Por Jezulino Lúcio Mendes Braga
Sou filho de um operário e cresci em uma família com sete irmãos. Fui o único a concluir o ensino superior, seguir no mestrado e doutorado e, mais tarde, tornar-me professor na UFMG. Como um homem negro de pele clara, minha trajetória foi marcada pela superação de barreiras sociais e pelo enfrentamento das barreiras invisíveis que o racismo estrutural impõe, inclusive dentro da universidade.
O episódio recente, em que o professor Reginaldo Cordeiro dos Santos Junior foi impedido de entrar na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, não é um caso isolado.
É a prova de que, mesmo após anos de dedicação e conquistas acadêmicas, a cor da pele ainda define quem pode ou não ocupar determinados espaços. Esse não é um problema de indivíduos, mas de uma estrutura que atravessa a vida universitária e insiste em questionar a legitimidade de pessoas negras em lugares de prestígio.
Ao mesmo tempo, não podemos ignorar a situação dos trabalhadores terceirizados que atuam na segurança da universidade. Em sua maioria, são homens e mulheres negros, vindos das periferias, que executam ordens sob a pressão da instabilidade contratual e dos baixos salários. Embora tenham condições básicas de infraestrutura, carecem de formação em direitos humanos e relações étnico-raciais.
Exigir deles uma postura antirracista sem oferecer oportunidades educativas é transferir responsabilidades de uma estrutura racista para quem já é vítima dela.
É fundamental reconhecer que essa situação evidencia como o racismo estrutural afeta diferentes sujeitos de formas interligadas: o professor Reginaldo, que após uma longa trajetória de lutas, se vê revivendo traumas em um ambiente que ainda carrega resquícios de discriminação; e, por outro lado, o trabalhador terceirizado, que já enfrenta condições precárias de trabalho, acaba também sendo impactado por essas mesmas estruturas.
Esse caso nos mostra como o racismo opera em múltiplas camadas: atinge professoras, professores, técnicas e técnicos administrativo, estudantes negros e também recai sobre trabalhadoras e trabalhadores terceirizados. São histórias conectadas de exclusão que a universidade pública precisa enfrentar.
Não basta reconhecer o problema: é urgente que avancemos em políticas que afirmem o valor das vidas negras, que garantam formação e escolarização aos terceirizados e que construam um espaço verdadeiramente democrático e inclusivo.
Quando um professor negro é barrado em sua própria universidade, não é apenas ele que sofre: é a ideia de universidade pública, plural e transformadora que fica em risco. O desafio que se coloca diante de nós é claro: nenhuma barreira deve permanecer.
Jezulino Lúcio Mendes Braga, homem negro de pele clara e professor da UFMG.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

