Por Luis Costa
O anúncio de que a União Europeia deu aval ao acordo comercial com o Mercosul foi celebrado por governos e setores empresariais como um avanço estratégico em um mundo atravessado por disputas geopolíticas, guerras tarifárias e reorganização de zonas de influência. Embora o tratado ainda precise passar por aprovações do Parlamento Europeu e dos congressos nacionais do Mercosul, seu anúncio depois de um quarto de século de tratativas e expectativas frustradas já produz efeitos concretos: orienta decisões, sinaliza prioridades e começa a reorganizar atividades produtivas.
Em um cenário internacional cada vez mais instável, marcado pela disputa entre grandes potências e pela busca de novos alinhamentos econômicos, o Brasil não pode se dar ao luxo do isolamento. Mas acordos não são neutros e muito menos equilibrados. O “ganha-ganha” não passa de idealismo ingênuo ou discurso fácil, ainda mais quando essa negociação se dá entre realidades tão desiguais. Esses acordos expressam projetos de poder, definem prioridades e, geralmente, produzem vencedores e perdedores. A pergunta central, portanto, não é se o Brasil deve ou não negociar, mas a partir de quais princípios e com quais compromissos internos esses acordos são firmados.
Para quem acompanha de perto a realidade do campo brasileiro, o que se revela é a reafirmação de um modelo já conhecido: a centralidade das cadeias exportadoras de commodities agrícolas. Mesmo análises favoráveis ao acordo, produzidas por entidades representativas do agronegócio, reconhecem que seus benefícios dependerão de escala produtiva, acesso a crédito, infraestrutura logística, capacidade de cumprir exigências ambientais e integração agroindustrial. Em outras palavras, os ganhos não serão automáticos nem distribuídos de forma homogênea.
Essa constatação ajuda a entender por que a agricultura familiar praticamente não aparece no debate oficial sobre o acordo. As manifestações do governo brasileiro feitas até agora destacam a ampliação de mercados, previsibilidade comercial e atração de investimentos, mas silenciam sobre abastecimento interno, cesta básica e políticas de apoio a quem produz alimentos para o mercado local. Quando a produção de comida para o povo não entra na conta, ela tende a ser tratada como um detalhe periférico. Quem produz comida todos os dias simplesmente não aparece na foto.
É bem verdade que houve ajustes conquistados pelo governo brasileiro em relação às compras públicas de alimentos da agricultura familiar, preservando a autonomia nacional para a manutenção de políticas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Mas isso está mais para contenção de danos do que representar um ganho real. Manter políticas essenciais não altera o fato de que a terra, o crédito e os incentivos seguem sendo empurrados para outro lado.
A expansão da soja sobre áreas antes destinadas à produção de alimentos básicos tem contribuído para a alta do preço do feijão, por exemplo, item ainda central na alimentação da população brasileira, apesar da queda no consumo ao longo dos últimos anos. Não é que o brasileiro tenha deixado de comer feijão por escolha. Parte dessa mudança está associada a um sistema que torna cada vez mais difícil produzi-lo.
O ano de 2026 já começou com o preço do feijão preto registrando forte alta. Um dos principais fatores para este aumento, segundo analistas, é uma redução significativa da área plantada no estado do Paraná, um dos principais estados produtores de feijão. Ao mesmo tempo, dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que o ano de 2025 bateu recorde no volume de feijão exportado, sendo mais da metade das 533 mil toneladas para a Índia. Se dependesse apenas do protecionismo francês, continuaríamos encarecendo nosso feijão com arroz de todo dia pela rota asiática. Agora, a Europa também entra nessa disputa.
Quando a terra passa a ser orientada pela lógica da exportação, o prato do brasileiro vira variável de ajuste. A terra, o crédito e a logística passam a responder ao preço internacional das commodities, não às necessidades alimentares do país. Chamar soja e milho de “segurança alimentar”, como fazem alguns defensores do acordo, é confundir a segurança dos mercados com a alimentação do povo.
Há quem argumente que o acordo abre oportunidades para setores de maior valor agregado, como produtos premium, cadeias rastreadas e nichos sofisticados do mercado europeu. Mas essas “oportunidades” exigem investimentos elevados, certificações complexas e custos de conformidade que não recaem igualmente sobre todos. Sem políticas públicas robustas de apoio, essas exigências tendem a excluir pequenos produtores, reforçando a concentração produtiva e a dependência de intermediários. Na prática, quem já tem escala segue tendo vantagem.
Sustentabilidade, quando reduzida a filtro de mercado, corre o risco de se tornar mais uma barreira, e não um caminho de transição justa. Soberania alimentar não se constrói com acesso a mercados internacionais, e sim com a capacidade de um país produzir alimentos de forma diversificada, garantir renda no campo e assegurar que a população tenha acesso regular a comida saudável. Alimentação é direito, não subproduto da balança comercial.
Esse debate se torna ainda mais desigual quando lembramos que o Mercosul segue longe do nível de integração alcançado pela União Europeia. Enquanto os europeus negociam com políticas agrícolas comuns, orçamento integrado e instituições supranacionais consolidadas, os países sul-americanos ainda engatinham na coordenação regional. A pergunta a se fazer é simples: se ainda não conseguimos organizar plenamente nossas prioridades no continente, teremos força para equilibrar uma negociação com um dos blocos mais articulados do mundo?
Movimentos camponeses latino-americanos alertam, há anos, que acordos desse tipo costumam aprofundar a concentração de terras, reduzir a diversidade produtiva e empurrar pequenos agricultores para fora do mercado. Para quem vive da agricultura familiar, estes acordos comerciais não são abstrações diplomáticas: são decisões que reorganizam o território e definem quem permanece produzindo e quem é expulso da terra.
Há ainda um efeito menos visível, mas igualmente importante: o do financiamento. Quando a economia é empurrada para a exportação, o crédito tende a seguir o mesmo caminho. Recursos financeiros passam a priorizar cadeias com contratos internacionais, garantias robustas e retorno previsível, enquanto o crédito para a transição agroecológica e para a produção de comida de verdade é tratado como investimento de alto risco, apesar de ser o único capaz de garantir a resiliência climática.
O problema, portanto, não é o comércio em si, mas o projeto de país que ele expressa. Um acordo que fortalece a exportação de commodities, ignora a produção de alimentos básicos e trata a agricultura familiar como setor secundário compromete a soberania alimentar e aprofunda vulnerabilidades sociais, territoriais e climáticas.
Se o Brasil pretende negociar com o mundo, precisa fazê-lo a partir de princípios claros. Entre eles, o direito à alimentação, o fortalecimento da agricultura familiar, a diversificação produtiva e políticas públicas que garantam que produzir comida para o povo brasileiro seja prioridade e não efeito colateral de um acordo comercial.
*Luis Costa é diretor-executivo do Finapop
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato

