Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Artes em Pauta

O APUBHUFMG+ é o sindicato dos professores e das professoras da Universidade Federal de Minas Gerais. A Coluna do APUBHUFMG+ é mantida pela diretoria da entidade e conta com textos elaborados, principalmente, por docentes da UFMG. Os textos que compõem a coluna tratam de educação, ciência, tecnologia, cultura e artes, que, no conjunto, compõem o trabalho desenvolvido nas universidades.

Grandes problemas precisam de ciência para serem resolvidos

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O Brasil ocupa hoje a 14ª posição mundial na produção de conhecimento científico | Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

O Brasil tem problemas, mas também cientistas com capacidade para soluções

Por Paulo Sérgio Lacerda Beirão

O país construiu um sistema de ciência e tecnologia robusto e respeitado no mundo, mas governantes e sociedade ainda ignoram o potencial dos pesquisadores para resolver seus problemas.

No dia 8 de julho, celebramos o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico. A data nos convida a uma dupla reflexão: há muito o que comemorar, mas também o que se lamentar. Ao mesmo tempo que aplaudimos os avanços da nossa Ciência e Tecnologia (C&T), convivemos com o drama de um financiamento instável. Essa incerteza financeira impede projetos de longo prazo, justamente os que geram avanços mais significativos para a sociedade.

Outro aspecto pouco contemplado nesse debate é o papel estratégico que a ciência pode desempenhar no desenvolvimento econômico e social do Brasil. O fato, frequentemente esquecido, é que o país conseguiu construir um sistema de C&T respeitado globalmente, superando um atraso histórico. Mesmo com as dificuldades enfrentadas, ocupamos hoje a 14ª posição mundial na produção de conhecimento científico, à frente de várias nações desenvolvidas. Em um mundo movido pela inovação, essa é uma grande vantagem competitiva.

As nossas universidades e instituições públicas são as grandes forças desse avanço, respondendo por mais de 95% da ciência nacional. Dispomos de instituições de excelência, com destaque mundial nas áreas de Ciências da Saúde, Agrárias, Humanas e Ambientais. 

O sistema de C&T passou recentemente por um período doloroso de negação do conhecimento, mas já demonstra sua capacidade de recuperação. O nó da questão, hoje, é outro: essa riqueza intelectual é muito mal aproveitada. Muitas descobertas importantes não são apropriadas pela sociedade, deixando de gerar benefícios para a população. O capital intelectual do país raramente é convocado para o desenho de políticas públicas ou estratégias econômicas.

Resolver problemas complexos

A história, contudo, prova que a ciência brasileira consegue propor soluções quando é chamada. Foi o conhecimento científico que transformou o Cerrado — antes considerado terra improdutiva — em uma potência agrícola mundial. Foi a ciência que respondeu à crise do petróleo dos anos 1970, criando condições para uso do etanol como combustível e a tecnologia para extrair petróleo em águas profundas. Foi a nossa capacidade técnica que modernizou o sistema bancário, em resposta à hiperinflação (chegando agora à inovação do Pix), e que estruturou o SUS para atender ao preceito constitucional da saúde como direito de todos.

A pesquisa científica funciona investigando a fundo um problema, testando hipóteses com rigor e avaliando o que realmente funciona. Se temos cientistas prontos para aplicar esse método em qualquer área, por que a sociedade e os governantes não os consultam rotineiramente? A imprensa profissional já entendeu esse valor e recorre a eles diariamente para oferecer análises seguras e embasadas à população. O poder público e as empresas precisam fazer o mesmo.

A segurança pública ilustra bem esse desperdício. As pesquisas de opinião apontam a violência como a maior preocupação dos brasileiros. Trata-se de um problema complexo e multifacetado, mas as respostas apresentadas pelo debate político quase sempre se resumem a uma única receita: o aumento da repressão. O resultado prático está aí: o Brasil atingiu os maiores índices de letalidade policial do mundo em números absolutos e alta taxa de encarceramento, sem que isso trouxesse a segurança desejada. 

Para resolver problemas complexos como este precisamos de dados, inteligência e estratégia. Convocar o nosso sistema de C&T para estudar as causas da violência e formas de resolvê-las daria aos governos federal, estaduais e municipais o subsídio necessário para criar políticas públicas eficazes e duradouras, e em favor da atividade policial apropriada.

O Brasil tem problemas, mas também tem nos seus cientistas a capacidade de contribuir para encontrar soluções. Falta-nos a maturidade política de aprender a utilizar essa capacidade.

Paulo Sérgio Lacerda Beirão é professor emérito da UFMG, ex-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e integrante da Diretoria Setorial Ciência, Tecnologia e Educação do APUBHUFMG+

Leia outros artigos da coluna Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Artes em Pauta, do APUBH, no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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