Brasil

Apresentação do novo Plano Clima é uma ‘excelente notícia’ embora precise de ‘mais ambição’, diz analista

Cláudio Angelo, do Observatório do Clima, analisa contradições na meta de emissões e lobby do agronegócio

No audio source provided.
Governo apresenta novo plano para enfrentar a crise climática
Governo apresenta novo plano para enfrentar a crise climática | Crédito: Divulgação/Polícia Federal

Após 17 anos, o Brasil lançou seu novo Plano Clima, um documento transversal que envolve 25 ministérios e estabelece diretrizes para mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o coordenador de política internacional do Observatório do Clima, Cláudio Angelo, avalia os avanços, as lacunas e os desafios do plano em um cenário global de retrocessos.

Angelo começa por contextualizar o plano no cenário internacional, alertando que “tudo é relativo”. “A China recuou em suas metas, os Estados Unidos são o que são, a União Europeia perde ambição, a Índia prende ativistas. Diante desse cenário tétrico, o Brasil apresentar um plano clima completo — com mitigação, adaptação e meios de implementação — é uma excelente notícia.”

Ele destaca que o plano atual sofreu mudanças comparado com o de 2008. “Naquela época, mal tínhamos meta de redução de desmatamento. Agora falamos em zerar o desmatamento, ainda que o conceito do governo seja menos ambicioso que os discursos de Lula em 2022-2023.”

O plano apresenta duas metas possíveis para 2035: 850 milhões de toneladas de emissões ou 1,05 bilhão. Angelo aponta a incoerência. “Não é uma banda, são dois números bem diferentes. O menos ambicioso (1,05 bi) não é compatível com zerar emissões líquidas em 2050, que é o necessário para estabilizar o aquecimento abaixo de 2 graus.”

A indefinição tem consequências práticas. “As políticas para atingir 850 milhões são muito diferentes das necessárias para 1,05 bi. Sem decidir onde quer chegar, é garantido que não vai chegar lugar nenhum.”

A agropecuária é um dos setores mais polêmicos do plano. “Eles tiveram tudo o que queriam. Pressionaram para que o desmatamento fosse excluído da conta do agro — como se desmatamento neste país fosse para outra coisa. Conseguiram tirar a grilagem em áreas públicas da conta deles.”

O plano prevê para o setor uma variação que vai de 7% de redução a 2% de aumento nas emissões. “Daria para ser mais ambicioso, com metas mais estritas de redução de metano, e mirar o desmatamento zero em 2030, como prevê o balanço global do Acordo de Paris. O Brasil fala em zerar o ilegal até 2030 e reduzir o legal. Dá para fazer mais.”

Para Angelo, o setor de energia é onde o plano mais deixa a desejar. “Ganharam um aumento de 44% nas emissões no cenário menos ambicioso para 2035. E o plano ignora completamente o discurso do governo sobre transição energética.”

Ele lembra que Lula falou em Belém sobre um “mapa do caminho” para livrar o Brasil da dependência de combustíveis fósseis. “Mas o plano não menciona ‘fim dos combustíveis fósseis’, ‘transição para longe dos fósseis’, nada. Segue assumindo que o Brasil vai expandir produção de óleo e gás, e só fala em reduzir emissões da produção — que são uma fração do problema. O barril emite muito mais quando queimado, e isso fica de fora.”

Sobre a adaptação das cidades, Angelo é direto. “A adaptação é um problema maior que a mitigação porque é local. Em última instância, quem responde é o prefeito. E os municípios mais vulneráveis são também os mais endividados. Há uma questão de equidade federativa aí.”

Ele critica a falta de continuidade das políticas. “Assim que a tragédia passa, o gestor esquece que o clima mudou. Porto Alegre é um exemplo: depois de tudo o que aconteceu, pouco se fez em adaptação. É uma tragédia que a mudança climática potencializa problemas históricos de urbanização, déficit de moradia, deslizamentos — mas muitos gestores agem como se o clima fosse o mesmo de 50 anos atrás.”

Angelo conclui com um balanço cauteloso. “O Plano Clima é um avanço real em relação ao que tínhamos, mas não faz a transformação necessária na economia brasileira para nos prepararmos para um mundo de 1,5°C. Não entrega políticas públicas compatíveis nem com 2 graus. Os outros países também não, mas isso não é justificativa. O Brasil precisa decidir qual meta quer e, a partir daí, construir políticas à altura do desafio.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter