Antes mesmo do início da campanha eleitoral de 2026, uma mudança me chamou a atenção: candidaturas começaram a me procurar em busca de ajuda para elaborar propostas sobre cannabis. Quatro anos antes, o movimento havia sido o contrário. Em 2022, fui eu quem precisou provocar os candidatos a falar sobre o tema por meio da série de entrevistas “Cannabis na Política”, que reuniu nomes como Sofia Manzano, Sônia Guajajara, Jones Manoel, Fabrício Rosa e Goura Nataraj.
A inversão é significativa. Em períodos eleitorais, pautas como aborto, legalização das drogas e eutanásia costumam ser afastadas dos debates pelo receio do custo eleitoral e pela pressão religiosa e conservadora. Em 2026, porém, a cannabis não apenas ganhou espaço nas campanhas: passou a ser discutida a partir de propostas mais concretas sobre produção, acesso e distribuição.
A grande novidade é a defesa da produção de cannabis pela agricultura familiar. No levantamento realizado para este artigo, mais de 20 candidatos do PT, Psol, PSTU, PV, PDT, Rede e PSB publicaram conteúdos ou concederam entrevistas reconhecendo pequenos agricultores e assentados da reforma agrária como produtores legítimos da planta. É a primeira vez que essa defesa aparece com tamanha força e abrangência em uma campanha eleitoral brasileira.
Esse movimento tem importância histórica porque legitima a agricultura familiar, no discurso político, como um novo ator na disputa pelo modelo de produção legal da cannabis. Não basta autorizar grandes empresas a cultivar: é preciso criar condições concretas para que pequenos agricultores e assentados da reforma agrária também participem dessa cadeia, com acesso a crédito, assistência técnica, pesquisa, tecnologia e segurança jurídica.
Ao longo de mais de uma década de processo de regulamentação da cannabis medicinal no Brasil, essa possibilidade permaneceu fora do centro do debate institucional. Mesmo as novas normas da Anvisa não reconhecem a agricultura familiar e os assentamentos da reforma agrária como uma categoria específica de produtores. A regulamentação avança, mas mantém esses grupos à margem e ignora a possibilidade de transformar a legalização em instrumento de reparação histórica.
Contexto histórico e político das eleições de 2026
Seis fatores tornaram a pauta da cannabis mais difícil de ignorar nas eleições de 2026: a continuidade da mobilização social; a expansão do mercado medicinal; a descriminalização do porte para uso pessoal pelo STF; as novas regras da Anvisa para pesquisa, cultivo e produção; os mais de 400 projetos locais relacionados ao acesso pelo SUS que movimentaram discussões públicas sobre o assunto; e a presença crescente da planta nos veículos de comunicação abordando saúde, ciência, economia e agricultura.
Ao mesmo tempo, a retomada da Doutrina Monroe pelo governo Trump e o uso de acusações como “narcoterrorismo” e “narcoestado” contra países latino-americanos reforçam a guerra às drogas como instrumento de pressão internacional. Esse cenário coloca uma contradição para o campo progressista: não é possível defender a soberania brasileira e aceitar o proibicionismo que ajuda a legitimar intervenções estrangeiras. Apesar da resistência e do moralismo que ainda atravessam o campo progressista, nem todos continuam sendo “camaradas caretas”, para usar a expressão do pesquisador Júlio Delmanto.
Já não cabe aos políticos fugir do debate sobre cannabis. O uso medicinal já é regulamentado no Brasil. Portanto, a discussão não pode mais se limitar a ser a favor ou contra a planta. O que está em disputa é o modelo de regulamentação: quem poderá produzir, como garantir o acesso e quem ficará com os lucros. As candidaturas que entram nesse debate incluem militantes históricos da causa, nomes que incorporaram a cannabis a outras lutas políticas e candidaturas que encontraram na expansão da pauta uma oportunidade de ganhar visibilidade. A seguir, algumas delas e suas propostas:
Candidatos à Presidência e a governador
Entre as candidaturas à Presidência, Hertz Dias (PSTU) e Edmilson Costa (PCB), ambos da esquerda radical, destacam-se pelas propostas para a cannabis.
Edmilson propõe retirar a política de drogas do campo policial e tratá-la como questão de saúde, educação e política social, sob controle público e sem entregar o mercado a monopólios nacionais ou estrangeiros. Para ele, é “promissora a possibilidade de inserção do cânhamo industrial na agricultura familiar e nos assentamentos da reforma agrária”. O Estado também deveria estimular o beneficiamento e a industrialização próximos às regiões produtoras, mantendo maior parcela do valor gerado nas comunidades.
Hertz, por sua vez, afirma: “Legalizar é retirar do crime organizado e da milícia o controle de um mercado bilionário, e tirar da polícia o pretexto para invadir e matar.” Sua proposta combina estatização da produção e da distribuição com a incorporação de agricultores familiares e assentados da reforma agrária à cadeia de uma empresa estatal.
O candidato ao governo de Pernambuco Ivan Moraes (Psol) propõe um Programa Estadual da Cannabis baseado em convênios com associações rurais e canábicas, coletivos indígenas e comunidades quilombolas. A produção seria destinada prioritariamente à fabricação de fitoterápicos pelo Lafepe e à distribuição gratuita pelo SUS, além de abastecer os setores têxtil, cosmético e da construção civil. A proposta também prevê um Comitê Popular da Cannabis Medicinal, uma feira ou bienal do setor e hortas comunitárias integradas às ações de saúde e redução de danos.
Candidatos a deputado estadual e federal
Fabrício Rosa (PT-GO) e Goura (PDT-PR), que já defendiam a pauta em 2022, passaram a incluir a agricultura familiar em suas propostas. No Paraná, Goura promove o Fórum Paranaense de Cannabis, evento anual e itinerante sobre pesquisa, acesso e inovação e que contou com a presença do MST esse ano. Ele é autor da Lei Pétala, que prevê o acesso à cannabis medicinal pelo SUS do Paraná, e pretende ampliar o programa no próximo mandato.
Eduardo Suplicy (PT) é uma figura fundamental no debate sobre políticas de drogas. Entre suas propostas estão espaços de uso seguro de substâncias e ações de saúde e redução de danos nos territórios onde o consumo se concentra nas cidades. Suplicy também trabalha em uma proposta de legislação estadual para a cannabis que pode servir de referência para o debate federal, ao contemplar a participação de agricultores familiares, assentados da reforma agrária e cooperativas na produção.
Na campanha paulista, Suplicy e Paulo Teixeira (PT) apresentam-se nas redes como “a dupla da cannabis medicinal”, com a proposta: “Cannabis medicinal no SUS! Produzida por associações e agricultura familiar!” Defensor histórico da pauta e do PL 399/2015, Paulo Teixeira também impulsionou, quando esteve à frente do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), a inclusão das associações de pacientes no Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF).
Bacelar (PV-BA), presidente da Frente Parlamentar da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial, também defende a participação da agricultura familiar.
André Barros (PSOL-RJ), militante histórico da legalização, resume sua proposta no slogan: “Latifúndio é uma vergonha, reforma agrária para plantar arroz, feijão e maconha”.
Na Paraíba, Saulo Dantas (PT) propõe o Pacam, iniciativa baseada no cultivo agroecológico da cannabis em assentamentos e no processamento da produção por associações, cooperativas e laboratórios autorizados. A cadeia seria destinada à fabricação de óleos, pomadas e outros produtos medicinais.
Rosa Amorim (PT-PE), uma das principais candidaturas do MST, defende a democratização da cadeia produtiva para agricultores familiares e assentados da reforma agrária. Para Rosa, essa inclusão precisa vir acompanhada de condições reais de participação: assistência técnica, acesso a crédito e apoio à organização produtiva. São medidas necessárias para que pequenos agricultores possam produzir e permanecer em um mercado que tende à concentração nas mãos de grandes empresas. A candidata também pretende articular universidades, centros de pesquisa, trabalhadores rurais e movimentos sociais de Pernambuco na construção dessa política, unindo saúde pública, ciência, produção e desenvolvimento regional.
Ao disputar uma vaga no Congresso Nacional, Rosa leva a experiência dos assentamentos da reforma agrária para o debate sobre quem terá o direito de produzir cannabis no Brasil. É uma aliada importante para transformar a participação da agricultura familiar em política pública.
Bancada da Esquerda Radical
A Bancada da Esquerda Radical reúne Jones Manoel (Psol-PE), Sâmia Bomfim (Psol-SP), Renato Freitas (PT-PR), Glauber Braga (Psol-RJ), Fernanda Melchionna (Psol-RS), Fábio Félix (Psol-DF), Vivi Reis (Psol-PA) e Thiago Ávila (Rede-SP), entre outros. A grande maioria de seus integrantes defende a legalização da cannabis. Sâmia, aliada histórica da causa, também questiona o modelo das comunidades terapêuticas e defende políticas de redução de danos.
Conhecido internacionalmente pela militância em defesa da Palestina, Thiago Ávila relaciona a cannabis a um sistema mais amplo: “No contexto da agricultura familiar, ela promove não apenas saúde, mas é uma planta com impacto ecossistêmico positivo em sistemas agroflorestais. É renda, promoção de saúde e regeneração dos biomas atreladas a uma mudança de paradigma importante para a sociedade.”
Jones Manoel amplia o debate e propõe: “O modelo deve ser pensado a partir da reforma agrária que fortaleça a agricultura familiar e práticas agroecológicas, que fortaleça o complexo econômico e industrial nacional, concentrado nos órgãos públicos tanto para produção como para distribuição”, afirma. Para ele, o cultivo não pode ser entregue às multinacionais nem orientado apenas à exportação e ao agronegócio. A proposta também inclui a descriminalização efetiva da cannabis e o enfrentamento da guerra às drogas e da violência policial dirigida principalmente contra a população negra e periférica.
A perspectiva de Jones Manoel sobre a cannabis se ampliou nos últimos quatro anos. Desde as lives do projeto “Cannabis na Política”, em 2022, ele já se posicionava como antiproibicionista e em defesa da legalização. Agora, aprofunda o debate ao inserir a cannabis em um projeto de reindustrialização do país, fortalecimento da soberania nacional e atuação do Estado na produção e na distribuição.
Com candidaturas em seis estados e no Distrito Federal, a articulação da Bancada da Esquerda Radical pode fortalecer no Congresso uma perspectiva fundamental para a causa canábica: uma legalização pela esquerda, que garanta condições de produção à agricultura familiar e acesso a toda a população.
O horizonte
A política de drogas continua sustentando o encarceramento em massa da população negra e periférica, o financiamento das comunidades terapêuticas e ações violentas contra pessoas que usam drogas em contextos de vulnerabilidade. Transformar sofrimento, prisão e exclusão em fontes de lucro é uma perversidade que não pode continuar sendo legitimada pelo Estado, enquanto estratégias efetivas de redução de danos permanecem fora dos programas eleitorais.
É por isso que o quadro desenhado neste texto tem importância histórica. Reconhecer agricultores familiares e assentados da reforma agrária como produtores legítimos representa uma rasteira no projeto neoliberal que concentra os lucros e exclui o povo tanto do mercado quanto do acesso ao remédio.
Para além dos discursos, os próximos quatro anos precisam transformar essas propostas em políticas públicas, com crédito, assistência técnica, pesquisa, segurança jurídica, beneficiamento e participação social. Um modelo de produção de cannabis pela agricultura familiar, desenvolvido na escala continental do Brasil, pode se tornar uma das experiências mais importantes de legalização do mundo.
Os camaradas estão menos caretas e alguns finalmente “saíram do armário verde”. Isso é, sim, um avanço histórico. Espero chegar às eleições de 2030 escrevendo sobre um Programa Nacional de Cannabis para Agricultores Familiares e Assentados da Reforma Agrária — o Pronocanna — já implantado e dando flores.
*Luna Vargas é mestra em Antropologia pela EHESS (Paris). Fundadora e educadora da Inflore, projeto pioneiro na formação de profissionais para o mercado canábico. Pesquisa mercado e regulamentação da cannabis em diferentes países. Atua como comunicadora, palestrante e consultora. Instagram: @lunavargas
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

