Finapop

O Finapop nasceu em 2020 como uma iniciativa que acredita que é possível fazer diferente: oferecer crédito e investimento com propósito, adaptado à realidade da agricultura familiar. Somos uma plataforma que conecta pessoas a cooperativas e associações de assentados da reforma agrária, promovendo a produção agroecológica, valorizando o coletivo, a justiça social e a sustentabilidade integral.

Avanços no crédito, desafios no acesso: os limites do Plano Safra para a agricultura familiar

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Produção de alimentos MST | Crédito: Matheus Alves

Sem mudanças nos instrumentos e nas formas de operação, o sistema continuará ampliando recursos sem ampliar, na mesma medida, o acesso.

Lançado em julho de 2025 pelo governo federal, o Plano Safra trouxe avanços importantes para o acesso ao crédito da agricultura familiar, como aumento de recursos, redução de juros e maior integração com outras políticas públicas. No Plano Safra 2025/2026, os recursos destinados aos pequenos agricultores chegaram a R$ 89 bilhões, com crescimento também no número de contratos de crédito rural. 

Apenas entre julho e dezembro de 2025, foram contratados R$ 40,2 bilhões em mais de 1,1 milhão de operações, segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. O próprio governo tem destacado o desempenho do Plano Safra como um período de “crescimento histórico” no acesso ao crédito da agricultura familiar.

Outro ponto relevante foi a redução das taxas de juros em linhas prioritárias, especialmente para agricultores que produzem alimentos básicos como arroz, feijão, mandioca e hortaliças. Dependendo da modalidade, as taxas podem variar entre 0,5% e 6% ao ano, o que tende a facilitar o acesso ao financiamento e estimular a produção de alimentos voltados ao consumo da população.

O crédito também passou a ser articulado com outras políticas públicas. Programas de compras públicas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), seguro agrícola, assistência técnica e garantia de preços mínimos passaram a compor uma estratégia mais ampla de fortalecimento da agricultura familiar. Além disso, houve expansão de linhas voltadas à agroecologia, bioeconomia e inclusão produtiva, além do aumento da participação de mulheres e jovens, que já representam cerca de 42% das operações realizadas no atual Plano Safra. 

Algumas linhas consideradas estratégicas também tiveram crescimento expressivo. O Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) Agroecologia registrou aumento de mais de 100% no número de operações, enquanto o Pronaf B, voltado às famílias de menor renda, ampliou em cerca de 60% a quantidade de contratos, sinalizando um esforço de ampliar o acesso ao crédito para os segmentos mais vulneráveis da agricultura familiar. 

Mas será que isso é suficiente?

Apesar dos avanços, o acesso ao crédito ainda permanece limitado, e o próprio funcionamento do sistema de crédito rural ajuda a explicar por quê. Estima-se que apenas cerca de 15% dos agricultores familiares conseguem acessar financiamento rural, em grande parte devido à burocracia bancária, exigências de garantias e à insuficiência de assistência técnica. Além disso, persistem desigualdades estruturais na distribuição territorial dos recursos do crédito rural.

Dados recentes mostram que, entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, o crédito rural desembolsado no país, incluindo os recursos para o agronegócio, chegou a R$ 224,6 bilhões, o que corresponde a pouco mais da metade dos recursos programados para a safra. Mesmo com crescimento no número de contratos, houve queda no valor total liberado, reflexo de um cenário de juros elevados e maior cautela das instituições financeiras na concessão de crédito. 

Outro ponto a considerar é a diferença entre o crédito anunciado e o crédito efetivamente liberado. Os dados divulgados pelo governo se referem, majoritariamente, a operações contratadas, que podem levar tempo até se converterem em desembolsos efetivos aos agricultores. Esse descompasso entre anúncio e execução ajuda a explicar por que, apesar dos números positivos, a percepção de dificuldade de acesso ao crédito permanece tão presente no cotidiano das cooperativas e dos agricultores familiares.

Os limites ficam ainda mais evidentes quando se faz o recorte para a transição agroecológica. Embora haja crescimento nas linhas específicas, o financiamento disponível ainda é insuficiente frente à complexidade dos processos de transição produtiva, que exigem assistência técnica continuada, fomento à inovação e tecnologia e capital com prazos e condições adequados aos diferentes desafios da transição.

O crescimento histórico do crédito para a agricultura familiar deve ser reconhecido, mas não pode servir para ocultar os limites estruturais que ainda restringem o acesso. Parte desses limites está na própria forma como o crédito público é operado no país, majoritariamente por meio do sistema bancário tradicional, que aplica à agricultura familiar critérios baseados em garantias, histórico bancário e avaliação de risco padronizada. Soma-se a isso a capacidade limitada, seja por falta de estrutura, conhecimento ou priorização, das instituições financeiras em lidar com a diversidade dos sistemas produtivos da agricultura familiar, o que faz com que projetos fora dos modelos convencionais encontrem maior dificuldade de aprovação.

Além disso, os próprios processos de habilitação e definição de limites de crédito impõem barreiras adicionais, muitas vezes incompatíveis com a realidade produtiva e organizativa de agricultores familiares e cooperativas. Na prática, isso significa que o acesso ao crédito continua condicionado a requisitos que excluem justamente os segmentos mais vulneráveis. A limitação é ainda mais evidente no caso dos assentados da reforma agrária, que, mesmo sendo público prioritário, enfrentam obstáculos adicionais para acessar financiamento. Sem mudanças nos instrumentos e nas formas de operação, o sistema continuará ampliando recursos sem ampliar, na mesma medida, o acesso.

O desafio, portanto, não é apenas ampliar o crédito, mas transformá-lo em um instrumento efetivo de inclusão produtiva.

Nesse contexto, iniciativas de financiamento popular e investimento de impacto surgem não apenas como complemento, mas como experiências de inovação necessária que podem contribuir na reformulação das políticas públicas. Ao operar com outras formas de garantia, maior proximidade com os territórios e uma lógica de financiamento orientada ao impacto, essas experiências conseguem alcançar públicos historicamente excluídos pelo sistema financeiro tradicional.

Mais do que ampliar o acesso ao crédito, essas iniciativas contribuem para fortalecer cadeias produtivas, dinamizar economias locais e apoiar a transição para modelos de produção baseados na agroecologia e na soberania alimentar.

Não há dúvidas sobre o papel importante que o Plano Safra cumpre para a agricultura familiar, mas os desafios ainda são muitos. Se quisermos, de fato, democratizar o acesso ao financiamento e fortalecer a agricultura familiar no Brasil, será necessário enfrentar, de forma mais direta, as estruturas que limitam quem pode acessar o crédito e em que condições.

*Luis Costa é diretor-executivo do Finapop

**Maura Silva é integrante da equipe de comunicação.

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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