Frei Gilvander Moreira

Gilvander Moreira é frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente e assessor da CPT/MG, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica)

Mês da Bíblia: Daniel na luta anti-imperialista

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A última palavra será da vida, da liberdade e não dos podres poderes | Crédito: canva

A pedrinha que derruba a grande estátua é como a luta dos povos oprimidos

Por frei Gilvander Moreira 

Para o mês da Bíblia, setembro, somos convidados a refletir sobre o livro de Daniel, um profeta apocalíptico que gera esperança onde a esperança está por um fio. 

O grande projeto bíblico da estátua gigante de pés de barro do livro de Daniel, narrada em Daniel 2,1-49, que simboliza todos os sucessivos impérios opressores e exploradores, com seus poderes econômico, político e ideológico, nos inspira a assumir posturas e compromissos pela construção de uma sociedade anti-imperialista, justa e solidária.

Segundo o capítulo dois de Daniel, o rei Nabucodonosor fica profundamente perturbado por um sonho enigmático. Assustado, exige que os sábios – magos, astrólogos, agoureiros e adivinhos – não apenas interpretem, mas adivinhem o sonho que tivera. “O rei nos exige algo sobre-humano”, reconhecem eles. Diante da incapacidade dos “sábios”, o rei ordena a pena de morte para todos. 

Condenado à morte, Daniel pede um prazo e, em uma visão, Deus lhe revela o mistério do sonho, deixando Daniel agradecido por uma “brecha” que o faça escapar da execução da sentença de pena de morte. Levado diante do rei, Daniel desmascara o pretenso poder dos sábios: “não são capazes de desvendar o segredo… Mas há no céu um Deus que revela os segredos”. 

Ou seja, pretensos sábios usam, em vão, o nome de Deus e, diante disso, torna-se necessária uma teologia libertadora, que compreenda “os segredos de Deus” nas entranhas da história. Trata-se da luta pela afirmação do Deus do povo exilado contra os ídolos de todos os impérios. Daniel, então, revela o sonho e sua interpretação, mostrando o que acontecerá “nos últimos dias”.

Eis o que o rei viu em seu sonho: uma grande estátua, alta e muito brilhante, de aparência impressionante, composta por metais de valor decrescente (ouro, prata, bronze, ferro e barro). A cabeça era de ouro maciço; o peito e os braços, de prata; a barriga e as coxas, de bronze; as pernas, de ferro; os pés, de uma mistura de ferro e barro. Então, sem que ninguém a tocasse, uma pedra soltou-se de uma montanha, atingiu os pés da gigante estátua e os despedaçou. Imediatamente, toda a estátua desmoronou, transformando-se em pó. 

Isto recorda a profecia bíblica de Gênesis 3,19: “Tu és pó e ao pó retornarás.” Ninguém e nenhum poder construído será imortal, mas na história será reduzido a pó. A pedra, então, tornou-se uma grande montanha que encheu toda a terra.

Daniel interpretou o sonho do rei da seguinte forma: “Vossa Majestade é a cabeça de ouro. Após o seu reino, surgirá outro, inferior (prata), depois um terceiro (bronze) e um quarto, duro como o ferro. No entanto, este último reino terá pés, parte de ferro e parte de barro: forte por um lado, mas fraco e dividido por outro”. Provavelmente, os reinos dizem respeito aos impérios Babilônico, Medo-Pérsico, Grego e Sírio, cujo rei é Antíoco IV. Essa divisão interna e contraditória é sua fraqueza fatal. 

Então, Deus suscitará um reino que nunca será destruído. Esse reino é simbolizado pela pedra que, “sem auxílio humano”, rolou da montanha e esmiuçou a gigante estátua. “Rolar da montanha” significa que tem origem divina, o que, no mais profundo, não exclui a participação humana, pois não há dicotomia entre divino e humano, duas faces da mesma moeda. 

O capítulo 2 de Daniel termina dizendo que o rei  se prostrou diante dele e reconheceu a sua profecia. Tentou cooptá-lo, propondo fazê-lo governador de todas as províncias da Babilônia, mas ele não aceitou. Sugeriu que o poder fosse exercido por outras lideranças da confiança de Daniel. Assim, a profecia seguiu o seu caminho.

Em contextos políticos de poderosos exercendo o poder, pretendendo ser onipotentes, é tremendamente revolucionário afirmar, como o fez o profeta Daniel, que o único poder imbatível é o de Deus e só ele está no “volante” da história. Assim, ele deslegitima os pretensos poderosos e afirma outro poder que não é o exercido por nenhum ser humano. 

O poder que Deus tem é o poder do amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8), ou seja, o amor é Deus. Logo, o poder do Deus da vida está em nós, especialmente nos empobrecidos, permeando e perpassando a trama das relações humanas e sociais. O divino está no humano. Sem a participação humana, tecendo novas relações e construindo instituições com o poder democratizado, não é possível fazer desmoronar os podres poderes. 

Reconhecer a beleza espiritual da profecia de Daniel, a estátua gigante sendo desmoronada por uma pedrinha, é dizer: a última palavra será da vida, da liberdade e não dos podres poderes. Isso suscita esperança e faz a luta continuar. Assim como o ciclista mantém o equilíbrio ao olhar para a frente, cultivar uma utopia revolucionária é vital e imprescindível. 

No contexto da resistência dos povos bíblicos explorados, a pedrinha pode ser interpretada como a luta dos povos oprimidos, inspirada por Deus contra o domínio selêucida, que insistia em expandir o império grego sobre uma gama maior de povos. 

Gilvander Moreira é frei e padre da Ordem dos Carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente e assessor da CPT/MG, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica)

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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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