades estabelecidas pela gestão.
O caso do transporte coletivo é emblemático. Belo Horizonte possui uma das tarifas mais caras do país e, ainda assim, convivemos com ônibus lotados, longos tempos de espera e condições de trabalho frequentemente questionadas pelos próprios trabalhadores do setor. Embora o município destine recursos significativos ao sistema por meio de subsídios, a percepção predominante entre os usuários é de que o serviço não apresenta melhorias compatíveis com os investimentos realizados.
Esse cenário torna-se ainda mais significativo quando lembramos que, no ano passado, uma proposta de implementação da tarifa zero foi apresentada para debate na cidade. Em vez de liderar uma discussão pública sobre uma alternativa defendida em diversas cidades brasileiras, o prefeito optou por se posicionar contra a proposta desde o início. Na Câmara Municipal, a maioria governista acompanhou a orientação do Executivo e rejeitou o projeto sem que houvesse um debate mais aprofundado com a população.
O episódio reforçou a percepção de uma gestão que prefere bloquear o debate sobre mudanças estruturais no transporte público a enfrentar os problemas de um modelo que se mostra cada vez mais caro para os usuários e insuficiente para atender às necessidades da cidade.
Os problemas da mobilidade urbana, no entanto, vão muito além do transporte coletivo. Belo Horizonte convive diariamente com um trânsito cada vez mais sobrecarregado, grandes congestionamentos e obras que se arrastam por meses ou até anos, impactando a rotina da população sem que os resultados sejam percebidos com a mesma intensidade. Ao mesmo tempo, a cidade avança lentamente na ampliação de alternativas de deslocamento, como a infraestrutura cicloviária e a valorização dos modos ativos de transporte.
Nesse contexto, causou perplexidade a decisão da prefeitura de demolir um trecho de ciclovia na Avenida Afonso Pena que já se encontrava em estágio avançado de execução. Mais do que um debate específico sobre uma obra, o episódio reforçou a percepção de falta de planejamento e de continuidade nas políticas públicas.
Em uma cidade que precisa diversificar suas formas de mobilidade e reduzir a dependência do transporte individual motorizado, decisões dessa natureza alimentam dúvidas se há um projeto de circulação urbana sendo efetivamente construído para a capital mineira.
A situação torna-se ainda mais preocupante quando observamos que esses problemas ocorrem em um contexto de aumento do custo de vida. Para quem depende do transporte coletivo, dos serviços públicos de saúde e educação a deterioração desses serviços significa um impacto direto na qualidade de vida. São justamente os setores populares, especialmente os moradores das periferias, que mais sentem os efeitos dessas escolhas.
Talvez o principal problema da atual gestão não seja apenas a dificuldade de administrar ou responder a demandas específicas. O que parece faltar é um projeto de cidade capaz de articular desenvolvimento urbano, redução das desigualdades e fortalecimento dos serviços públicos.
Em vez de construir uma cidade mais inclusiva, as decisões recentes têm alimentado a percepção de uma Belo Horizonte cada vez mais desigual, onde investimentos e prioridades parecem distantes das necessidades da maioria da população.
Chama a atenção o fato de que as mobilizações sociais continuam ocorrendo de forma fragmentada. Trabalhadores da saúde lutam por suas pautas, professores defendem a educação pública, usuários reivindicam melhorias no transporte e moradores cobram mais investimentos em seus bairros. Todas essas lutas são legítimas e necessárias. O desafio colocado para os movimentos sociais e para os setores populares é construir pontos de encontro entre essas reivindicações.
A luta por cada serviço público faz parte de uma mesma disputa sobre qual cidade queremos construir. Por isso, fortalecer a organização popular nos bairros e periferias torna-se uma tarefa estratégica. É nos territórios que trabalhadores de diferentes categorias convivem, compartilham problemas semelhantes e podem construir coletivamente uma visão de cidade baseada na participação democrática, na justiça social e na garantia de direitos.
Organizar as pessoas na periferia é também uma forma de reunir trabalhadores de diferentes setores para pensar não apenas seus problemas imediatos, mas o futuro dos seus bairros e da cidade.
Mais do que denunciar os problemas do presente, Belo Horizonte precisa voltar a discutir seu futuro. A superação da crise atual passa não apenas pela mudança de políticas específicas, mas pela construção de um projeto popular de cidade que coloque no centro aqueles que diariamente fazem Belo Horizonte funcionar: seus trabalhadores, suas comunidades e sua população. BH é nois!
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