FomeRI

FomeRI – Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

O aumento mundial do Gasto com Importação de Alimentos: um alerta para as políticas de soberania e segurança alimentar e nutricional no Brasil

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'Fortalecer o Estado nacional é fundamental para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada', salientam Aline Mota e Thiago Lima
‘Fortalecer o Estado nacional é fundamental para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada’, salientam Aline Mota e Thiago Lima | Crédito: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Produzir alimentos diversos e insumos agrícolas dentro do próprio território é, sim, uma questão econômica, mas também é uma forma de soberania alimentar

Por Aline Mota* e Thiago Lima**

Quando vão ao mercado, muitos brasileiros não sabem que o aumento no preço dos alimentos é uma tendência mundial que já tem quase 20 anos. Neste período, as análises sobre esse fenômeno da inflação estrutural da comida vão se refinando. O principal relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o estado mundial da segurança alimentar e nutricional (conhecido como SOFI 2026), por exemplo, se debruçou sobre o alto custo das dietas saudáveis. Neste texto, queremos chamar a atenção para outro aspecto: os Gastos com Importação de Alimentos, publicados pela Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), no relatório Food Outlook – biannual report on global food markets.

Em 2025, a soma global das importações de alimentos chegou a cerca de R$ 11 trilhões (USD 2.2 trilhões), uma alta de 7,9% em relação a 2024. Esse é o valor mais alto já registrado, batendo o recorde do ano anterior. Se pagar mais caro pela comida importada é um problema para muitos países, inclusive para o Brasil, que é grande produtor, imagina para aqueles que são dependentes de importações? Infelizmente, é comum que estes sejam os países mais pobres do mundo.

É importante destacar que o aumento não ocorreu porque todos os alimentos ficaram mais caros. Os custos de importação de cereais, açúcar e oleaginosas caíram, o que é positivo, por serem itens básicos no mundo todo. O crescimento esteve concentrado em determinados produtos de maior valor, especialmente café e cacau, produtos de origem animal, pescado, frutas e hortaliças. Esses são relevantes para garantir refeições diversificadas, garantindo proteínas, micronutrientes e vitaminas. O grupo formado por café, chá, cacau, especiarias e produtos relacionados teve o maior encarecimento, com aumento de 33,3% em 2025 em relação a 2024, respondendo por mais de um terço de todo o aumento registrado no GIA mundial. Logo atrás vieram frutas, legumes e hortaliças.

Gráfico do relatório Food Outlook – Biannual report on global food markets. Traduzido com IA pelos autores deste artigo | Crédito: Reprodução/FAO

Os países de alta renda concentram a maior parcela do GIA mundial. Em 2025, o aumento da conta global foi puxado principalmente por esse grupo, em grande medida pela elevação dos seus gastos com café, cacau e outros produtos de maior valor. Isso não significa que países ricos estejam diante da mesma vulnerabilidade alimentar dos países pobres. Entretanto, a inflação de alimentos é um problema real para suas sociedades, sobretudo para assalariados, trabalhadores informais e, claro, desempregados.

Nos países de renda média-alta – como o Brasil e para o qual não há dados individualizados no relatório – o GIA aumentou R$ 96,9 bilhões (USD 19 bilhões), ou 4%. Nos países de renda média-baixa, a alta foi de R$ 74,0 bilhões (USD 14,5 bilhões), ou 7%. Já nos países de baixa renda, a conta cresceu R$ 8,2 bilhões (USD 1,6 bilhão), ou 6,7%. 

Um alerta: o Gasto com Importação de Alimentos não deve ser confundido simplesmente com a quantidade de comida que um país compra no exterior. Ele expressa o valor monetário dessas importações. Por isso, a conta pode aumentar mesmo quando não há aumento correspondente no volume de alimentos importados. Fretes, energia, seguros, câmbio e condições de oferta ajudam a determinar quanto um país precisa desembolsar para comprar alimentos no mercado internacional.

É justamente quando olhamos para esses países que a estatística ganha uma dimensão mais preocupante. Nos países de baixa renda, a redução dos gastos com cereais e açúcar foi mais do que compensada pelo aumento das despesas com óleos e gorduras vegetais, café, chá, cacau, frutas, hortaliças, carnes e pescado. O mesmo padrão aparece entre grupos particularmente vulneráveis. Nos países de menor desenvolvimento relativo (os países mais pobres do mundo), o GIA aumentou R$ 15,3 bilhões (USD 3 bilhões), ou 4,9%. Nos países em desenvolvimento que são importadores líquidos de alimentos – aqueles que importam mais alimentos do que exportam –, a conta aumentou R$ 49,0 bilhões (USD 9,6 bilhões), ou 6,5%. Na África Subsaariana, o crescimento foi de R$ 24,5 bilhões (USD 4,8 bilhões), ou 7,7%. 

Isso ilustra algo preocupante no atual sistema agroalimentar global. Mesmo quando o custo de importação de alguns dos alimentos básicos mais importantes, como os cereais, diminui, países vulneráveis continuam vendo crescer a sua conta de alimentos fundamentais para proteínas, micronutrientes e vitaminas, o que reverbera no custo geral das dietas saudáveis.

É preciso que fique claro: diante de um cenário internacional marcado por volatilidades e tensões, a questão não é abandonar o comércio internacional. O comércio é importante para o Brasil e para o mundo. A questão é: o quanto convém gastar com importações, principalmente em países com dificuldades financeiras e cambiais? O quanto o aumento da produção e da produtividade nacional não poderia aliviar essa conta?

No nosso país, precisamos estar atentos para fortalecer as políticas que garantem alimentação, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar, restaurantes populares, bancos de alimentos etc. Precisamos também aperfeiçoar políticas voltadas para produção e consumo de frutas, legumes, verduras e pescados e ampliar a capacidade de produção diversificada da agricultura familiar. Significa também discutir a estrutura fundiária e a reforma agrária, ampliando as condições para que agricultores familiares produzam mais alimentos para o mercado interno. Investir nessa diversificação importa porque o sistema agroalimentar brasileiro é marcado por uma forte concentração produtiva – com papel preponderante do grande agronegócio – em um conjunto relativamente pequeno de grandes commodities, enquanto a agricultura familiar está associada a uma enorme diversidade de alimentos: mais de 500 produtos, segundo uma pesquisa publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Paralelamente, investir no desenvolvimento de bioinsumos capazes de substituir fertilizantes químicos e agrotóxicos é estratégico.

Olhar para os gastos com importação de alimentos é crucial para ampliar a compreensão das pressões que incidem sobre o sistema agroalimentar internacional. No atual contexto de inflação global de alimentos, impulsionado por mudança climática, crises geopolíticas e ações unilaterais, fortalecer o Estado nacional é fundamental para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada. Produzir alimentos diversos e insumos agrícolas dentro do próprio território é, sim, uma questão econômica, mas também é uma forma de soberania alimentar, de soberania nacional.

*Aline Mota é mestranda em Ciência Política e Relações Internacionais pela UFPB e pesquisadora do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais (FomeRI).

**Thiago Lima é professor e pesquisador do FomeRI da UFPB. Membro do Instituto Fome Zero.

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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