Por Helder de Figueiredo e Paula
Para Florestan Fernandes, a burguesia em países capitalistas periféricos como o Brasil estabelece uma relação de mútua dependência com o imperialismo. A tomada do poder do Estado pela burguesia no Brasil, que ocorreu por volta da década de 1930, não envolveu nenhuma das transformações sociais estruturais encontradas nos processos revolucionários similares ao que ocorreram na Inglaterra, na França e nos EUA. Essas reformas estruturais típicas das revoluções burguesas clássicas dos países capitalistas centrais costumam ser caracterizadas como revoluções agrícola, urbana, industrial, nacional e liberal-democrática.
Fernandes diz que os países de origem colonial que, como o Brasil, foram inseridos posteriormente no modo de produção capitalista, passaram por formas de desenvolvimento controlado de fora e voltado para fora, em que enormes parcelas da riqueza nacional continuaram sendo transferidas para o exterior, tal como ocorreu no período em que foram colonizados.
Apoio da burguesia à extrema-direita é um fenômeno mundial
As classes burguesas dos países centrais forjaram uma transformação capitalista nos países periféricos baseado na constituição de uma burguesia local ciente de que a dominação externa era a garantia e a legitimação de seu poder interno fortemente antinacional, antipopular e antidemocrático. Por isso, a burguesia aqui situada jamais assumiu qualquer compromisso nem mesmo com um projeto de nação, quanto mais com um projeto de nação soberana.
Atualmente, os principais pontos da agenda política do setor hegemônico da burguesia são:
. Alterar o marco legal ambiental para facilitar a atividade agromineral predatória, objetivo já alcançado com a aprovação pelo Congresso Nacional, no ano passado, do PL da Devastação que se transformou na Lei 15.190/2025;
. Terminar de realizar as privatizações das empresas públicas que restaram: como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, os Correios e o que restou da Petrobrás, bem como impedir a criação de novas estatais como a Terrabrás que cuidaria da utilização de nossas reservas em minerais críticos em prol do desenvolvimento do nosso país;
. Eliminar os tetos constitucionais da saúde e da educação;
. Realizar uma reforma administrativa para tornar o Estado máximo para a própria burguesia e absolutamente mínimo para a classe trabalhadora;
. Retirar o Brasil do BRICS e submeter, completamente, o país aos interesses dos EUA ao interditar qualquer projeto de soberania nacional e popular e manter nossa economia restrita à condição de exportadora de produtos primários e importadora de produtos de alta tecnologia e maior valor agregado.
O projeto neocolonial estadunidense ao qual está alinhado o setor hegemônico da burguesia reserva, ao Brasil, o papel de exportar commodities agrícolas e minerais com baixo valor agregado.
Trata-se, por conseguinte, de um projeto no qual não há lugar para as universidades públicas como instituições centrais ao desenvolvimento científico, tecnológico e cultural do nosso país. Isso porque, para a manutenção de uma economia agromineral-exportadora e predatória, na melhor das hipóteses, apenas áreas muito específicas do conhecimento produzido nas universidades são necessárias.
Essa é a razão pela qual, mais do que nunca, quem defende as universidades públicas deve se sentir convocado a lutar por um projeto de Brasil justo, soberano e desenvolvido.
O apoio da burguesia à extrema-direita no Brasil e no mundo
A parcela hegemônica da burguesia que atua no Brasil está localizada no setor do agronegócio, da mineração e do mercado financeiro. A existência de um projeto antinacional, antipopular e antidemocrático dessa burguesia fica demonstrada pelo apoio que ela deu à extrema-direita nas eleições de 2018, apoio esse que contribuiu para que o clã Bolsonaro dirigisse o executivo federal até o final de 2022.
Apesar das tensões e problemas da burguesia com o caráter grotescamente miliciano desse clã, ela não se vê representada pelo presidente Lula, mas ainda assim mantém o controle sobre o Estado porque está representada por partidos que compõem o governo de frente ampla do poder executivo, além de estar super representada no Congresso Nacional, em executivos estaduais, principalmente dos estados do sul e do sudeste, bem como no Poder Judiciário.
Enfrentamento dos EUA passa pela derrota da direita nas eleições
A perspectiva de volta da extrema-direita ao executivo federal é uma ameaça séria ao serviço público em geral e às universidades. O governo Bolsonaro perpetrou ataques sistemáticos, tanto simbólicos, quanto materiais, às universidades públicas, pois colocou em funcionamento um projeto abertamente negacionista que atacou as ciências e tentou inviabilizar a produção do conhecimento científico.
Longe de ser um acidente histórico, o apoio da burguesia à extrema-direita é mera expressão dos limites e das contradições da democracia liberal burguesa. É a crise de representatividade e de confiança nesse tipo de democracia que dá à extrema-direita seu grande apelo popular.
Pelo menos três fatores explicam esse apelo: 1- o comportamento falsamente anti-sistêmico de políticos da extrema-direita; 2- a defesa da democracia liberal burguesa pelos setores progressistas da sociedade, em grande medida decorrente de um necessário contraponto ao projeto autoritário da extrema-direita; 3- o fato dos partidos de esquerda que ocuparam os espaços institucionais passaram a ser vistos por amplos segmentos da classe trabalhadora como representantes e defensores de uma estrutura institucional em descrédito.
O apoio da burguesia à extrema-direita é um fenômeno mundial. Um exemplo cabal desse apoio pode ser observado nos próprios EUA antes propalado, falsamente, diga-se de passagem, como modelo de “democracia”. Hoje os EUA são governados por um expoente da extrema-direita mundial com amplo apoio do segmento hoje hegemônico na burguesia estadunidense.
Desde o início do segundo governo Trump são sucessivos e intensos os casos de censura sobre as universidades estadunidenses. No feriado de 4 de Julho de 2026, centenas de integrantes mascarados do grupo supremacista e neofascista Patriot Front marcharam em Washington. Por fim, Donald Trump organizou uma coalizão internacional para criminalizar movimentos de esquerda e defensores dos direitos humanos.
A ONU já se manifestou publicamente sobre a tentativa de Washington de silenciar movimentos e pessoas sob o falso pretexto de “Combate ao terrorismo doméstico e à violência política organizada”. Aqueles que acompanham a geopolítica, todavia, sabem que Trump não dá a menor importância para a ONU e para outras instituições criadas pelos próprios EUA durante a instauração do sistema imperialista após a 2ª Guerra Mundial e que hoje Washington decidiu fragilizar agora que as regras do jogo por eles estabelecida já não os beneficia como antes.
O apoio da burguesia à extrema-direita nos EUA e no resto do mundo é um efeito da crise prolongada do capitalismo, que se tornou visível desde a crise financeira de 2008 e 2009, e que expressa os limites da intensificação da financeirização da economia, que foi levada ao extremo nos EUA. Essa crise marca o fim de um ciclo iniciado na década de 1980 a partir da qual a desregulamentação do mercado financeiro acelerou a financeirização da economia, permitiu a intensificação da transferência de riquezas do mundo para o capital financeiro sediado em Washington.
A contradição central hoje é entre imperialismo estadunidense e Sul Global
O privilégio extraordinário de Washington de imprimir a moeda da qual todos os países do mundo dependem para comprar e vender seus produtos no mercado internacional, tanto quanto o fato de que a poupança da maioria dos países se baseou na compra de títulos da dívida estadunidense, permitiu aos EUA financiar sua enorme máquina de guerra espalhada por todo o mundo, mas também provocou, como subproduto ou efeito colateral, a desindustrialização desse país e a emergência da China como nova potência mundial industrial e tecnológica.
Como desdobramentos da crise estrutural atual do capitalismo, iniciada há cerca de duas, podemos citar:
. A ampliação da exploração e a retirada de direitos da classe trabalhadora;
. O aprofundamento da disputa geopolítica por recursos naturais, bem como da devastação da natureza em países agromineral-exportadores como o Brasil;
. O enfraquecimento das tênues iniciativas de contenção do aquecimento global, mesmo diante do aumento de eventos climáticos extremos e riscos à permanência da vida humana no planeta.
. O aumento da instabilidade política no mundo por meio das guerras e agressões a outros países promovidas pelos EUA, do genocídio contra o povo palestino decorrente da agenda sionista e imperialista estadunidense no Oriente Médio e da tentativa de genocídio anunciada abertamente por Trump quando, no meio da guerra promovida contra o Irã, afirmou em sua rede social que uma civilização inteira iria morrer.
Já há algum tempo surgiram sinais do início do declínio da hegemonia dos Estados Unidos da América (EUA) em função do crescimento econômico, científico e tecnológico da China e da reação de países do Sul Global que começaram a criar mecanismos para o comércio internacional não totalmente dependentes do dólar, que foi uma reação ao uso reiterado do dólar como arma política materializada por meio de sanções unilaterais e bloqueios de reservas financeiras de países não alinhados aos interesses estadunidenses.
Diante disso, diversos países do Sul Global, principalmente aqueles organizados em torno do bloco BRICS, passaram a diversificar suas reservas internacionais e a reduzir a compra de títulos da dívida dos Estados Unidos, além de buscar ampliar as relações econômicas sul-sul mediadas por moedas locais.
O movimento atual dos EUA em busca da manutenção de sua hegemonia
Para preservar sua hegemonia, os EUA iniciaram um agressivo e generalizado protecionismo comercial e intensificaram o uso de sua capacidade militar para impor seu domínio sobre o mundo, ao mesmo tempo em que começou a enfraquecer o sistema imperialista baseado em instituições internacionais como a OCDE, a OMC, o Banco Mundial, o FMI, a ONU e até mesmo a OTAN que passou a ser abertamente criticada por Donald Trump que pressiona sobre seus vassalos europeus a aumentarem os investimentos em gastos militares e os lucros da indústria armamentista estadunidense, sob o argumento de que os EUA não podem mais sustentar “sozinhos” a segurança europeia.
Um dos objetivos estratégicos dos EUA na atualidade é ter acesso amplo e sem a necessidade de estabelecer negociações ou oferecer contrapartidas aos países que detêm os recursos naturais mais cobiçados na atualidade: minerais críticos essenciais para a mudança da matriz energética essencial para redução das emissões de carbono, para fabricação de equipamentos militares de última geração, para a produção de chips que está na vanguarda da disputa tecnológica como as indústrias aeroespacial e da inteligência artificial, água para consumo humano e resfriamento de data centers, biodiversidade para a bioeconomia e biotecnologia, além do petróleo que continua sendo a principal fonte da energia consumida no planeta e a matéria-prima fundamental de uma vasta gama de produtos essenciais, tais como fertilizantes, plásticos, produtos farmacêuticos, produtos têxteis e uma enorme quantidade de produtos essenciais para toda a indústria química.
O outro objetivo estratégico dos EUA é limitar o acesso da China a tais recursos, assim como o desenvolvimento tecnológico e industrial chinês e o peso da economia do país rival no mundo.
A mera apresentação desta lista de recursos naturais cobiçados pelos EUA reforça a tese apresentada em artigo recente de José Luís Fiori (2026) de que “a grande batalha geopolítica sul-americana será travada no Brasil neste segundo semestre de 2026”. O autor nos alerta para o fato de que o imperialismo estadunidense não respeita outros Estados nacionais, nem mesmo dos países aliados, bem como de que a luta pela soberania é uma luta permanente e dinâmica que não pode ser vencida apenas mediante o apelo ao direito internacional ou às instituições multilaterais que vêm sendo sistematicamente ignoradas pelos EUA.
O autor adverte que a luta atual pelo direito de usarmos nossos recursos naturais para nosso próprio desenvolvimento enfrenta um poder assimétrico e que tem apoio de importantes setores da nossa elite civil e militar que “é subserviente por sua própria natureza e incapaz de entender a complexidade do mundo contemporâneo”. Apesar da enorme ameaça que paira sobre nós, esse é também o momento em que podemos iniciar a superação da nossa longa dependência externa e o reposicionamento do nosso país em um mundo em transição para um sistema multipolar.
Para acentuar o tamanho da ameaça que enfrentamos vale lembrar o fato de que começamos o ano de 2026, com o ataque dos EUA à Venezuela, no dia 3 de janeiro, que culminou com o sequestro do presidente daquele país, Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores. O próprio Donald Trump confessou que o principal interesse dos EUA era o petróleo venezuelano.
Existe um grupo de refinarias nos EUA especializada no processamento do petróleo pesado venezuelano que é único no mundo e que foram construídas para esse fim. A interrupção do fluxo desse petróleo iniciada com a afirmação da soberania da Venezuela por Hugo Chávez e seu sucessor Nicolás Maduro deixou essas refinarias situadas no Texas e na Louisiana parcialmente subutilizadas.
Quem descarta completamente a hipótese de uma intervenção militar dos EUA no Brasil na próxima década pode estar subestimando a motivação por detrás da decisão do governo estadunidense de considerar o Comando Vermelho e o PCC como organizações criminosas.
Embora existam hoje restrições legais a uma intervenção militar no Brasil, caso o presidente dos EUA considerem que o PCC e o Comando Vermelho promovem ações terroristas em solo norte-americano e são acobertados pelo governo brasileiro, Trump justificou a ação em solo venezuelano pela acusação insólita de que Nicolás Maduro era chefe de um cartel de tráfico internacional. Maduro e sua esposa continuam presos nos EUA, a Venezuela continua sob intervenção militar e nada foi feito contra isso, nem no plano doméstico dos EUA e nem no plano internacional.
Nós não temos bomba atômica, nossas forças armadas são hoje equipadas pelos EUA e são formadas, desde o golpe de 1964, pela doutrina anticomunista norte-americana. Ademais, nós não dominamos geograficamente um estreito por onde passa 20% do petróleo consumido em todo o mundo e nem possuímos um sistema de defesa de dissuasão como o Irã. Por isso, nossa situação atualmente é frágil e torna-se essencial a elaboração de uma estratégia para aumentar nossa capacidade militar de defesa e reduzir nossa dependência dos EUA.
Nesse momento, precisamos de ações corajosas, mas bem calculadas de resistência ao assédio estadunidense. Essas ações, ao meu ver, passam por um alinhamento mais efetivo do Brasil com China e Rússia, países soberanos e não alinhados com Washington, que compõem com Brasil o bloco BRICS. O PIB do Brasil equivale a pouco mais da metade de todo o PIB da América do Sul. Somos uma potência econômica e temos um enorme potencial de desenvolvimento. A chave para transformar esse potencial em realidade depende da reafirmação da nossa soberania, que passa por investimentos em ciência e tecnologia, bem como pela criação de uma capacidade militar de defesa dos nossos recursos e do nosso território.
O Brasil possui algumas das maiores reservas mundiais de minerais críticos que são essenciais para a transição energética global. Temos a 2ª maior reserva de terras raras e a 2ª maior reserva de grafita do mundo, temos a maior reserva de nióbio e a 6ª maior reserva de lítio. Temos ainda uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, com as fontes renováveis atendendo a quase 45% da nossa demanda de energia primária. Mais de 80% da nossa eletricidade é proveniente de hidrelétricas, mas esse índice pode aumentar com a expansão da oferta de energia solar e eólica.
Temos uma das maiores reservas de água doce do planeta, embora sua distribuição seja desigual em nosso território e existam processos de redução da oferta e da qualidade da água decorrentes da intensificação dos fenômenos climáticos e da degradação ambiental resultante de ações predatórias do agronegócio e da exploração mineral.
Concretamente, no momento atual, o governo brasileiro precisa exercer seu direito à adoção de medidas de reciprocidade contra as novas e recentes sobretaxas aplicadas aos produtos brasileiros. A lei que autoriza o governo a adotar essas medidas foi aprovada no ano passado por um Congresso Nacional majoritariamente alinhado com nossa burguesia antinacional. Apesar desse aspecto fundante da nossa burguesia, a aprovação da lei revela contradições entre os setores da burguesia interna e os interesses estadunidenses de controle indiscriminado dos nossos recursos, sem quaisquer contrapartidas.
A adoção de medidas de reciprocidade certamente terá impactos negativos na nossa economia, mas os impactos precisam ser avaliados também tendo em vista seus desdobramentos futuros e o principal desdobramento da adoção agora de contramedidas é a aceleração da redução da dependência econômica do Brasil em relação aos EUA. Embora tal dependência hoje já seja bem menor do que no passado, ela ainda aparece como uma dimensão importante das nossas vulnerabilidades diante do império estadunidense.
Isso implica em uma reorientação da nossa política externa que, nos últimos anos, tentou manter uma postura de neutralidade diante das disputas entre China e Rússia como principais lideranças dos BRICS, de um lado, e os EUA de outro lado. Possivelmente em uma tentativa de não desagradar Washington e de manter uma posição neutra diante da disputa crescente entre EUA e China, o Brasil também não aderiu ao projeto Cinturão e Rota. O Brasil exerceu a presidência provisória do G20 em 2024 e a do BRICS em 2025. Aparentemente, valorizou mais a primeira do que a segunda.
Possivelmente com o intuito de não desagradar Washington, a diplomacia brasileira e o presidente Lula contribuíram, decisivamente, para o isolamento da Venezuela que culminou na invasão do país vizinho que figurava como exemplo de resistência ao domínio imperial dos EUA e de exercício da soberania. O Brasil questionou as eleições da Venezuela embora não tenha dito nada sobre eleições suspeitas em outros países da América do Sul, além de vetar a entrada da Venezuela nos BRICS. Esse erro terrível, por outro lado, não se repetiu em outros momentos nos quais o governo brasileiro tem dado sinais de que não aceita uma tutela explícita e desmesurada dos EUA em nosso país.
Há relativo consenso, mesmo no seio da imprensa burguesa no Brasil, de que a afirmação da nossa soberania pelo presidente Lula foi um fator que contribuiu para a melhoria da aprovação de seu governo e, também, de que o clã Bolsonaro cometeu um erro estratégico em buscar que os EUA interviesse no funcionamento das nossas instituições e prejudicasse nossa economia com a imposição de taxas sem justificativa econômica razoável.
Uma pesquisa Datafolha, por exemplo, revelou que 52% dos brasileiros acreditam que o aumento das tarifas imposto pelos EUA tem como objetivo beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro e que 63% da população se diz informada sobre o assunto.
Ainda neste ano, o presidente brasileiro esteve reunido com o presidente dos EUA e declarou abertura do Brasil para investimentos norte-americanos em nosso país e interesse em negociar projetos de benefício mútuo. Todavia, esse tipo de oferta não condiz com os objetivos neocoloniais estadunidenses para o hemisfério ocidental. Esses objetivos foram abertamente declarados em um documento publicado pelos EUA em 4 de dezembro de 2025 com a nova Estratégia de Segurança Nacional estadunidense.
A nova doutrina anuncia a necessidade de dominação total dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental, justifica intervenções estadunidenses para controlar recursos e estabelece mecanismos para punir governos independentes e recompensar aliados subservientes. Estão previstos o uso de força militar, a coerção econômica e a interferência política para reafirmar o controle do hemisfério em benefício dos EUA.
O documento, literalmente, declara que os EUA “recompensarão e encorajarão os governos, partidos políticos e movimentos da região amplamente alinhados” com os princípios e a estratégia norte-americana”. O documento também deixa claro que o acesso estadunidense amplo e sem restrições aos recursos estratégicos do hemisfério ocidental é uma prioridade máxima para o país. Esse documento reforça o que Fiori (2026) destaca ao afirmar que o governo norte-americano não oferece mais nenhum tipo de projeto, estratégia ou utopia de desenvolvimento nacional aos países que pretende subjugar. Todo esse conjunto de acontecimentos torna ainda mais imperativa uma luta unitária e internacionalista contra o imperialismo estadunidense, que ameaça todo o Sul Global, mas especialmente os países latino-americanos.
Combinada à escalada de novas ações militares dos EUA sobre o resto do mundo, as grandes corporações de tecnologia da informação situadas naquele país atuam como agentes imperialistas, com forte poder para interferir na governança e nos processos eleitorais dos países da América Latina, como pôde ser visto nas últimas eleições presidenciais no Chile e na Argentina.
O próprio Trump, por outro lado, aparece entre as figuras mais impopulares do mundo, inclusive no Brasil. Segundo levantamento da Quaest (2024), 51% da população brasileira expressa receio em relação a uma possível intervenção ou interferência dos EUA no país. Além disso, 46% dos entrevistados possuem uma visão negativa sobre os Estados Unidos, enquanto 45% avaliam o presidente norte-americano de forma desfavorável.
Esse é um dado surpreendente se considerarmos como a mídia burguesa hegemônica no Brasil é historicamente estadunidense e o quão enorme é o peso da indústria cultural dos EUA em nosso país. Esse sentimento de repúdio à interferência externa em nosso país é algo, que todas e todos nós precisamos explorar com a afirmação do lema da 78ª SBPC – Ciência para Todos, Soberania, Desenvolvimento e Inclusão.
Esse trabalho de batalha de ideias é particularmente importante nesse período em que, devido ao calendário eleitoral, as pessoas ficam mais abertas a conversar sobre política e dada a importância de evitarmos a vitória das forças políticas que sempre defenderam nossa submissão aos interesses do império estadunidense.
Identificar a contradição fundamental e agir sob uma estratégia política
Defender investimentos na produção de conhecimento em ciência e tecnologia, a soberania de nosso país e o desenvolvimento de nossas forças produtivas voltado para a inclusão social é defender um projeto de país.
Por sua vez, reivindicar que governos e partidos políticos abracem tal projeto é a obrigação de movimentos sindicais, populares e de todas as pessoas comprometidas com a superação da nossa condição periférica e das iniquidades sociais que nos dilaceram como país. As entidades que nós representamos ou nas quais atuamos podem e devem pautar o debate político e exigir manifestações dos candidatos ao legislativo e ao executivo, embora saibamos do controle da burguesia sobre os meios de comunicação de maior alcance.
A construção da soberania de nosso país tem como pré-condição uma luta política em que todas e todos nós da comunidade acadêmica já estamos inseridas e inseridos e da qual todas e todos nós precisamos participar de forma mais organizada, com mais conhecimentos e orientados por uma perspectiva estratégia bem delineada. A dimensão dessa luta é definitivamente política e que nós não seremos bem sucedidos se limitarmos essa luta a espaços de agitação da pauta “Ciência para Todos, Soberania, Desenvolvimento e Inclusão”. Construir um país capaz de valorizar e promover, devidamente, o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural voltado para a inclusão social é também uma responsabilidade de todos nós. Nossa possibilidade concreta em fazê-lo, contudo, depende da ampliação da nossa compreensão sobre a realidade que queremos e precisamos transformar.
Isso nos leva à necessidade de identificar a contradição fundamental da sociedade na atualidade. Embora, no plano tático e conjuntural, a derrota da extrema-direita nas eleições de outubro de 2026 seja a grande prioridade de todas as entidades progressistas e revolucionárias no momento, eu defendo que a contradição principal que enfrentamos não é entre democracia x autoritarismo ou neofascismo, mas a estabelecida entre o sistema imperialista comandado pelos EUA e os movimentos anti-imperialistas, tanto populares, quanto institucionais, que estão hoje organizados nos países do sul global.
Do ponto de vista marxista que orienta a atuação política dos movimentos populares, que eu ajudo a construir há décadas, é fundamental identificar a contradição principal da realidade em que vivemos para orientar uma atuação política que seja capaz de promover as transformações necessárias à superação do capitalismo e suas iniquidades.
A identificação da contradição principal é fundamental no marxismo porque a transformação da sociedade depende da capacidade de seus atores revolucionários entenderem as estruturas de poder e dominação, dado a existência de uma hierarquia entre as diversas contradições existentes, que é determinada por tais estruturas.
Ademais, os movimentos populares, entidades sindicais e partidos de esquerda não detêm poder econômico e pessoas que os constituem precisam se sustentar vendendo sua força de trabalho na própria estrutura social que denunciam e tentam transformar. Identificar a contradição principal é central ao direcionamento estratégico desses recursos materiais limitados sobre os quais esses movimentos atuam. Sem identificar a contradição principal e mirar para sua superação como o horizonte estratégico, nossa análise da sociedade pode se perder em contradições secundárias e nossa ação política pode se tornar dispersa e pouco eficaz.
Agir no plano tático e imediato sem uma estratégia política elaborada a partir de uma análise concreta da situação concreta é, na minha avaliação, uma das maiores fragilidades da esquerda brasileira nas últimas décadas, desde que se perdeu como perspectiva unitária a construção do socialismo como etapa necessária à superação do capitalismo.
A utopia socialista deu lugar a uma perspectiva majoritariamente reformista dentro da qual só nos caberia tentar mitigar as enormes injustiças do sistema capitalista. Essas injustiças, todavia, só fizeram aumentar e conjunto de dimensões da crise capitalista hoje deixam cada vez mais claro que o capitalismo não pode ser melhorado e precisa ser superado, antes que sigamos irremediavelmente para a barbárie.
Na perspectiva marxista nós devemos procurar a contradição principal no nível da infraestrutura econômica, mas como nos lembram Vasconcelos, Silva e Schmaller (2013) Gramsci nos ajuda a entender que isso não deve implicar em incorrermos no reducionismo econômico ou ignorar a importância da superestrutura política, ideológica e cultural, onde está situada a contradição entre democracia e autoritarismo que devemos priorizar no plano da tática.
Gramsci argumenta que a superestrutura política possui autonomia relativa em relação à infraestrutura econômica e pode, inclusive, antecipar ou retardar suas transformações. Contudo, é no nível da infraestrutura econômica que está situada a contradição principal que estabelece os limites objetivos dentro dos quais as contradições situadas na superestrutura se movem. A contradição principal não anula as demais, mas indica como articulá-las.
A partir de todas essas afirmações, o tema da 78ª Reunião Anual da SBPC de 2026 – Ciência para Todos, Soberania, Desenvolvimento e Inclusão – aponta para a contradição principal que o Brasil e o mundo enfrentam na atual quadra histórica e que esse lema deve orientar não apenas a atuação da comunidade acadêmica mobilizada em torno das associações de pesquisa ou de entendidades como a ABC e a SBPC, mas também dos sindicatos da categoria docente das universidades públicas.
No Brasil, as universidades públicas são responsáveis pela produção da imensa maioria da pesquisa científica. Por isso, a defesa das universidades deve ser um compromisso de todos os setores organizados da classe trabalhadora. As pautas objetivas de interesse da categoria docente estão relacionadas à precarização das condições de trabalho nas universidades públicas e à falta de investimentos em bolsas para estudantes de graduação e pós-graduação.
A situação hoje criada após uma década de subfinanciamento compromete a formação dos especialistas nas diversas áreas de atuação profissional e a produção do conhecimento científico que constituem o trabalho que dá sentido à enorme dedicação e envolvimento profissional da categoria docente a qual eu pertenço.
Do ponto de vista do materialismo histórico-dialético que eu adoto como orientação da minha prática política, a democracia liberal burguesa pode ser caracterizada como uma ditadura do capital ou como uma ditadura da burguesia sobre a classe trabalhadora, assim como, na transição para o comunismo, seria necessária uma ditadura da classe trabalhadora sobre a burguesia, na qual a burguesia ainda possui capacidade econômica e a luta de classes continua a existir, embora essa mesma burguesia não possua mais a hegemonia na sociedade e o poder político sobre o Estado.
A democracia liberal é o resultado da constatação da natureza de classe do Estado Burguês instituído nos países capitalistas centrais e periféricos como o Brasil. Hoje, inclusive, a distinção entre as democracias liberais e os Estados autoritários é cada vez mais difícil de se fazer ao considerarmos, por exemplo, a situação da “democracia liberal” nos EUA.
No Manifesto Comunista, Marx e Engels já definiam o poder estatal burguês como uma espécie de “comitê” responsável pela gestão dos negócios comuns de toda a classe burguesa e rejeitavam a ideia de que exista um Estado neutro pairando acima das classes sociais e indiferente à luta de classes.
O uso da expressão “ditadura do capital” como forma de simplificar a natureza de classe da democracia liberal burguesa serve para assinalar que independentemente da forma de governo (monarquia, república presidencialista ou parlamentarista), o conteúdo essencial do Estado é a garantia da propriedade privada e da acumulação de capital.
Defender que a contradição central que hoje atravessa a sociedade está no plano da infraestrutura econômica e diz respeito ao conflito entre o imperialismo estadunidense e os movimentos e países que pregam a multipolaridade e estão situados no Sul Global não é reduzir a importância ou a centralidade tática atual da luta em defesa das liberdades democráticas, do serviço público e das universidades públicas hoje severamente ameaçadas pela perspectiva de volta da extrema-direita ao executivo federal no Brasil.
A derrota da coalizão da direita e da extrema-direita nas próximas eleições de outubro e novembro no Brasil é condição imprescindível para incidirmos sobre a contradição principal, ao defendermos uma ciência para todos e orientada para a soberania nacional, o desenvolvimento de nosso país e a inclusão social.
Helder de Figueiredo e Paula é presidente do Sindicato dos Professores de Universidades Federais de Belo Horizonte e Montes Claros (Apubh) e professor do Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

